Lugares e pertenças: Conjugalidades circulares entre Angola e Portugal
Lugares e pertenças: Conjugalidades circulares entre Angola e Portugal
A partir da consideração empírica do recente aumento dos fluxos transnacionais de Portugal para Angola contemporânea (o fluxo de Portugueses para Angola é mais do que o dobro dos Angolanos para Portugal - Observatório português da emigração), este projecto põe em discussão a visão pela qual as migrações laborais seriam exclusivamente um fenómeno que tem origem nos países com um grau de desenvolvimento menos avançado para aqueles com um maior grau de desenvolvimento Propõe-se assim um desafio teórico: ao uso e à utilidade das categorias sociológicas ligadas ao estado-nação, este projecto propõe a alternativa da abordagem transnacional (1; 2), considerada a mais adequada para entender a mudança que ocorre na conjugalidade e na vida das pessoas que migram. No âmbito dos estudos contemporâneos sobre famílias e vidas transnacionais (3), será analisada a emergência de novas formas de conjugalidade nos casais heterossexuais que vivem separados entre Portugal e Angola. Tendo em conta a importância da estratificação do género, quando o espaço doméstico é transnacional e não partilhado, (4) pretende-se entender como é reformulada a construção da masculinidade no casal quando o homem migra por motivos de trabalho para o outro país. A informação original recolhida tratará de captar as repercussões que a mobilidade produz na conjugalidade assim como na autopercepção e nas respresentações dos actores, do espaço doméstico, aqui entendido na sua dimensão física e afectiva, espacial e social (5). Quando os cônjuges se "separam", migrando, só um membro do casal emergem formas de conjugalidades fluidas que implicam um processo de readaptação dos papéis de género. Na escassez de estudos sobre a masculinidade e migrações entre Angola e Portugal, este projecto vem assim preencher um vazio que está inscrito na relação histórica, identitária e simbólica que, desde o século XVI, caracteriza as migrações entre Angola e Portugal. As formas de conjugalidade "circular" emergentes na contemporaneidade poderão ser analisadas também de um ponto de vista da teoria pós-colonial nas suas continuidades e nas rupturas do imaginário de Portugal colonial que acompanha a construção do género e das migrações entre os dois países (6). Todas estas questões surgem estritamente ligadas às reconstruções do sentido da casa ("home") que os actores experienciam. Sentir-se em casa e apropriar-se do espaço implica a análise de várias escalas: doméstica, do bairro, da cidade e até do país. Além da habitação, que é a primeira esfera da "casa", a mais íntima e privada, e do facto de viver com o seu parceiro, o "sentir se em casa" constrói-se através das práticas quotidianas da cidade, do conhecimento e sentimento de pertencer ao espaço urbano, da formação de redes sociais, e do sentido de identificação com os outros grupos que organizam a cidade (7). Importa perceber como, na presença de múltiplas « home », este novo espaço é reconstruído: como e em que medida as habitações onde os migrantes vivem na cidade se tornam um verdadeiro lar, um espaço que tem um valor simbólico.
Os estudos sobre a ligação entre "home" e migrações questionam maioritariamente a relação do migrante com o seu "home" de origem (8). Pretendemos dar atenção ao processo de (re)construção do "home" tanto na cidade de origem como na cidade de residência do homem migrante e as repercussões, na relação conjugal dos indivíduos, das duas representações e experiências.. Perante os desafios teóricos acima referidos a metodologia adoptada será também inovadora. Fundamentada no método Simultaneous Matched Samples (9), serão utilizados quer o método quantitativo (através da adaptação aos dois contextos de inquéritos, em Portugal e Angola quer o método qualitativo, com recurso a um total de 30 entrevistas nos dois países. A escolha geográfica dos países de origem dos fluxos assenta nas trajectórias académicas do investigador principal e dos outros membros da equipa. Projectos anteriores sobre transnacionalismo e migrações de origem africana (10,11,12,13; 14; 15) apontam para a existência de diferenças de género no acesso à migração nas sociedades de origem. O I.P. e outros membros da equipa, exploraram, em anteriores projectos, abordagens teóricas relacionadas com as migrações, as cidades, os contextos multiculturais e relações de género em contextos lusófonos nas suas especificidades históricas e em termos de identidade, cultura, e desenvolvimento (14, 16, 15). A participação do CEA-ISCTE, como instituição participante garante que a discussão teórica, irá potenciar uma abordagem pluridisciplinar que é entendida crucial no estudo proposto. A integração de jovens investigadores, potencia a investigação com uma faceta adicional de ensino/aprendizagem que constitui a garantia das melhores circunstâncias para o estudo deste tema complexo e multidimensional.
Transnacionalismo, Angola, Portugal, Conjugalidades, Masculinidade
A partir da consideração empírica do recente aumento dos fluxos transnacionais de Portugal para Angola contemporânea (o fluxo de Portugueses para Angola é mais do que o dobro dos Angolanos para Portugal - Observatório português da emigração), este projecto põe em discussão a visão pela qual as migrações laborais seriam exclusivamente um fenómeno que tem origem nos países com um grau de desenvolvimento menos avançado para aqueles com um maior grau de desenvolvimento Propõe-se assim um desafio teórico: ao uso e à utilidade das categorias sociológicas ligadas ao estado-nação, este projecto propõe a alternativa da abordagem transnacional (1; 2), considerada a mais adequada para entender a mudança que ocorre na conjugalidade e na vida das pessoas que migram. No âmbito dos estudos contemporâneos sobre famílias e vidas transnacionais (3), será analisada a emergência de novas formas de conjugalidade nos casais heterossexuais que vivem separados entre Portugal e Angola. Tendo em conta a importância da estratificação do género, quando o espaço doméstico é transnacional e não partilhado, (4) pretende-se entender como é reformulada a construção da masculinidade no casal quando o homem migra por motivos de trabalho para o outro país. A informação original recolhida tratará de captar as repercussões que a mobilidade produz na conjugalidade assim como na autopercepção e nas respresentações dos actores, do espaço doméstico, aqui entendido na sua dimensão física e afectiva, espacial e social (5). Quando os cônjuges se "separam", migrando, só um membro do casal emergem formas de conjugalidades fluidas que implicam um processo de readaptação dos papéis de género. Na escassez de estudos sobre a masculinidade e migrações entre Angola e Portugal, este projecto vem assim preencher um vazio que está inscrito na relação histórica, identitária e simbólica que, desde o século XVI, caracteriza as migrações entre Angola e Portugal. As formas de conjugalidade "circular" emergentes na contemporaneidade poderão ser analisadas também de um ponto de vista da teoria pós-colonial nas suas continuidades e nas rupturas do imaginário de Portugal colonial que acompanha a construção do género e das migrações entre os dois países (6). Todas estas questões surgem estritamente ligadas às reconstruções do sentido da casa ("home") que os actores experienciam. Sentir-se em casa e apropriar-se do espaço implica a análise de várias escalas: doméstica, do bairro, da cidade e até do país. Além da habitação, que é a primeira esfera da "casa", a mais íntima e privada, e do facto de viver com o seu parceiro, o "sentir se em casa" constrói-se através das práticas quotidianas da cidade, do conhecimento e sentimento de pertencer ao espaço urbano, da formação de redes sociais, e do sentido de identificação com os outros grupos que organizam a cidade (7). Importa perceber como, na presença de múltiplas « home », este novo espaço é reconstruído: como e em que medida as habitações onde os migrantes vivem na cidade se tornam um verdadeiro lar, um espaço que tem um valor simbólico.
Os estudos sobre a ligação entre "home" e migrações questionam maioritariamente a relação do migrante com o seu "home" de origem (8). Pretendemos dar atenção ao processo de (re)construção do "home" tanto na cidade de origem como na cidade de residência do homem migrante e as repercussões, na relação conjugal dos indivíduos, das duas representações e experiências.. Perante os desafios teóricos acima referidos a metodologia adoptada será também inovadora. Fundamentada no método Simultaneous Matched Samples (9), serão utilizados quer o método quantitativo (através da adaptação aos dois contextos de inquéritos, em Portugal e Angola quer o método qualitativo, com recurso a um total de 30 entrevistas nos dois países. A escolha geográfica dos países de origem dos fluxos assenta nas trajectórias académicas do investigador principal e dos outros membros da equipa. Projectos anteriores sobre transnacionalismo e migrações de origem africana (10,11,12,13; 14; 15) apontam para a existência de diferenças de género no acesso à migração nas sociedades de origem. O I.P. e outros membros da equipa, exploraram, em anteriores projectos, abordagens teóricas relacionadas com as migrações, as cidades, os contextos multiculturais e relações de género em contextos lusófonos nas suas especificidades históricas e em termos de identidade, cultura, e desenvolvimento (14, 16, 15). A participação do CEA-ISCTE, como instituição participante garante que a discussão teórica, irá potenciar uma abordagem pluridisciplinar que é entendida crucial no estudo proposto. A integração de jovens investigadores, potencia a investigação com uma faceta adicional de ensino/aprendizagem que constitui a garantia das melhores circunstâncias para o estudo deste tema complexo e multidimensional.





