Mouzinho de Albuquerque: O "Cavaleiro de Outro Tempo"
Mouzinho de Albuquerque: O "Cavaleiro de Outro Tempo"
O presente trabalho procura seguir a vida e a acção militar do biografado. Apresentam-se de forma abreviada as origens familiares de Mouzinho de Albuquerque, a passagem pela Universidade de Coimbra, o momento do casamento e o início da sua carreira profissional. Num segundo momento procede-se à análise do novo contexto político e diplomático decorrente da abertura da "corrida a África" em que Portugal se inseriu a partir de meados da década de 1880. Observa-se, seguidamente, o início da "carreira colonial" de Joaquim Mouzinho de Albuquerque, da Índia à primeira passagem por Moçambique. O estudo concentra-se depois sobre o início da guerra na Província Ultramarina da costa do Índico a partir de finais de 1894 e narra os principais acontecimentos envolvendo a tropa até ao momento da captura do régulo Gungunhana, em Chaimite. Também se destacam as acções do biografado enquanto governador-geral e comissário régio, o último a ser indicado para o território no século XIX. Os dois últimos capítulos abordam a fase descendente do percurso do militar até ao seu alegado suicídio.
Estatuto:
Entidade proponente
Financiado:
Não
Keywords:
Império, Biografia, Moçambique, Exército
O presente trabalho procura seguir a vida e a acção militar do biografado. Apresentam-se de forma abreviada as origens familiares de Mouzinho de Albuquerque, a passagem pela Universidade de Coimbra, o momento do casamento e o início da sua carreira profissional. Num segundo momento procede-se à análise do novo contexto político e diplomático decorrente da abertura da "corrida a África" em que Portugal se inseriu a partir de meados da década de 1880. Observa-se, seguidamente, o início da "carreira colonial" de Joaquim Mouzinho de Albuquerque, da Índia à primeira passagem por Moçambique. O estudo concentra-se depois sobre o início da guerra na Província Ultramarina da costa do Índico a partir de finais de 1894 e narra os principais acontecimentos envolvendo a tropa até ao momento da captura do régulo Gungunhana, em Chaimite. Também se destacam as acções do biografado enquanto governador-geral e comissário régio, o último a ser indicado para o território no século XIX. Os dois últimos capítulos abordam a fase descendente do percurso do militar até ao seu alegado suicídio.
Objectivos:
Pretende-se proceder à análise de forma tão descomprometida ideologicamente quanto possível da biografia de Mouzinho de Albuquerque, testemunho que procuramos deixar no lugar do discurso apologético que tem turvado a adopção de uma perspectiva desapaixonada sobre a vida do vencedor dos Vátuas. Espera-se traçar um retrato sobre a personagem, assim como do grupo de indivíduos que com ele se cruzou nas etapas cruciais da sua existência na Europa, no Oriente e em África. O livro resultante do projecto servirá, igualmente, para contar uma certa história do colonialismo português em Moçambique no período de 1890-1898, centrada, sobretudo, no exame das condições políticas e militares verificadas na metrópole que conduziram ao início do primeiro ciclo da guerra colonial, aberta em Moçambique, a partir dos finais de 1894. Por fim, procura-se perceber como foi elaborado o discurso mitológico em torno da personagem e como tal construção simbólica serviu os propósitos ideológicos do regime.
State of the art:
O militar tornou-se até aos dias de hoje uma referência incontornável em todos os estudos sobre a construção do moderno colonialismo português em África. Sendo literalmente impossível recensear todos os trabalhos publicados sobre Mouzinho de Albuquerque e a sua acção, alguns merecem nota pelo seu carácter percursor ou pelo tom altamente ideológico que imprimiram à narrativa, emergindo antes como um sinal da forma como na época se pensava e escrevia a história nacional. Uma primeira aproximação parcial à vida de Mouzinho de Albuquerque seria publicada em 1906, escassos quatro anos após a sua morte, da autoria de Eduardo de Noronha. Tratava-se de uma primeira descrição desenvolvida dos feitos de Coolela e de Chaimite, destacando-se ainda a acção do militar português enquanto comissário régio. Os últimos cinco anos de vida do homem que conseguiu aprisionar Gungunhana são também contemplados, embora de forma demasiado abreviada. O resultado traduziu-se numa obra laudatória e apologética, como se nota logo pelo seu título, que seria acrescentada de um prefácio de Aires de Ornelas e de Paiva Couceiro. Pretendia-se deixar um testemunho da "alta excelência portuguesa" e da "fibra lusitana", cantada por Luís de Camões. Mouzinho de Albuquerque aparece nessas páginas como a personificação daquilo que o nosso povo tinha de melhor, símbolo do vigor e da vontade nacional. Paiva Couceiro escreveu mesmo que se tratava da "bandeira sugestiva chamando gerações novas ao ressurgimento de antigas tradições ilustres", propondo-se a prestar um "culto permanente" à memória deste "troféu da pátria". Nesta obra Mouzinho de Albuquerque surge já em Moçambique nas vésperas da batalha de Coolela. O capítulo central do trabalho de Eduardo Noronha é dedicado ao feito de Chaimite, reservando-se a parte final para a análise da acção do militar como comissário régio na África Oriental portuguesa. A tragédia que se abateu sobre Mouzinho de Albuquerque na parte final da sua vida também é mencionada, mas esses acontecimentos acabam por ocupar pouco espaço na economia final do livro. Trata-se de um trabalho com algum mérito, até porque o autor logo anunciou a sua intenção de ser fiel ao "máximo rigor histórico", sendo o seu relato baseado nos relatórios oficiais produzidos pelos militares que presenciaram os acontecimentos. <p> Na década de 1930, três trabalhos merecem destaque não pelas inovações a nível interpretativo ou conceptual, mas por virem contribuir de forma decisiva para a construção de uma representação da figura altamente apologética. O primeiro, editado em 1930, da autoria de Francisco Toscano, acabou por colocar a tónica nas capacidades militares do herói. Mouzinho de Albuquerque foi alvo de nova biografia, em 1935-1936, elaborada por Amadeu Cunha e publicada em vários pequenos volumes pela Agência Geral das Colónias. Tratava-se de uma verdadeira hagiografia do conquistador de Chaimite. A partir daqui a sua figura impôs-se definitivamente como a lenda maior do salazarismo inicial. De entre os seus contemporâneos, Mouzinho de Albuquerque apresentava o perfil indicado para o papel que lhe tinham reservado. Nacionalista como poucos, corajoso como mais ninguém, temerário como nenhum outro, incorrupto numa sociedade minada pelos escândalos, rejeitava a instabilidade política à imagem de Oliveira Salazar. Alimentou um verdadeiro horror e desprezo pela baixa política e pelos governantes, em geral, e defendeu uma autoridade forte e sem contestação, como o presidente do Conselho da época. Tratava-se de um verdadeiro chefe, à imagem do líder do regime, apresentando ainda a vantagem de já estar morto, ou seja, não poderia haver lugar para comandos bicéfalos, Mouzinho de Albuquerque ficava com a lenda, enquanto Oliveira Salazar dirigia os destinos da nação. Ainda em 1935, viria a sair outra pequena obra apologética, com origem familiar, esta exibindo a particularidade de também ser publicada com a chancela da Agência Geral das Colónias.</p><p> Tal movimento editorial laudatório teria continuidade nas décadas seguintes, atingindo especial intensidade em meados dos anos 1950 por alturas das comemorações do centenário do seu nascimento. Em 1965, viria a lume a biografia mais completa redigida por um militar, sendo a obra do General Ferreira Dinis inserida na série "Estadistas e Guerreiros" de uma colecção intitulada "Grande Vultos da História da Humanidade". Como seria de esperar, Mouzinho de Albuquerque foi tratado como "a estrela de maior grandeza" da vida colonial portuguesa, o homem que, "assombrou o mundo inteiro com o seu raro brilho, fulgurantemente emanado da costa oriental do continente negro". Propositadamente elaborada em linguagem acessível, uma vez que se destinava assumidamente a fazer a "propaganda da figura veneranda", este trabalho procurou também enaltecer as virtudes da sua esposa, "protótipo modelar da antiga Mulher Portuguesa".</p><p> O estudo mais objectivo sobre a vida e a obra ultramarina do militar surgiu em 1980, já no contexto da descolonização. Sintomaticamente, da autoria de um estrangeiro, Douglas Wheeler, o artigo publicado na revista académica Análise Social tratou a figura de uma forma mais isenta e liberta da carga ideológica que sempre a caracterizou, servindo para fazer uma aproximação crítica ao que foi a política do colonialismo em finais do século XIX.</p><p> Mais recentemente, outras iniciativas editoriais não esqueceram Mouzinho de Albuquerque. A levada a cabo por Miguel Sanches de Baena regressou ao tom lisonjeiro, característico das publicações anteriores. Outro militar, António Pires Nunes, como seria de esperar, centrou a sua atenção, de forma resumida, nas virtudes guerreiras do oficial de Cavalaria. O grande contributo desta abordagem residiu, todavia, na tradução elaborada pelo autor de um excerto do Diário Íntimo de D. Amélia, onde a rainha, muitas décadas após os acontecimentos, veio de forma directa, a meu ver, confirmar a existência de uma ligação de grande afecto entre ambos, embora o autor não tivesse arriscado uma interpretação mais audaciosa de tal relacionamento.</p><p> Os feitos militares levados a cabo pela chamada "geração de 1895", em Moçambique, mereceram, igualmente, um trabalho sério e competente por parte de um historiador consagrado como António José Telo. Tratando-se de uma obra muito didáctica e profusamente ilustrada, o autor não se centrou numa aproximação biográfica vocacionada para o tratamento de um personagem em concreto, optando por salientar os aspectos operacionais das missões. Ainda assim, António Telo não resistiu a destacar o carácter "heróico" dos oficiais que conduziram as operações na África Oriental portuguesa.</p><p>Já mais recentemente um sobrinho-bisneto do soldado, António Gaivão, publicou um trabalho sem pretensões historiográficas, mas de cunho exageradamente laudatório, inserindo-se na linhagem dominante dos trabalhos sobre a figura. Para este autor, tal a admiração pelo seu antepassado, que pela sala do Museu Militar dedicada ao oficial, "devia todo o povo português desfilar de chapéu na mão, de coração ajoelhado, na admiração religiosa devida aos homens que são ainda hoje modelos de heróis intrépidos, de valentia consciente e lúcida, e do amor sem limites à pátria" .</p>
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