O futuro em aberto: incertezas e riscos nas escolhas escolares
O futuro em aberto: incertezas e riscos nas escolhas escolares
Num estudo anterior em que participámos (PIQS/SOC/50013/2003), visando caracterizar e explicar a construção de percursos escolares e de inserção de jovens no mercado de trabalho, fomos confrontados com um dado particularmente surpreendente e estruturante das respostas obtidas na pesquisa empírica.
O inquérito por questionário - uma das técnicas utilizadas nesse estudo - incidindo sobre um universo de 1929 jovens, rapazes e raparigas, estudantes do 3º ciclo do ensino básico e do secundário de escolas públicas do país, devolvia-nos uma constante, na resposta à pergunta "Se sim (pretendes continuar a estudar após o 12º ano) que curso pretendes seguir depois do secundário?" - era ela a significativa proporção de "indecisos" entre os inquiridos do ensino secundário.
Este revela-se um paradoxo interessante: jovens que realizaram uma escolha (prosseguir estudos, numa dada via de estudos e num agrupamento específico), mas não sabem o que fazer com ela. A indeterminação e a incerteza parecem reinar entre alguns dos jovens do ensino secundário. Ora, a incerteza de caminhos coloca a questão do sucesso escolar: se não se sabe o que escolher, significa que fica em aberto a possibilidade de experimentação, através de tentativa e erro (insucesso), até à descoberta de uma "verdadeira" vocação.
Mobilizando algumas das teorias da individualização, a investigação aqui apresentada pretende questionar, a partir do ponto de vista dos estudantes, a perspectiva institucional de definição do sucesso escolar. Esta assenta numa concepção linear, sem rupturas, do percurso académico, pautada pela transposição das sucessivas etapas previstas na estrutura curricular do curso, e pressupõe o não questionamento da opção inicialmente realizada pelo aluno. Ora, esta definição de sucesso pode não corresponder, necessariamente, a uma experiência vivida como sucesso para o estudante. Com efeito, em contextos de modernidade avançada, a procura activa da realização individual, por parte de cada jovem, pode por vezes determinar o questionamento das escolhas e conduzir à reversibilidade de percursos, ou seja, à possibilidade de estes serem sinuosos, não lineares, retardados relativamente ao tempo-padrão institucionalmente previsto de permanência num dado curso. Tempo institucional e tempo individual de sucesso escolar podem, assim, não coincidir.
Contudo, a construção de um percurso elaborado por etapas só lineares na aparência, apesar de ser vivido como um livre arbítrio, está longe de o ser na realidade. Ele é perpassado por constrangimentos e influências várias, que importa realçar. Da família, por um lado. Apesar de a autonomia existencial hoje tender a dissociar-se da independência social e económica, os constrangimentos económicos familiares podem condicionar claramente (im) possibilidades de futuro. Da escola, por outro, como contexto institucional cuja oferta escolar disponível estabelece um quadro limitador das escolhas; mas também dos seus profissionais, que se apresentam eles próprios como modelos vocacionais e como importante fonte de informação (os professores e os orientadores escolares). Dos amigos e redes de sociabilidades juvenis, cuja proximidade e durabilidade temporal como espaço socializador (dentro e fora da escola) configura a descoberta colectiva de vocações, e estabelece-se como rede intensa de troca de informações e como "comunidade cabide" para partilha das angústias da escolha. Dos media, da imprensa e em particular da televisão que, constituindo na modernidade, uma das mais fortes possibilidades de rompimento com a "situacionalidade do lugar", favorecendo a separação do tempo e do espaço (Giddens, 2001), fornece aos jovens, mas também às suas famílias, grupos de referência (vocacionais, profissionais, de estilos de vida) mais amplos do que os disponíveis a nível local.
Neste estudo, pretendemos também apurar a interferência destes factores sociais no processo de escolha individual de uma dada via escolar e, assim, testar os limites e potencialidades das teses da individualização.
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Num estudo anterior em que participámos (PIQS/SOC/50013/2003), visando caracterizar e explicar a construção de percursos escolares e de inserção de jovens no mercado de trabalho, fomos confrontados com um dado particularmente surpreendente e estruturante das respostas obtidas na pesquisa empírica.
O inquérito por questionário - uma das técnicas utilizadas nesse estudo - incidindo sobre um universo de 1929 jovens, rapazes e raparigas, estudantes do 3º ciclo do ensino básico e do secundário de escolas públicas do país, devolvia-nos uma constante, na resposta à pergunta "Se sim (pretendes continuar a estudar após o 12º ano) que curso pretendes seguir depois do secundário?" - era ela a significativa proporção de "indecisos" entre os inquiridos do ensino secundário.
Este revela-se um paradoxo interessante: jovens que realizaram uma escolha (prosseguir estudos, numa dada via de estudos e num agrupamento específico), mas não sabem o que fazer com ela. A indeterminação e a incerteza parecem reinar entre alguns dos jovens do ensino secundário. Ora, a incerteza de caminhos coloca a questão do sucesso escolar: se não se sabe o que escolher, significa que fica em aberto a possibilidade de experimentação, através de tentativa e erro (insucesso), até à descoberta de uma "verdadeira" vocação.
Mobilizando algumas das teorias da individualização, a investigação aqui apresentada pretende questionar, a partir do ponto de vista dos estudantes, a perspectiva institucional de definição do sucesso escolar. Esta assenta numa concepção linear, sem rupturas, do percurso académico, pautada pela transposição das sucessivas etapas previstas na estrutura curricular do curso, e pressupõe o não questionamento da opção inicialmente realizada pelo aluno. Ora, esta definição de sucesso pode não corresponder, necessariamente, a uma experiência vivida como sucesso para o estudante. Com efeito, em contextos de modernidade avançada, a procura activa da realização individual, por parte de cada jovem, pode por vezes determinar o questionamento das escolhas e conduzir à reversibilidade de percursos, ou seja, à possibilidade de estes serem sinuosos, não lineares, retardados relativamente ao tempo-padrão institucionalmente previsto de permanência num dado curso. Tempo institucional e tempo individual de sucesso escolar podem, assim, não coincidir.
Contudo, a construção de um percurso elaborado por etapas só lineares na aparência, apesar de ser vivido como um livre arbítrio, está longe de o ser na realidade. Ele é perpassado por constrangimentos e influências várias, que importa realçar. Da família, por um lado. Apesar de a autonomia existencial hoje tender a dissociar-se da independência social e económica, os constrangimentos económicos familiares podem condicionar claramente (im) possibilidades de futuro. Da escola, por outro, como contexto institucional cuja oferta escolar disponível estabelece um quadro limitador das escolhas; mas também dos seus profissionais, que se apresentam eles próprios como modelos vocacionais e como importante fonte de informação (os professores e os orientadores escolares). Dos amigos e redes de sociabilidades juvenis, cuja proximidade e durabilidade temporal como espaço socializador (dentro e fora da escola) configura a descoberta colectiva de vocações, e estabelece-se como rede intensa de troca de informações e como "comunidade cabide" para partilha das angústias da escolha. Dos media, da imprensa e em particular da televisão que, constituindo na modernidade, uma das mais fortes possibilidades de rompimento com a "situacionalidade do lugar", favorecendo a separação do tempo e do espaço (Giddens, 2001), fornece aos jovens, mas também às suas famílias, grupos de referência (vocacionais, profissionais, de estilos de vida) mais amplos do que os disponíveis a nível local.
Neste estudo, pretendemos também apurar a interferência destes factores sociais no processo de escolha individual de uma dada via escolar e, assim, testar os limites e potencialidades das teses da individualização.






