Enfermagem em Moçambique: enfermeiros africanos, dinâmicas coloniais, e imaginários anticoloniais (1909-1975)
Enfermagem em Moçambique: enfermeiros africanos, dinâmicas coloniais, e imaginários anticoloniais (1909-1975)
Samora Machel, liderança da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e primeiro presidente moçambicano (1975-1986), antes de ingressar na luta armada contra o colonialismo português, teve uma carreira de cerca de 7 anos na enfermagem. Trabalhou nessa atividade no Hospital Miguel Bombarda, atual Hospital Central de Maputo, e na enfermaria da ilha de Inhaca, na baía de Maputo, entre 1956 e 1963. Apesar deste exemplo emblemático, são diminutas as pesquisas que abordam os processos de constituição de um corpo de enfermagem africano no contexto colonial português, o exercício desta profissão por africanos, suas experiências de enfermeiros africanos nas dinâmicas coloniais quotidianas e as conexões entre o exercício dessa profissão com as contestações e insurgências contra o colonialismo. Afinal, quais foram as motivações e caminhos para um/a africano/a se tornar enfermeiro/a durante o colonialismo português na África? Como foram constituídos os espaços de educação para a formação de enfermeiros africanos? Quais foram as transformações nas escolas de enfermagem e como, na prática, os africanos exerceram a enfermagem durante a colonização portuguesa? Qual a relação entre a procura por melhores condições de vida dentro das dinâmicas racistas de segregação colonial portuguesa, as experiências de enfermagem e a promoção de imaginários anticoloniais? No último quartel do século XIX, a administração colonial concebeu os Serviços de Saúde em seus territórios ultramarinos com base em hierarquizações raciais. Postos sanitários, maternidades, enfermarias e hospitais possuíam setores segregados destinados para o atendimento de brancos-europeus e negros-africanos. Desde o início da implementação dos Serviços de Saúde, o trabalho dos enfermeiros africanos foi fundamental para o funcionamento dessas estruturas de saúde, desempenhando um papel instrumental para o poder colonial. Porém, ao mesmo tempo em que estiveram a serviço do colonialismo, foram agentes de transformações e questionamentos da exploração europeia. Em Moçambique, os enfermeiros africanos foram um ponto de tensão nas políticas coloniais de diferenciação e incorporação das populações africanas ao “mundo civilizado”. Experienciando “vidas de entremeio”, por um lado, representaram um elevado número nos pedidos para a aquisição da categoria jurídica de “assimilado” e, como consta na legislação, abandonaram “os usos e costumes da sua raça”. Por outro lado, como a trajetória de Samora Machel parece indicar, os enfermeiros africanos experienciaram cotidianamente formas de discriminação e barreiras impostas aos africanos pelo colonialismo, o que pode ter potencializado imaginários anticolonial, construção de perspetivas pós-coloniais e proximidades com movimentos insurgentes.
O projeto exploratório pretende combinar pesquisa de arquivo e de campo em Moçambique e Portugal, comparando diferentes tipos de fontes (arquivísticas e orais), para investigar as experiências africanas no aprendizado e exercício da enfermagem durante o colonialismo português. Por meio de um estudo de caso das escolas de enfermagem para africanos em Moçambique e das trajetórias de vida de enfermeiros africanos durante o contexto colonial, o projeto investigará os processos seguidos pelos africanos para se tornarem enfermeiros, suas experiências nos espaços de trabalho e em lidar com as políticas coloniais portuguesas de segregação, e a potencial relação entre enfermagem e os movimentos anticoloniais e de libertação. A cronologia inicia-se em 1909, com o caso pioneiro no contexto colonial português ocorrido em Moçambique, com a criação da primeira escola exclusivamente dedicada a formação de enfermeiros africanos, e termina na independência, em 1975, com a reestruturação dos sistemas de saúde e da enfermagem no período pós-colonial. O projeto investigará os enfermeiros africanos em Moçambique numa perspetiva das experiências africanas em contextos coloniais para além do binarismo resistência e colaboração. ENFEMO irá explorar 3 eixos transversais:
- Escolas de enfermagem, enfermeiros africanos e colonialismo: investiga as escolas de enfermagem para africanos em Moçambique e a trajetória de africanos que se tornaram enfermeiros.
- Enfermagem, género e colonialismo: diferentemente de outros contextos na África Austral, onde a enfermagem foi exercida maioritariamente por mulheres (europeias e africanas), os enfermeiros africanos em Moçambique durante o colonialismo foram, prioritariamente, homens. O objetivo deste eixo é analisar a aparente excecionalidade do caso moçambicano, explorando questões transversais entre o mundo do trabalho, género e colonialismo.
- Enfermeiros africanos e imaginários anticoloniais. O objetivo é explorar as ligações entre as experiências quotidianas dos enfermeiros africanos, as potenciais alianças de classe e a produção de perspetivas anticoloniais.
A equipa do projeto é composta por Keith Valéria de Oliveira Barbosa (Universidade Federal do Amazonas), Patrícia Martins Marcos (Universidade de Oklahoma) e Carlos Fernandes (Universidade Eduardo Mondlane). Além disso, o projeto se beneficia da experiência dos consultores Omar Ribeiro Thomaz (Unicamp), Philip Jan Havik (NOVA) e Kathleen Sheldon (Universidade da Califórnia).
Moçambique; Colonialismo; Anticolonialismo; Enfermagem
Samora Machel, liderança da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e primeiro presidente moçambicano (1975-1986), antes de ingressar na luta armada contra o colonialismo português, teve uma carreira de cerca de 7 anos na enfermagem. Trabalhou nessa atividade no Hospital Miguel Bombarda, atual Hospital Central de Maputo, e na enfermaria da ilha de Inhaca, na baía de Maputo, entre 1956 e 1963. Apesar deste exemplo emblemático, são diminutas as pesquisas que abordam os processos de constituição de um corpo de enfermagem africano no contexto colonial português, o exercício desta profissão por africanos, suas experiências de enfermeiros africanos nas dinâmicas coloniais quotidianas e as conexões entre o exercício dessa profissão com as contestações e insurgências contra o colonialismo. Afinal, quais foram as motivações e caminhos para um/a africano/a se tornar enfermeiro/a durante o colonialismo português na África? Como foram constituídos os espaços de educação para a formação de enfermeiros africanos? Quais foram as transformações nas escolas de enfermagem e como, na prática, os africanos exerceram a enfermagem durante a colonização portuguesa? Qual a relação entre a procura por melhores condições de vida dentro das dinâmicas racistas de segregação colonial portuguesa, as experiências de enfermagem e a promoção de imaginários anticoloniais? No último quartel do século XIX, a administração colonial concebeu os Serviços de Saúde em seus territórios ultramarinos com base em hierarquizações raciais. Postos sanitários, maternidades, enfermarias e hospitais possuíam setores segregados destinados para o atendimento de brancos-europeus e negros-africanos. Desde o início da implementação dos Serviços de Saúde, o trabalho dos enfermeiros africanos foi fundamental para o funcionamento dessas estruturas de saúde, desempenhando um papel instrumental para o poder colonial. Porém, ao mesmo tempo em que estiveram a serviço do colonialismo, foram agentes de transformações e questionamentos da exploração europeia. Em Moçambique, os enfermeiros africanos foram um ponto de tensão nas políticas coloniais de diferenciação e incorporação das populações africanas ao “mundo civilizado”. Experienciando “vidas de entremeio”, por um lado, representaram um elevado número nos pedidos para a aquisição da categoria jurídica de “assimilado” e, como consta na legislação, abandonaram “os usos e costumes da sua raça”. Por outro lado, como a trajetória de Samora Machel parece indicar, os enfermeiros africanos experienciaram cotidianamente formas de discriminação e barreiras impostas aos africanos pelo colonialismo, o que pode ter potencializado imaginários anticolonial, construção de perspetivas pós-coloniais e proximidades com movimentos insurgentes.
O projeto exploratório pretende combinar pesquisa de arquivo e de campo em Moçambique e Portugal, comparando diferentes tipos de fontes (arquivísticas e orais), para investigar as experiências africanas no aprendizado e exercício da enfermagem durante o colonialismo português. Por meio de um estudo de caso das escolas de enfermagem para africanos em Moçambique e das trajetórias de vida de enfermeiros africanos durante o contexto colonial, o projeto investigará os processos seguidos pelos africanos para se tornarem enfermeiros, suas experiências nos espaços de trabalho e em lidar com as políticas coloniais portuguesas de segregação, e a potencial relação entre enfermagem e os movimentos anticoloniais e de libertação. A cronologia inicia-se em 1909, com o caso pioneiro no contexto colonial português ocorrido em Moçambique, com a criação da primeira escola exclusivamente dedicada a formação de enfermeiros africanos, e termina na independência, em 1975, com a reestruturação dos sistemas de saúde e da enfermagem no período pós-colonial. O projeto investigará os enfermeiros africanos em Moçambique numa perspetiva das experiências africanas em contextos coloniais para além do binarismo resistência e colaboração. ENFEMO irá explorar 3 eixos transversais:
- Escolas de enfermagem, enfermeiros africanos e colonialismo: investiga as escolas de enfermagem para africanos em Moçambique e a trajetória de africanos que se tornaram enfermeiros.
- Enfermagem, género e colonialismo: diferentemente de outros contextos na África Austral, onde a enfermagem foi exercida maioritariamente por mulheres (europeias e africanas), os enfermeiros africanos em Moçambique durante o colonialismo foram, prioritariamente, homens. O objetivo deste eixo é analisar a aparente excecionalidade do caso moçambicano, explorando questões transversais entre o mundo do trabalho, género e colonialismo.
- Enfermeiros africanos e imaginários anticoloniais. O objetivo é explorar as ligações entre as experiências quotidianas dos enfermeiros africanos, as potenciais alianças de classe e a produção de perspetivas anticoloniais.
A equipa do projeto é composta por Keith Valéria de Oliveira Barbosa (Universidade Federal do Amazonas), Patrícia Martins Marcos (Universidade de Oklahoma) e Carlos Fernandes (Universidade Eduardo Mondlane). Além disso, o projeto se beneficia da experiência dos consultores Omar Ribeiro Thomaz (Unicamp), Philip Jan Havik (NOVA) e Kathleen Sheldon (Universidade da Califórnia).





