Laboratórios e Paisagem (1929-1974)
Laboratórios e Paisagem (1929-1974)
O projecto põe em relação as práticas científicas nos Laboratórios de Estado com a criação de novas paisagens em Portugal, Angola e Moçambique durante o período do Estado Novo. Instituições que até ao presente foram subvalorizadas pela historiografia ganham uma nova relevância ao perceber-se o alcance da sua actuação territorial. Ao mesmo tempo, estuda-se a dinâmica de crescimento da comunidade científica portuguesa em função da própria colonização (interna e externa) do território. Em vez de perceber a máquina colonial como um instrumento prêt à porter para a apropriação do território, explora-se antes a sua natureza de artefacto construído de forma ad hoc para realizar os sonhos de uma autarcia alimentar e energética ou de uma exploração racional dos recursos coloniais. Em Portugal a investigação estará centrada no Plano de Rega do Alentejo e nas barragens hidroeléctricas das bacias do Zêzere e do Cávado. Para as colónias os casos a trabalhar serão o Plano de Desenvolvimento do Cunene em Angola e o Vale do Limpopo em Moçambique.
Estatuto:
Entidade proponente
Financiado:
Não
Keywords:
Ciência e Autarcia
Ciência Colonial
Paisagens Tecnológicas
Laboratórios de Estado
Ciência Colonial
Paisagens Tecnológicas
Laboratórios de Estado
O projecto põe em relação as práticas científicas nos Laboratórios de Estado com a criação de novas paisagens em Portugal, Angola e Moçambique durante o período do Estado Novo. Instituições que até ao presente foram subvalorizadas pela historiografia ganham uma nova relevância ao perceber-se o alcance da sua actuação territorial. Ao mesmo tempo, estuda-se a dinâmica de crescimento da comunidade científica portuguesa em função da própria colonização (interna e externa) do território. Em vez de perceber a máquina colonial como um instrumento prêt à porter para a apropriação do território, explora-se antes a sua natureza de artefacto construído de forma ad hoc para realizar os sonhos de uma autarcia alimentar e energética ou de uma exploração racional dos recursos coloniais. Em Portugal a investigação estará centrada no Plano de Rega do Alentejo e nas barragens hidroeléctricas das bacias do Zêzere e do Cávado. Para as colónias os casos a trabalhar serão o Plano de Desenvolvimento do Cunene em Angola e o Vale do Limpopo em Moçambique.
Objectivos:
A primeira intenção deste projecto é investigar a relevância dos laboratórios de estado na construção de paisagem no período do Estado Novo. <p>Explora-se o alcance das práticas científicas da Estação Agronómica Nacional, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e dos Centros da Junta de Investigações Coloniais nos grandes projectos de intervenção territorial em Portugal e nas Colónias. Pretende-se também avaliar as consequências ambientais dos projectos em que estas instituições se envolveram.</p><p>Num sentido inverso, quer-se perceber como a produção de novas paisagens determina as dinâmicas de reprodução e crescimento da comunidade científica portuguesa.</p>Como objectivo mais geral propõe-se fazer da história da ciência portuguesa um elemento essencial da narrativa da história contemporânea do país, pondo de lado o cânone organizado em volta das carências da investigação científica nacional. Propõe-se uma leitura alternativa da paisagem portuguesa em chave científico-tecnológica, que coloque o caso português em dinâmicas mais globais. Potenciam-se assim não só as comparações sobre práticas territoriais metrópole/colónia e colónia/colónia, como também comparações internacionais.
State of the art:
A história da ciência portuguesa do século XX tem-se feito sobretudo da identificação das ausências e presenças de instituições científicas similares à dos países centrais (Caraça, 1999). As certezas quanto ao escasso mérito da ciência produzida, aliadas à cortina negra do fascismo que oculta todos os outros fenómenos, produziram em conjunto um diagnóstico desolador (Rosas, 2000). No entanto, os historiadores da economia que se dedicaram aos anos que vão da implementação da ditadura em 1926 à revolução democrática de 1974, têm sabido fugir da retórica do fracasso revalorizando várias iniciativas levadas a cabo pelo Estado Novo que não contradizem a natureza totalitária do regime (Lains, 2003).<br />Em muitos projectos - electrificação, irrigação, industrialização - é evidente o protagonismo da nova estrutura de laboratórios nacionais mobilizada pelo Estado Novo. Nenhum desses laboratórios - Estação Agronómica Nacional (EAN), Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Centros da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais - mereceu a atenção dos historiadores, limitando-se as narrativas existentes a uma celebração da obra feita pelos próprios protagonistas (Heitor, Brandão de Brito & Rollo, 2004).<br />Apesar do consenso generalizado sobre as profundas alterações da paisagem portuguesa resultantes da mobilização de tecnologia ao longo do século XX (Ferreira de Almeida, 2004), tal constatação não estabeleceu ainda uma ligação sistemática entre centros de produção científica e novas paisagens tecnológicas. Neste projecto pretende-se fazer uso do frutífero cruzamento entre história das ciências e história ambiental (Hevly & Findley, 1998; Mitman, Murphy & Sellers, 2004), para dar conta das transições de escala entre fechados laboratórios da EAN em Oeiras ou do LNEC em Lisboa e grandes espaços como os do Plano de Rega do Alentejo ou o Plano de Desenvolvimento do Cunene. Importa não apenas perceber como aqueles centros científicos são actores fundamentais na conformação da paisagem, mas também como a própria comunidade científica nacional se vai estruturando à volta de projectos de colonização do território (interna e externa). É possível assim integrar umas instituições até agora subestimadas pela sua excessiva proximidade aos interesses do Estado, numa história internacional povoada por grandes laboratórios que se tornaram pontos de passagem obrigatórios para melhor entender a guerra-fria, o estalinismo ou os estados pós-coloniais (Gallison & Hevly, 1992; Visvanathan, 1985). <p>Caraça (1999) João Caraça, "Ciência", in António Barreto e Maria Filomena Mónica (coord.), Dicionário de História de Portugal, Vol. VII (Porto: Figueirinhas): 317-318<br />Ferreira de Almeida (2004) João Ferreira de Almeida (org.), Os Portugueses e o Ambiente (Oeiras: Celta)<br />Galison & Hevly (1992) Peter Galison and Bruce Hevly (eds.), Big Science. The Growth of Large Scale Research (Stanford: Stanford University Press)<br />Heitor, Brandão de Brito & Rollo (2004), Manuel Heitor, J. M. Brandão de Brito e Maria Fernanda Rollo (coord.), Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no Século XX (Lisboa: D. Quixote)<br />Hevly & Findley (1998) Bruce Hevly and John M. Findley,The Atomic West (University of Washington Press) <br />Lains (2003) Pedro Lains, Os Progressos do Atraso. Uma Nova História Económica de Portugal (Lisboa: ICS)<br />Mitman, Murphy & Sellers (2004), "A Cloud over History", Osiris 19: 1-20 <br />Rosas (2000) Fernando Rosas, Salazarismo e fomento económico (Lisboa: Editorial Notícias)<br />Visvanathan (1985) Shiv Visvanathan, Organizing for Science (Delhi: Oxford University Press) </p>
Parceria:
Não Integrado





