O Conceito de Representação Política: Genealogia e Novas Configurações

O Conceito de Representação Política: Genealogia e Novas Configurações

A invenção do governo representativo é a conquista central da política moderna. Para além de tornar a política possível a uma nova escala, a do moderno Estado territorial, a introdução do princípio representativo permitiu o desenvolvimento dos primeiros experimentos numa democracia de massas. A história da modernidade política pode, por conseguinte, ser descrita como a história da longa e turbulenta progressão de formas de governo representativo não democráticas para formas mais democratizadas de representação política. Este processo histórico culminou na presente implantação de democracias representativas um pouco por todo o mundo.     

Este projecto de investigação examina, tanto de uma perspectiva histórica quanto de uma perspectiva teórico-normativa, a relação, problemática e historicamente contingente, entre representação e democracia. Hanna Pitkin, a autora de The Concept of Representation (1967), o terceiro livro de teoria política mais citado no pós-II Guerra Mundial, celebremente afirmou que entre democracia e representação prevalece, na melhor das hipóteses, uma aliança desconfortável. Para defender a sua posição, Pitkin sublinhou, correctamente, aliás, que democracia e representação são dois conceitos com histórias díspares e, por vezes mesmo, conflituantes. A representação, Pitkin sobreavisa, «tem uma relação problemática com a democracia, com a qual é frequente, mas acriticamente, identificada. As duas ideias têm origens diferentes, senão mesmo conflituantes. A democracia veio da Grécia Antiga, e foi conquistada pela luta, feita de baixo. A democracia grega era participativa e não tinha qualquer relação com a representação. A representação  -  pelo menos enquanto conceito e prática política - data da Idade Média tardia, altura em que foi imposta, como uma obrigação, pelo monarca. É apenas na Guerra Civil inglesa e depois nas revoluções democráticas do século XVIII que os dois conceitos se vêm a ligar.» (Pitkin 2004) Mas em que termos foi esta ligação constituída? Como foi ela concebida e justificada ao longo da história moderna? Mais ainda, é a democracia representativa, tal como Pitkin e outros autores sugerem, um oximoro, trazendo à convivência dois conceitos e práticas contraditórios, que têm alta probabilidade de se vir a separar novamente? Ou existirão condições sob as quais a representação possa ser plenamente democrática, e a base de uma forma original, senão mesmo superior, de governo democrático, sob a qual os cidadãos de sociedades complexas e pluralistas, como as nossas, tenham boas razões para querer viver? Noutras palavras, quais são as justificações para, e os critérios de avaliação de, uma representação democrática? Como é que o ideal de auto-governo democrático se pode traduzir numa nova teoria e prática da representação política, que inclua, no seio, uma definição consistente dos deveres de um representante? Estas são apenas algumas das questões que norteiam este projecto.

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Não
Keywords: 

Representação; Democracia; Governo Indirecto

A invenção do governo representativo é a conquista central da política moderna. Para além de tornar a política possível a uma nova escala, a do moderno Estado territorial, a introdução do princípio representativo permitiu o desenvolvimento dos primeiros experimentos numa democracia de massas. A história da modernidade política pode, por conseguinte, ser descrita como a história da longa e turbulenta progressão de formas de governo representativo não democráticas para formas mais democratizadas de representação política. Este processo histórico culminou na presente implantação de democracias representativas um pouco por todo o mundo.     

Este projecto de investigação examina, tanto de uma perspectiva histórica quanto de uma perspectiva teórico-normativa, a relação, problemática e historicamente contingente, entre representação e democracia. Hanna Pitkin, a autora de The Concept of Representation (1967), o terceiro livro de teoria política mais citado no pós-II Guerra Mundial, celebremente afirmou que entre democracia e representação prevalece, na melhor das hipóteses, uma aliança desconfortável. Para defender a sua posição, Pitkin sublinhou, correctamente, aliás, que democracia e representação são dois conceitos com histórias díspares e, por vezes mesmo, conflituantes. A representação, Pitkin sobreavisa, «tem uma relação problemática com a democracia, com a qual é frequente, mas acriticamente, identificada. As duas ideias têm origens diferentes, senão mesmo conflituantes. A democracia veio da Grécia Antiga, e foi conquistada pela luta, feita de baixo. A democracia grega era participativa e não tinha qualquer relação com a representação. A representação  -  pelo menos enquanto conceito e prática política - data da Idade Média tardia, altura em que foi imposta, como uma obrigação, pelo monarca. É apenas na Guerra Civil inglesa e depois nas revoluções democráticas do século XVIII que os dois conceitos se vêm a ligar.» (Pitkin 2004) Mas em que termos foi esta ligação constituída? Como foi ela concebida e justificada ao longo da história moderna? Mais ainda, é a democracia representativa, tal como Pitkin e outros autores sugerem, um oximoro, trazendo à convivência dois conceitos e práticas contraditórios, que têm alta probabilidade de se vir a separar novamente? Ou existirão condições sob as quais a representação possa ser plenamente democrática, e a base de uma forma original, senão mesmo superior, de governo democrático, sob a qual os cidadãos de sociedades complexas e pluralistas, como as nossas, tenham boas razões para querer viver? Noutras palavras, quais são as justificações para, e os critérios de avaliação de, uma representação democrática? Como é que o ideal de auto-governo democrático se pode traduzir numa nova teoria e prática da representação política, que inclua, no seio, uma definição consistente dos deveres de um representante? Estas são apenas algumas das questões que norteiam este projecto.

Objectivos: 
Para que consigamos compreender estes e outros novos desenvolvimentos, é necessário voltar ao princípio. Isto é, é necessário decompor a relação de representação política nos seus principais elementos constitutivos e, através da sua reorganização, explorar diferentes formas possíveis de representar politicamente, conjuntamente com os respectivos critérios de legitimidade e com a variedade de obrigações que impõem aos representantes.
State of the art: 
After decades of neglect, in which democratic theorists centred their attention&nbsp; almost exclusively on questions of participation and deliberation, the topic of political representation has returned to the agenda of contemporary democratic theory. <p>Currently, some four broad trends can be identified across the growing literature on the subject of political representation, and in particular, of representative democracy:</p><p>1) There is the scholarship that is primarily preoccupied with normative and strategic questions concerning the rise of new forms of identity politics, in increasingly multicultural societies, where not only individuals, but also groups, claim their rights to be and have their identities fairly represented in the democratic institutions that rule them. These authors tend to treat representation as a subset of theories of social justice, and are especially concerned with re-examining the meaning of fair representation against the liberal standard answer of &quot;one person, one vote&quot;.&nbsp; Hence, they seek to develop the mechanisms, electoral and other, that can better ensure the representation of some chronically underrepresented or proportionally less represented groups or social interests, such as women and minorities (Kymlicka&nbsp; [1995]; Young [2009]; Phillips [1995]; Guinier [1994] ; Dovi [2002]).&nbsp; </p><p>2) Another strand of the scholarship concentrates on examining the origins, semantics, and transformations of political representation in terms of its relationship with the rise of the modern sovereign state&nbsp; and of modern democratic government in particular. (Macpherson [1977]; Bobbio [1984]; Friedrich [1968]; Sartori [1987]; Manin [1997]; Pitkin [1967]). Their main goal is to address the hybrid and somewhat paradoxical nature of representative democracy by questioning what representation is and how it transforms the character of democracy. </p><p>3) The third type of theoretical approaches privileges the question of how representation, here primarily understood as an ongoing relationship between the represented and their representatives, shapes the processes of public deliberation and political decision-making. Theories of deliberative democracy are central to this third line of inquiry, which sees representation as performing democratic functions and being constitutive of democratic practices (rather than being its opposite). Deliberative democrats emphasise how representation is, simultaneously, constitutive and transformative of public opinion, through its reflective role in advocacy and deliberation, as well as essential to opening pathways of participation and influence of society within and often against the state&nbsp; and its key representative institutions. (Habermas [1962, 1992]; Urbinati [2005, 2006]; Goodin [2005]; Dryzek [2000]; Elster [1998]). 4) </p><p>4) Finally, there have been some attempts to develop a general explanatory theory of political representation, which tries to model phenomena in the world that are denoted by the term &quot;representation&quot;, without presuming their foundation on common democratic norms and practices (such as authorisation, accountability, and the looking out for another's interests) . This is done with a view to explaining the new forms of representation evolving in non-electoral domains, such as administrative policy development (Brown [2006]), civil society advocacy (Alcoff [1991]; Warren [2001]; Saward&nbsp; [2006]),&nbsp; global institutions and global civil society (Gant &amp; Keohane [2005], Held &amp; Koenig-Archibugi [2005]; Rehfeld [2006]), amongs others. </p><p>Despite the renewed interest in the question of political representation within contemporary democratic theory, and the clear attempt to start questioning a series of longstanding assumptions about representative democracy, these are but the first steps in the direction of a new assessment of the role played by representation in our democracies. As real concerns about the practice of representation in our democracies increases,&nbsp; there is undoubtedly much work to be done in expanding on these different, but frequently overlapping, approaches to the topic, and above all in tightening up emerging ideas about what representation, within democratic politics, is,&nbsp; and what it can come to be.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </p>
Parceria: 
Não Integrado
Coordenador ICS 
Referência externa 
PROJ2/2011
Data Inicio: 
01/04/2009
Data Fim: 
01/04/2014
Duração: 
60 meses
Concluído