Objectivos:
Este projecto pressupõe o desenvolvimento de uma investigação em torno das problemáticas da memória, do império e da identidade nacional, privilegiando-se a sua abordagem antropológica. <p>Centrando-se no processo de produção, representação e reprodução da memória do império colonial português na esfera pública nacional no período pós-colonial, com ênfase analítica na cidade de Lisboa, esta investigação tem por objectivo analisar qual o papel que o império desempenha na construção e na manutenção da narrativa identitária nacional no período pós-colonial. </p><p>A pesquisa compreende a identificação, selecção e análise de "lugares" onde a memória do império colonial português se aloja e se verte. Compreende também a investigação de outras duas linhas fundamentais: análise dos repertórios ou temas mnemónicos - recordados e esquecidos - nos "lugares" seleccionados; identificação dos principais agentes implicados na activação desta memória e exploração das respectivas motivações representacionais. </p>
State of the art:
Os estudos da memória social são uma rubrica de investigação que analisa as várias formas pelas quais o passado é representado no e pelo presente, nas esferas pública ou privada, e de modo consensual ou conflitual. <p>Apesar do conceito de memória colectiva ter sido cunhado em 1925 por Halbwachs, somente a partir de 1980 se assiste ao desenvolvimento dos estudos dedicados ao tema, na sequência da publicação de obras como The Invention of Tradition de Hobsbawm e Ranger (1983). Populariza-se a partir de então uma abordagem ao estudo da memória centrada nos usos políticos do passado para a legitimação dos poderes instituídos (Misztal, 2003). Esta perspectiva fornece bases teóricas especialmente relevantes para a análise do "nexo memória-nação" (Nora, 1984), motivando estudos que analisam como as identidades nacionais são estabelecidas e mantidas através de lugares e práticas, enfatizando a natureza construída das representações colectivas nacionais, seguindo uma perspectiva analítica popularizada com a publicação de obras como Imagined Communities (1983) de Benedict Anderson. A produção académica neste domínio é vastíssima e originária das mais variadas filiações disciplinares, explorando diversos meios e suportes culturais de publicitação de versões oficiais dos passados nacionais (Gillis 1994; Smith, 1999). Também em Portugal se tem dispensado uma atenção às representações da identidade nacional, como são exemplos os trabalhos de Leal (2000), Castelo-Branco e Branco (2003) e Sobral (2007). Neste âmbito, a análise dos mecanismos de articulação da memória e da identidade nacionais na esfera pública tem sido bastante profícua. Uma área de estudo particularmente vibrante concerne ao património e aos museus enquanto suportes ao serviço da construção das identidades nacionais (Kaplan, 1994; Handler e Gable, 1997).</p><p>Mais recentemente, a abordagem das políticas da memória tem vindo a ser actualizada de modo a incorporar o conflito e a negociação, numa perspectiva que concebe a multivocalidade das memórias. Embora considerando que as versões públicas dos passados nacionais traduzem sempre as visões das agências do estado, esta perspectiva não se limita à hegemonia dos discursos dominantes, incorporando discursos alternativos ou laterais, como sejam os emanados por instâncias da sociedade civil ou os contidos nos discursos de diferentes comunidades ou grupos. Esta perspectiva tem proporcionado a abertura de um campo privilegiado para uma abordagem antropológica no âmbito dos estudos da memória (Macdonald, 1997). </p><p>As questões de poder e de dominação têm sido também centrais na análise das memórias coloniais efectuada no âmbito da crítica pós-colonial (Said, 1978; Bhabha, 1994). Embora a maior parte dos estudos se debruce sobre os contextos pós-coloniais britânico e francês (Baucom, 1999; Hargreaves, 2005), a crescente publicação de obras que versam sobre as representações sociais do passado colonial português (Bastos, Almeida e Feldman-Bianco, 2002; Ribeiro, 2004 ; Perez, 2006) leva a crer que este é um domínio de estudo que está a emergir. Enfatizando a dimensão pública e a multivocalidade dos processos de construção pública dos passados nacionais, este projecto pretende contribuir para a investigação do lugar do império nos discursos pós-coloniais acerca da identidade nacional portuguesa.</p>