O Passado no Presente: Antecedentes e Consequentes do Luso-tropicalismo para a Legitimação da Desigualdade Social e Racial Contemporânea

O Passado no Presente: Antecedentes e Consequentes do Luso-tropicalismo para a Legitimação da Desigualdade Social e Racial Contemporânea

As mais recentes perspetivas psicossociais sobre a legitimação de atitudes e comportamentos discriminatórios face a pessoas oriundas de antigos grupos colonizados tem enfatizado o papel das ideologias pós-coloniais na manutenção das assimetrias sociais e resistência a políticas de inclusão social (Sibley et al., 2008; 2016; 2018; Newton et al., 2018). Em concreto, a literatura tem mostrado que o conteúdo de crenças coloniais, em diferentes sociedades pós-coloniais, está associado a atitudes negativas face a grupos colonizados e à oposição a políticas públicas que promovem a inclusão e acesso a recursos materiais de pessoas de antigos grupos colonizados (e frequentemente socialmente desfavorecidos) (Castro et al., 2022; Valentim & Heleno, 2018; Satherley & Sibley, 2018). Porém, o facto de o conteúdo das crenças coloniais emergir primariamente a partir da narrativa socio-histórica de cada contexto, a estrutura e função destas ideologias póscoloniais em dimensões chave das relações intergrupais assimétricas permanece por esclarecer. Isto é importante porque ao examinar o substrato psicológico do pensamento ideológico colonial poderemos elucidar relações que têm permanecido, até agora, sem resposta. Assim, o projeto LUSO propõe-se investigar a estrutura do pensamento ideológico pós-colonial e a função que exerce na legitimação das desigualdades sociais contemporâneas, sugerindo que este poderá ser conceptualizado como um estilo de pensamento colonial que emergiu a partir de conceitos sociais, politicamente institucionalizados para justificar uma estratégia geopolítica e enformar representações coletivas sobre o passado colonial (Castro et al., 2022; da Silva & Cabral, 2020; Licata et al., 2018; Sibley & Osborne, 2016; Valentim, 2011). Com base em teorização previamente desenvolvida por membros desta equipa, o projeto LUSO identifica pelo menos quatro componentes organizadoras do pensamento ideológico pós-colonial que integra a negação histórica da injustiça (Pereira et al., 2018; Sibley & Osborne, 2016), scope of justice (Lima-Nunes et al., 2013; Opotow, 1996), miscigenação (Valentim, 2011; Cabecinhas & Feijó, 2010), e desenvolvimento (Licata et al., 2010; 2018). Estes quatro componentes iluminam o processo psicossocial sobre a emergência, estruturação e implementação política de um pensamento colonial que serviu no passado para legitimar a manutenção dos impérios coloniais, e legitima hoje a existência de assimetrias sociais entre grupos colonizadores e colonizados no passado. Esta clarificação dos componentes organizadores das ideologias pós-coloniais permitirá responder a questões que permanecem por resolver, nomeadamente: a) em que medida são hoje estas ideologias socialmente aceites? b) em que medida representam um mecanismo legitimador na relação entre uma orientação geral para a dominância e o preconceito e hostilidade face a grupos que foram colonizados? c) até que ponto a adesão a ideologias pós-coloniais varia entre gerações e em função do estatuto social do grupo de pertença? O objetivo geral do LUSO é analisar como as dimensões organizadoras do pensamento ideológico colonial persistem na sociedade portuguesa, e qual é a sua função na legitimação de atitudes e comportamentos discriminatórios face a grupos desfavorecidos e excolonizados. As questões de investigação serão endereçadas em cinco workpackages (WP). Especificamente, LUSO irá (1) desenvolver e validar um novo instrumento que mede as dimensões organizadoras do Luso-tropicalismo, enquanto pensamento ideológico pós-colonial, e que propomos estar organizado em quatro fatores latentes (WP1); (2) testar a normatividade social do Luso-tropicalismo (WP2); (3) examinar se, num quadro geral das ideologias intergrupais, o Lusotropicalismo funciona como um mito legitimador, cuja função poderá reduzir o apoio a políticas de inclusão social (i.e., a suppression effect) e facilitar atitudes e comportamentos discriminatórios face a membros socialmente desfavorecidos de grupos ex-colonizados (i.e., foster effect) (WP3); examinar a disseminação destes pressupostos numa amostra da população portuguesa, analisando potenciais moderadores destas relações, nomeadamente o papel dos padrões de socialização (i.e., diferenças intergeracionais) e do estatuto social do grupo pertença (i.e., alto SES vs. baixo SES) (WP4). O LUSO irá implementar um programa de investigação multi-método que inclui métodos qualitativos e quantitativos, desenho de investigação correlacional e experimental, e um inquérito representativo da população. O LUSO contribuirá substancialmente para o estudo dos processos sociopsicológicos do legado colonial no contexto nacional, e significativamente para o avanço do conhecimento da estrutura do pensamento ideológico pós-colonial em contexto internacional.

 

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Sim
Entidades: 
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Rede: 
Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo Comportamental - Universidade de Coimbra Universidad de O’Higgins (Chile)
Keywords: 

Ideologias pós-coloniais, atitudes raciais, legitimação, desigualdade social

As mais recentes perspetivas psicossociais sobre a legitimação de atitudes e comportamentos discriminatórios face a pessoas oriundas de antigos grupos colonizados tem enfatizado o papel das ideologias pós-coloniais na manutenção das assimetrias sociais e resistência a políticas de inclusão social (Sibley et al., 2008; 2016; 2018; Newton et al., 2018). Em concreto, a literatura tem mostrado que o conteúdo de crenças coloniais, em diferentes sociedades pós-coloniais, está associado a atitudes negativas face a grupos colonizados e à oposição a políticas públicas que promovem a inclusão e acesso a recursos materiais de pessoas de antigos grupos colonizados (e frequentemente socialmente desfavorecidos) (Castro et al., 2022; Valentim & Heleno, 2018; Satherley & Sibley, 2018). Porém, o facto de o conteúdo das crenças coloniais emergir primariamente a partir da narrativa socio-histórica de cada contexto, a estrutura e função destas ideologias póscoloniais em dimensões chave das relações intergrupais assimétricas permanece por esclarecer. Isto é importante porque ao examinar o substrato psicológico do pensamento ideológico colonial poderemos elucidar relações que têm permanecido, até agora, sem resposta. Assim, o projeto LUSO propõe-se investigar a estrutura do pensamento ideológico pós-colonial e a função que exerce na legitimação das desigualdades sociais contemporâneas, sugerindo que este poderá ser conceptualizado como um estilo de pensamento colonial que emergiu a partir de conceitos sociais, politicamente institucionalizados para justificar uma estratégia geopolítica e enformar representações coletivas sobre o passado colonial (Castro et al., 2022; da Silva & Cabral, 2020; Licata et al., 2018; Sibley & Osborne, 2016; Valentim, 2011). Com base em teorização previamente desenvolvida por membros desta equipa, o projeto LUSO identifica pelo menos quatro componentes organizadoras do pensamento ideológico pós-colonial que integra a negação histórica da injustiça (Pereira et al., 2018; Sibley & Osborne, 2016), scope of justice (Lima-Nunes et al., 2013; Opotow, 1996), miscigenação (Valentim, 2011; Cabecinhas & Feijó, 2010), e desenvolvimento (Licata et al., 2010; 2018). Estes quatro componentes iluminam o processo psicossocial sobre a emergência, estruturação e implementação política de um pensamento colonial que serviu no passado para legitimar a manutenção dos impérios coloniais, e legitima hoje a existência de assimetrias sociais entre grupos colonizadores e colonizados no passado. Esta clarificação dos componentes organizadores das ideologias pós-coloniais permitirá responder a questões que permanecem por resolver, nomeadamente: a) em que medida são hoje estas ideologias socialmente aceites? b) em que medida representam um mecanismo legitimador na relação entre uma orientação geral para a dominância e o preconceito e hostilidade face a grupos que foram colonizados? c) até que ponto a adesão a ideologias pós-coloniais varia entre gerações e em função do estatuto social do grupo de pertença? O objetivo geral do LUSO é analisar como as dimensões organizadoras do pensamento ideológico colonial persistem na sociedade portuguesa, e qual é a sua função na legitimação de atitudes e comportamentos discriminatórios face a grupos desfavorecidos e excolonizados. As questões de investigação serão endereçadas em cinco workpackages (WP). Especificamente, LUSO irá (1) desenvolver e validar um novo instrumento que mede as dimensões organizadoras do Luso-tropicalismo, enquanto pensamento ideológico pós-colonial, e que propomos estar organizado em quatro fatores latentes (WP1); (2) testar a normatividade social do Luso-tropicalismo (WP2); (3) examinar se, num quadro geral das ideologias intergrupais, o Lusotropicalismo funciona como um mito legitimador, cuja função poderá reduzir o apoio a políticas de inclusão social (i.e., a suppression effect) e facilitar atitudes e comportamentos discriminatórios face a membros socialmente desfavorecidos de grupos ex-colonizados (i.e., foster effect) (WP3); examinar a disseminação destes pressupostos numa amostra da população portuguesa, analisando potenciais moderadores destas relações, nomeadamente o papel dos padrões de socialização (i.e., diferenças intergeracionais) e do estatuto social do grupo pertença (i.e., alto SES vs. baixo SES) (WP4). O LUSO irá implementar um programa de investigação multi-método que inclui métodos qualitativos e quantitativos, desenho de investigação correlacional e experimental, e um inquérito representativo da população. O LUSO contribuirá substancialmente para o estudo dos processos sociopsicológicos do legado colonial no contexto nacional, e significativamente para o avanço do conhecimento da estrutura do pensamento ideológico pós-colonial em contexto internacional.

 

Observações: 
LUSO é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto "2022.05941.PTDC"
Parceria: 
Rede Internacional

LUSO

Coordenador ICS 
Referência externa 
2022.05941.PTDC
Data Inicio: 
01/02/2023
Data Fim: 
31/01/2027
Duração: 
48 meses
Em curso