Objectivos:
The main objective is to make the history of the concept of "masses" in relation with concepts such as "multitude", "elites" or "people", therefore taking part in the large debate on the naming of social actors.
State of the art:
Nas ciências sociais, nas últimas décadas, foram poucos os conceitos deixados em sossego e palavras antes "naturais" tornaram-se o princípio dos problemas (KOSELLECK 2002). Assim, as crises de nomeação dos actores sociais desafiam a própria relação sujeito/objecto: o questionamento da ideia de "classe" enquanto nome que "faz" um objecto acompanha o debate sobre a própria ideia do partido de vanguarda enquanto sujeito revolucionário e o questionamento da ideia de "povo" acompanha a fragilização da autonomia do governo nacional enquanto agente político. <p> </p><p>Em Portugal, o conceito de "povo" foi problematizado em diversos trabalhos (BRANCO&BRANCO 2003) e da nossa parte procurámos compreender a relação entre "povo" e "classe". Já sobre o conceito de "massas", que beneficia de uma vulgaridade patente na sua fácil invocação política e jornalística, não pende qualquer problematização histórica. Duas linhas ajudam a perceber esta lacuna e a fazer um mapa de debates a abraçar para a suprimir: </p><p> </p><p>1)</p><p>A primeira linha começa por sublinhar a frágil institucionalização da psicologia social em Portugal. Em França, onde estaremos, cedo se debate o conceito de "massas" e a ideia de "multidão" (MOSCOVICI 1981), no quadro de um debate internacional sobre a formação e institucionalização da psicologia social (GINNEKEN 1992). Em Portugal, para além de contributos ocasionais da própria disciplina e de contributos colaterais de alguns historiadores (ALMEIDA&MARQUES 2005), a questão mereceu reduzida atenção.</p><p>O problema aqui aberto não se confina numa arqueologia da psicologia social. Ele abrange todo um processo de construção de um olhar que procede a uma nova "objectificação" do social através da conceptualização das "massas" e por relação às ideias de "multidão", "povo" ou "classe". Os estudos que enfrentaram um tema semelhante ao que nos desafia, ainda que nem sempre acompanhemos os seus autores, foram dois (MACPHAIL 1991, CAREY 1992). Em Macphail discute-se o legado de Le Bon e analisa-se especificamente o contexto norte-americano; em Carey lança-se um olhar provocatório sobre a história da ideia de "massas" em Inglaterra. </p><p> </p><p>2)</p><p>A segunda linha sublinha a preferência da historiografia pelas "culturas eruditas" em detrimento da "baixa cultura". A reduzida influência dos «Cultural Studies» em Portugal é, em parte, efeito e causa desta preferência. Desde os Anos 50, um conjunto de autores britânicos analisou a menorização da "cultura de massas" (HOGGART 1961), objectificando quer o romantismo conservador de um F.R.Leavis quer o paradigma frankfurtiano, reclamando a possibilidade analítica de todos os objectos culturais independentemente do seu lugar nas hierarquias artísticas e reivindicando a interacção emissor/receptor contra uma totalização do processo cultural no «locus» emissor (HALL 2003).</p><p> </p><p> </p>O nosso mapa de referências, todavia, não se compromete por inteiro na sugestão daquelas duas linhas. Dos debates sobre acção colectiva e ordem pública (CEREZALES&GONZALEZ 2002) até a análises que "a partir de baixo" se debruçam sobre visões construídas "a partir de cima" (SCOTT 1998) sugerem-se contributos importantes. O mesmo sucede em estudos latino-americanos que, entre a ideia do "arcaísmo populista" e a ideia do "exotismo cultural", analisaram simultaneamente a acepção política e cultural das "massas" (CANCLINI 1990).