História do Conceito de Massas em Portugal no Século XX

História do Conceito de Massas em Portugal no Século XX

As "massas" são um objecto por regra mobilizado por sujeitos tais como líderes políticos, produtores culturais ou até cientistas sociais. No entanto, a história do conceito implica inverter as posições de regra: assim, é entre os sujeitos - é nas imagens por eles produzidas - que encontrámos os objectos da investigação.

Na circulação de sentidos em redor de duas tópicas - "chegada das massas à política" e "massificação da cultura" - emerge o conceito de "massas", havendo consensos fundamentais à sua formação mas havendo contradições que ele igualmente acolhe.

Esta tensão histórica será estudada em duas fases:

A) Analisando um conjunto de estudos sociais que ao longo do século XX se debruçaram sobre as "massas" e a "massificação".

B) Analisando, em três períodos do século XX (1917-1927, 1938-1946, 1962-1969), o discurso político e a representação jornalística sobre experiências de três ordens temáticas: política, religião e desporto.

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Não
Keywords: 
Elites, Cultura de Massas, Massas, Massificação da Política
As "massas" são um objecto por regra mobilizado por sujeitos tais como líderes políticos, produtores culturais ou até cientistas sociais. No entanto, a história do conceito implica inverter as posições de regra: assim, é entre os sujeitos - é nas imagens por eles produzidas - que encontrámos os objectos da investigação.

Na circulação de sentidos em redor de duas tópicas - "chegada das massas à política" e "massificação da cultura" - emerge o conceito de "massas", havendo consensos fundamentais à sua formação mas havendo contradições que ele igualmente acolhe.

Esta tensão histórica será estudada em duas fases:

A) Analisando um conjunto de estudos sociais que ao longo do século XX se debruçaram sobre as "massas" e a "massificação".

B) Analisando, em três períodos do século XX (1917-1927, 1938-1946, 1962-1969), o discurso político e a representação jornalística sobre experiências de três ordens temáticas: política, religião e desporto.

Objectivos: 
OBJECTIVOS PRINCIPAIS <p>1. Fazer a história do conceito de "massas" e situar os usos da ideia de "multidão", contribuindo para o debate geral sobre a nomeação dos actores sociais. </p><p>2. Estabelecer as ligações históricas entre estrangeiros e portugueses no processo de conceptualização das "massas". Aqui, a importância dos autores franceses (Le Bon, Tarde, Maurras, Lefebvre, Barthes ou Morin) é motivo para que parte do projecto decorra na EHESS.  </p><p>3. Participar do debate historiográfico internacional sobre a articulação entre "política de massas" e "cultura de massas", duas tópicas de sentidos por excelência migrantes. Interessa-nos aqui aproximar, a partir da confrontação com o caso português, teorizações europeias e latino-americanas.  </p><p>OBJECTIVOS COLATERAIS</p><p>1. Situar a problemática das "massas" na História Política e na História das Ideias, da relação entre salazarismo e "massas" à formação do anti-comunismo e do anti-americanismo. </p><p>2. Deste trabalho resultará um mapa de experiências e tendências útil a futuras investigações na história social e na história cultural, a caminho de uma História da Cultura de "Massas" em Portugal.     </p>
State of the art: 
Nas ci&ecirc;ncias sociais, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, foram poucos os conceitos deixados em sossego e palavras antes &quot;naturais&quot; tornaram-se o princ&iacute;pio dos problemas (KOSELLECK 2002). Assim, as crises de nomea&ccedil;&atilde;o dos actores sociais desafiam a pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o sujeito/objecto: o questionamento da ideia de &quot;classe&quot; enquanto nome que &quot;faz&quot; um objecto acompanha o debate sobre a pr&oacute;pria ideia do partido de vanguarda enquanto sujeito revolucion&aacute;rio e o questionamento da ideia de &quot;povo&quot; acompanha a fragiliza&ccedil;&atilde;o da autonomia do governo nacional enquanto agente pol&iacute;tico. <p>&nbsp;</p><p>Em Portugal, o conceito de &quot;povo&quot; foi problematizado em diversos trabalhos (BRANCO&amp;BRANCO 2003) e da nossa parte procur&aacute;mos compreender a rela&ccedil;&atilde;o entre &quot;povo&quot; e &quot;classe&quot;. J&aacute; sobre o conceito de &quot;massas&quot;, que beneficia de uma vulgaridade patente na sua f&aacute;cil invoca&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e jornal&iacute;stica, n&atilde;o pende qualquer problematiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. Duas linhas ajudam a perceber esta lacuna e a fazer um mapa de debates a abra&ccedil;ar para a suprimir: </p><p>&nbsp;</p><p>1)</p><p>A primeira linha come&ccedil;a por sublinhar a fr&aacute;gil institucionaliza&ccedil;&atilde;o da psicologia social em Portugal. Em Fran&ccedil;a, onde estaremos, cedo se debate o conceito de &quot;massas&quot; e a ideia de &quot;multid&atilde;o&quot; (MOSCOVICI 1981), no quadro de um debate internacional sobre a forma&ccedil;&atilde;o e institucionaliza&ccedil;&atilde;o da psicologia social (GINNEKEN 1992). Em Portugal, para al&eacute;m de contributos ocasionais da pr&oacute;pria disciplina e de contributos colaterais de alguns historiadores (ALMEIDA&amp;MARQUES 2005), a quest&atilde;o mereceu reduzida aten&ccedil;&atilde;o.</p><p>O problema aqui aberto n&atilde;o se confina numa arqueologia da psicologia social. Ele abrange todo um processo de constru&ccedil;&atilde;o de um olhar que procede a uma nova &quot;objectifica&ccedil;&atilde;o&quot; do social atrav&eacute;s da conceptualiza&ccedil;&atilde;o das &quot;massas&quot; e por rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s ideias de &quot;multid&atilde;o&quot;, &quot;povo&quot; ou &quot;classe&quot;. Os estudos que enfrentaram um tema semelhante ao que nos desafia, ainda que nem sempre acompanhemos os seus autores, foram dois (MACPHAIL 1991, CAREY 1992). Em Macphail discute-se o legado de Le Bon e analisa-se especificamente o contexto norte-americano; em Carey lan&ccedil;a-se um olhar provocat&oacute;rio sobre a hist&oacute;ria da ideia de &quot;massas&quot; em Inglaterra. </p><p>&nbsp;</p><p>2)</p><p>A segunda linha sublinha a prefer&ecirc;ncia da historiografia pelas &quot;culturas eruditas&quot; em detrimento da &quot;baixa cultura&quot;. A reduzida influ&ecirc;ncia dos &laquo;Cultural Studies&raquo; em Portugal &eacute;, em parte, efeito e causa desta prefer&ecirc;ncia. Desde os Anos 50, um conjunto de autores brit&acirc;nicos analisou a menoriza&ccedil;&atilde;o da &quot;cultura de massas&quot; (HOGGART 1961), objectificando quer o romantismo conservador de um F.R.Leavis quer o paradigma frankfurtiano, reclamando a possibilidade anal&iacute;tica de todos os objectos culturais independentemente do seu lugar nas hierarquias art&iacute;sticas e reivindicando a interac&ccedil;&atilde;o emissor/receptor contra uma totaliza&ccedil;&atilde;o do processo cultural no &laquo;locus&raquo; emissor (HALL 2003).</p><p>&nbsp;</p><p>&nbsp;</p>O nosso mapa de refer&ecirc;ncias, todavia, n&atilde;o se compromete por inteiro na sugest&atilde;o daquelas duas linhas. Dos debates sobre ac&ccedil;&atilde;o colectiva e ordem p&uacute;blica (CEREZALES&amp;GONZALEZ 2002) at&eacute; a an&aacute;lises que &quot;a partir de baixo&quot; se debru&ccedil;am sobre vis&otilde;es constru&iacute;das &quot;a partir de cima&quot; (SCOTT 1998) sugerem-se contributos importantes. O mesmo sucede em estudos latino-americanos que, entre a ideia do &quot;arca&iacute;smo populista&quot; e a ideia do &quot;exotismo cultural&quot;, analisaram simultaneamente a acep&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e cultural das &quot;massas&quot; (CANCLINI 1990).
Parceria: 
Não Integrado
Coordenador ICS 
Referência externa 
PROJ24/2009
Data Inicio: 
01/02/2008
Data Fim: 
31/01/2011
Duração: 
35 meses
Concluído