Os espaços da tecnociência portuguesa (1837-1947)

Os espaços da tecnociência portuguesa (1837-1947)

 

O projecto proposto consiste numa investigação inovadora sobre as práticas da tecnociência em Portugal para o período 1837-1947. O seu principal objectivo é colocar a tecnociência no centro da experiência portuguesa de modernidade, deixando para trás as obsessões de grande parte da historiografia com o tema do atraso. Sugere-se que o conceito de tecnociência, de uso corrente pelos Estudos de Ciência para descrever as realidades da investigação contemporânea, é particularmente apropriado para tratar o tipo de objectos aos quais se enfrentam os historiadores da ciência e da tecnologia em contextos periféricos. Assim, escolheram-se cinco instituições que combinam identidades científica e tecnológica para explorar a relevância da tecnociência na sociedade portuguesa: Escola Politécnica/Faculdade de Ciências, Escola do Exército, Instituto Industrial, Instituto Superior Técnico e Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Cada instituição será tratada de forma individual para indagar da sua importância em cada momento histórico, mas além disso as instituições serão ainda tomadas no seu todo como um conjunto que permite retratar de forma mais ambiciosa a tecnociência em Portugal desde o liberalismo do século XIX ao Estado Novo de meados do século XX. Na investigação será conduzida a partir das propostas mais recentes da literatura internacional sobre o tema que focam as dimensões espaciais da produção de conhecimento. Em particular considera-se que para entender as práticas de investigadores, professores e estudantes é essencial conhecer o seu habitat. A cultura material dos homens de ciência, com os seus laboratórios e instrumentos, serão incluídos numa narrativa que normalmente se limita a ideias, teorias e livros. As redes de ligações entre estabelecimentos portugueses e internacionais também serão consideradas. Evitar-se-ão assim descrições demasiado locais, cegas aos vínculos externos, preferindo-se perceber a tecnociência portuguesa inserida num contexto internacional. Não só o caso português perde assim grande parte do seu particularismo, como também se torna mais fácil de assimilar pela comunidade académica internacional. A vida interna das instituições será posta em relação com a sua influência no mundo exterior, nomeadamente com o seu papel nas colossais mobilizações para a construção do Estado português e para a reforma urbana de LisboaSerá considerada uma autêntica área de influência de cada instituição tecnocientífica, sobre a qual os seus membros actuam com instrumentos ou teorias. Trata-se de uma perspectiva inovadora ignorada pela própria literatura internacional. Para todas as instituições referidas a equipa de investigação fará um estudo de caso de uma paisagem tecnocientìfica, produzindo uma descrição detalhada das formas como a tecnociência passou a fazer parte da paisagem portuguesa. Como base de todo o esforço de investigação será criada uma base de dados com informação histórica sobre cada uma das instituições escolhidas. Dita base além de sistematizar informação de bibliografia secundária dispersa trará à luz material de arquivo negligenciado pela historiografia portuguesa. Todos os dados recolhidos serão disponibilizados online numa página Internet de acesso livre do projecto que evoluirá para um portal da Tecnociência Portuguesa na História. Resumindo, a sequência de investigação será: 1) Produção de uma base de dados da tecnociência portuguesa; 2) Exploração do espaço interno de cada uma das instituições; 3) Cartografar redes internacionais; 4) Descrição de paisagens tecnocientíficas. Este conjunto de tarefas destina-se ainda a consolidar um grupo de investigadores que têm desenvolvido um esforço comum de estabelecer o campo da História da Ciência e da Tecnologia em Portugal segundo padrões internacionais. O projecto não só reforçará o grupo de investigação já existente como o direccionará para objectivos intelectuais mais ambiciosos.

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Não
Entidades: 
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Keywords: 

Escolas de Engenharia; Laboratórios de Investigação; Locais de Produção de Conhecimento;

 

O projecto proposto consiste numa investigação inovadora sobre as práticas da tecnociência em Portugal para o período 1837-1947. O seu principal objectivo é colocar a tecnociência no centro da experiência portuguesa de modernidade, deixando para trás as obsessões de grande parte da historiografia com o tema do atraso. Sugere-se que o conceito de tecnociência, de uso corrente pelos Estudos de Ciência para descrever as realidades da investigação contemporânea, é particularmente apropriado para tratar o tipo de objectos aos quais se enfrentam os historiadores da ciência e da tecnologia em contextos periféricos. Assim, escolheram-se cinco instituições que combinam identidades científica e tecnológica para explorar a relevância da tecnociência na sociedade portuguesa: Escola Politécnica/Faculdade de Ciências, Escola do Exército, Instituto Industrial, Instituto Superior Técnico e Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Cada instituição será tratada de forma individual para indagar da sua importância em cada momento histórico, mas além disso as instituições serão ainda tomadas no seu todo como um conjunto que permite retratar de forma mais ambiciosa a tecnociência em Portugal desde o liberalismo do século XIX ao Estado Novo de meados do século XX. Na investigação será conduzida a partir das propostas mais recentes da literatura internacional sobre o tema que focam as dimensões espaciais da produção de conhecimento. Em particular considera-se que para entender as práticas de investigadores, professores e estudantes é essencial conhecer o seu habitat. A cultura material dos homens de ciência, com os seus laboratórios e instrumentos, serão incluídos numa narrativa que normalmente se limita a ideias, teorias e livros. As redes de ligações entre estabelecimentos portugueses e internacionais também serão consideradas. Evitar-se-ão assim descrições demasiado locais, cegas aos vínculos externos, preferindo-se perceber a tecnociência portuguesa inserida num contexto internacional. Não só o caso português perde assim grande parte do seu particularismo, como também se torna mais fácil de assimilar pela comunidade académica internacional. A vida interna das instituições será posta em relação com a sua influência no mundo exterior, nomeadamente com o seu papel nas colossais mobilizações para a construção do Estado português e para a reforma urbana de LisboaSerá considerada uma autêntica área de influência de cada instituição tecnocientífica, sobre a qual os seus membros actuam com instrumentos ou teorias. Trata-se de uma perspectiva inovadora ignorada pela própria literatura internacional. Para todas as instituições referidas a equipa de investigação fará um estudo de caso de uma paisagem tecnocientìfica, produzindo uma descrição detalhada das formas como a tecnociência passou a fazer parte da paisagem portuguesa. Como base de todo o esforço de investigação será criada uma base de dados com informação histórica sobre cada uma das instituições escolhidas. Dita base além de sistematizar informação de bibliografia secundária dispersa trará à luz material de arquivo negligenciado pela historiografia portuguesa. Todos os dados recolhidos serão disponibilizados online numa página Internet de acesso livre do projecto que evoluirá para um portal da Tecnociência Portuguesa na História. Resumindo, a sequência de investigação será: 1) Produção de uma base de dados da tecnociência portuguesa; 2) Exploração do espaço interno de cada uma das instituições; 3) Cartografar redes internacionais; 4) Descrição de paisagens tecnocientíficas. Este conjunto de tarefas destina-se ainda a consolidar um grupo de investigadores que têm desenvolvido um esforço comum de estabelecer o campo da História da Ciência e da Tecnologia em Portugal segundo padrões internacionais. O projecto não só reforçará o grupo de investigação já existente como o direccionará para objectivos intelectuais mais ambiciosos.

Objectivos: 
The project first objective is to put technoscience at the center of Portuguese contemporary history. The aim is to stress the role of technoscience in the Portuguese experience of modernity leaving aside current narratives obsessed with Portuguese backwardness. The challenge is to match the internal histories of the selected centers of Portuguese Technoscience with their influence on the national and urban landscape. This means that we aim to put in close relation the practices of the engineers and scientists equipped with instruments and theories living inside the institutions' walls, with the big projects in the outer world of building the Portuguese State and reform the city of Lisbon for the period 1837-1947. <p>Traditional institutional histories already produced for each case can thus be put in more pertinent contexts, while the better knowledge of the existent archives for each institution become a crucial issue for those interested in understanding contemporary Portugal.</p>
State of the art: 
Putting Technoscience in its Place: The places of science production are a major subject in the recent historiography of science (Smith &amp; Agar, 1999; Livingstone, 2003; Lafuente &amp; Saraiva, 2004). Historians have become increasingly suspicious of accounts portraying scientific activity as a placeless mental endeavour belonging to the ethereal realm of ideas, concepts and theories; leaving aside any concern with the low spheres of practices, instruments and facilities. The interest devoted to the magic eureka moment was shifted by thick descriptions of the scientists' habitat (Latour, 1987). By following scientists, Science Studies scholars started to advocate for a replacement of the previous lonely genius by a researcher surrounded by instruments and connected to the society by networks of popularization, patronage and economical enterprises.&nbsp; This was an obvious move for historians of contemporary science studying twentieth century labs, where the financing, management and mobilization of teams of hundreds, sometimes thousands, of researchers are an obligatory component of their stories (Galison &amp; Hevly, 1997). More surprisingly was the use of a similar approach when dealing with Faraday, Lord Kelvin or even Albert Einstein. Suddenly we learned that the mythical laboratory of Faraday in the Royal Institution was a fundamental place not only to understand the development of knowledge on electromagnetic phenomena, but also to follow the environmental problems of nineteenth century London, with Faraday acting as an expert on problems of the pollution of the river Thames or of air quality (Gooding, 1990). Lord Kelvin was directly linked to the enterprise of connecting the British Empire by a network of submarine telegraph cables and it's impossible to talk about his Physics' laboratory in Glasgow without mentioning the British imperial ambitions: Kelvin's theories arose from telegraph cables that wouldn't exist without his theories (Wise, 1988). Finally, Peter Galison dared to relate Albert Einstein theories to his job in the Bern patent office as an expert in electrical devices, putting in connection the theory of relativity with the problems of producing simultaneity by nation-states willing to homogenize their territories by networks of electrically coordinated clocks (Galison, 2003). All the cited cases make clear unforeseen transitions between technology and science, transitions that only became evident after the historian explored the laboratory space. The strong bonding of science and technology that most narratives considered a distinctive feature of contemporary laboratories has a long history which dates back, at least, to the scientific revolution (Jacob &amp; Stewart, 2005). <p>Technoscience seems to be the ideal concept to talk about such reality, for it not only brings together two normally separated realms, but also accepts the constant negotiation between the two (Latour, 1987; Galison, 2003). Quite unexpectedly, the concept perfectly fits the objects that historians in peripheral contexts normally have to face. The hybrid nature of scientists and engineers working outside the central scientific institutions of France, United Kingdom, Germany or the United States, has been currently perceived as a good measure of backwardness. The transdisciplinary biographies of Portuguese men of science, studying Physics and Mathematics while working as engineers tends to be explained by a fragile technoscientific system unable to institutionalize disciplines (Nunes &amp; Gon&ccedil;alves, 2001). Here we suggest instead that the international literature on the most renowned scientific genius (Einstein, Kelvin...) offers new ways to look to Portuguese scientists that go beyond the mere recognition of their backwardness. And by mixing it in an original way with the well consolidated literature on engineers (Picon, 1992; Fox and Guagnini, 1993) the account of Portuguese technoscience may become a groundbreaking case study.&nbsp; Portuguese Technoscience in History More than anything, it's possible to make the objects of study of Portuguese history of science and technology more relevant. After all it is hard to explain the State building effort of the second half of the nineteenth century without considering the central role of the engineers coming out from the Escola do Ex&eacute;rcito (Army School) and the Escola Polit&eacute;cnica (Polytechnic School), both founded in 1837; no one should try to explain the radical reforms of the city of Lisbon at the turn of the century without taking into account the effort of Physics professors of the Instituto Industrial (Industrial Institute - founded in 1852), specialized in electricity issues; the Instituto Superior T&eacute;cnico (Technical Superior Institute - founded in 1911) engineers were not only recognized by their high quality scientific formation, but also for being protagonists of the building effort of the totalitarian Estado Novo (New State) in the 30's; the researchers of the Laborat&oacute;rio Nacional de Engenharia Civil (National Laboratory of Civil Engineering - founded in 1947) became probably the most internationally renowned Portuguese scientists (engineers?) while performing crucial research on dams planned to serve the energy policies of the New State in the 50's. To sum up, the Portuguese institutions of technoscience, as well as their scientists and engineers, should not be described exclusively by their underdevelopment when compared to international ones, for they are fundamental places for anyone interested in understanding Portuguese society. The effort has more to do with explaining Portuguese history through technoscience than with stressing how the Portuguese context of backwardness is responsible for scientific underdevelopment.&nbsp; The strange thing is that although Portuguese historiography has progressively recognized the importance of engineers (Rodrigues, 1999; Heitor, Brito e Rollo, 2004); their institutions never deserved a coherent research effort. After past common endeavours of studying Portuguese engineers' trajectories (see namely the results of the Project Praxis XXI - &quot;Engenheiros e engenharia em Portugal dos finais do s&eacute;culo XVIII a 1931&quot;), the research group finds itself perfectly suited for the task of filling in such obvious void of Portuguese historiography.</p><p>There is to be sure secondary bibliography on some of the institutions we referred to, but most of it is dispersed, lacking connections between them, with a strong tendency towards traditional institutional history considering only educational issues (Carvalho, 2001). Even the Polytechnic</p><p>8.4. Resultados e Repercuss&otilde;es</p><p>8.4. Results and Repercussions</p><p>8.5. Regionaliza&ccedil;&atilde;o</p><p>8.5. Regionalization</p><p>8.6. Tarefas</p><p>8.6. Tasks</p>
Parceria: 
Não Integrado
Ana Cardoso de Matos
Ana Maria Cardoso
Ana Isabel Simões
Maria Paula Santos Diogo
Marta Catarino Lourenço
Coordenador ICS 
Referência externa 
PROJ37/2010
Data Inicio: 
01/01/2008
Data Fim: 
01/12/2011
Duração: 
47 meses
Concluído