Género e gerações: continuidade e mudança nas narrativas familiares
Género e gerações: continuidade e mudança nas narrativas familiares
Ser mulher ou ser homem não são experiências com significados universais e intemporais, antes variando consoante os contextos e os tempos sociais. Partindo das transformações recentes ocorridas em Portugal, este projecto investiga as relações sociais de género, reconstituindo as narrativas familiares de três gerações de homens e de mulheres, em duas regiões de Portugal, com padrões de modernização muito diferenciados: Lisboa e Mondim de Basto (NUTIII do Tâmega). Malgrado a persistência de desigualdades de género, investiga-se o contrapeso entre continuidade e mudança na família, adoptando uma perspectiva intergeracional sobre a construção do género. Analisa-se, também, o fluxo das transmissões materiais e simbólicas entre linhagens masculinas (avô, pai, filho) e linhagens femininas (avó, mãe, filha), processo de longo curso em que, na família, se (re)produzem os papéis e as identidades de género. Lugares primeiros de socialização da maioria dos indivíduos, é na história das famílias, aqui contadas de geração em geração, que se encontra o vértice dos processos de reprodução e de mudança social que têm alterado o lugar das mulheres e o dos homens. A trajectória dos indivíduos, como propõem as perspectivas de análise do curso de vida, está, por um lado, implicada num tempo histórico-social que configura quadros de vida partilhados, em certa medida, por uma geração; e, por outro, inserida num dado universo familiar de socialização, em que tanto se transmitem valores e maneiras de fazer como capitais materiais e simbólicos. Numa conjuntura de mudança social, que abriu maiores possibilidades de mobilidade social e de construção biográfica e identitária, como se opera a reprodução familiar? Mais, como se opera diferenciadamente para homens e para mulheres? Que heranças passam de geração em geração e que rupturas fabricam a mudança na construção das trajectórias sociais e das identidades de género? Nesta investigação cruzam-se duas perspectivas sobre as narrativas familiares: 1) Primeiro, recorre-se a uma óptica inter-geracional em que se analisam as transmissões efectuadas entre as várias gerações de homens e de mulheres, observando quatro dimensões, particularmente sensíveis à clivagem de género. Investiga-se a reprodução das práticas de divisão de género na família, identificando, nas diferentes gerações, as formas de divisão do trabalho, os estilos de interacção familiar (mais ou menos segmentados segundo o género) e os modelos educativos (nomeadamente estratégias de escolarização diferenciadas) utilizados para rapazes e raparigas. Depois, observam-se os valores transmitidos nas linhagens femininas/masculinas, perscrutando os modos de (re)produção das culturas de género na família, avaliando o seu grau de cristalização/permeabilidade à transformação e a distância normativa entre a geração mais velha, a intermédia e a mais jovem. Investigam-se ainda os apoios e as sociabilidades, delimitando a rede de trocas entre gerações e as participações femininas e masculinas nessa rede. Finalmente, reconstituem-se trajectórias de classe, avaliando os padrões de mobilidade diferenciados segundo o género; Segundo, utiliza-se ainda uma perspectiva intra-geracional direccionada para as biografias dos indivíduos enquanto actores sociais. Segue-se o curso de vida de cada geração de homens e de mulheres, observando as mudanças e os momentos de viragem biográfica ocorridos ao longo das trajectórias individuais. Comparam-se, posteriormente, os significados sociais do género identificando as semânticas da masculinidade e da feminilidade (re)construídas ao longo da vida. Só assim se pode avaliar o impacto do tempo social, bem como das transições biográficas, sobre os ideários de género de uma dada geração, familiar e histórica. O desenho metodológico do estudo adopta uma perspectiva teórica que conceptualiza o género no quadro de outras clivagens sociais: a classe social e o contexto regional. Seleccionam-se, em primeiro lugar, jovens em fase de transição para a vida adulta, rapazes e raparigas entre os 17 e os 20 anos, residentes em Lisboa e em Mondim de Basto e com trajectórias escolares universitárias e não universitárias. Encontram-se depois os seus pais/mães e os seus avôs/avós, procurando situações em que haja contacto regular entre os indivíduos. A cada geração de entrevistados(as) corresponde um diferente tempo histórico de entrada na vida adulta. Os netos/as são representantes de uma geração nascida no Portugal da União Europeia. A geração dos pais/mães retrata o país das grandes mudanças do pós-25 de Abril; a dos avôs/avós transporta as heranças do Estado Novo.
Estatuto:
Entidade participante
Financiado:
Não
Keywords:
Gender; lifecourse; Family lineages;
Ser mulher ou ser homem não são experiências com significados universais e intemporais, antes variando consoante os contextos e os tempos sociais. Partindo das transformações recentes ocorridas em Portugal, este projecto investiga as relações sociais de género, reconstituindo as narrativas familiares de três gerações de homens e de mulheres, em duas regiões de Portugal, com padrões de modernização muito diferenciados: Lisboa e Mondim de Basto (NUTIII do Tâmega). Malgrado a persistência de desigualdades de género, investiga-se o contrapeso entre continuidade e mudança na família, adoptando uma perspectiva intergeracional sobre a construção do género. Analisa-se, também, o fluxo das transmissões materiais e simbólicas entre linhagens masculinas (avô, pai, filho) e linhagens femininas (avó, mãe, filha), processo de longo curso em que, na família, se (re)produzem os papéis e as identidades de género. Lugares primeiros de socialização da maioria dos indivíduos, é na história das famílias, aqui contadas de geração em geração, que se encontra o vértice dos processos de reprodução e de mudança social que têm alterado o lugar das mulheres e o dos homens. A trajectória dos indivíduos, como propõem as perspectivas de análise do curso de vida, está, por um lado, implicada num tempo histórico-social que configura quadros de vida partilhados, em certa medida, por uma geração; e, por outro, inserida num dado universo familiar de socialização, em que tanto se transmitem valores e maneiras de fazer como capitais materiais e simbólicos. Numa conjuntura de mudança social, que abriu maiores possibilidades de mobilidade social e de construção biográfica e identitária, como se opera a reprodução familiar? Mais, como se opera diferenciadamente para homens e para mulheres? Que heranças passam de geração em geração e que rupturas fabricam a mudança na construção das trajectórias sociais e das identidades de género? Nesta investigação cruzam-se duas perspectivas sobre as narrativas familiares: 1) Primeiro, recorre-se a uma óptica inter-geracional em que se analisam as transmissões efectuadas entre as várias gerações de homens e de mulheres, observando quatro dimensões, particularmente sensíveis à clivagem de género. Investiga-se a reprodução das práticas de divisão de género na família, identificando, nas diferentes gerações, as formas de divisão do trabalho, os estilos de interacção familiar (mais ou menos segmentados segundo o género) e os modelos educativos (nomeadamente estratégias de escolarização diferenciadas) utilizados para rapazes e raparigas. Depois, observam-se os valores transmitidos nas linhagens femininas/masculinas, perscrutando os modos de (re)produção das culturas de género na família, avaliando o seu grau de cristalização/permeabilidade à transformação e a distância normativa entre a geração mais velha, a intermédia e a mais jovem. Investigam-se ainda os apoios e as sociabilidades, delimitando a rede de trocas entre gerações e as participações femininas e masculinas nessa rede. Finalmente, reconstituem-se trajectórias de classe, avaliando os padrões de mobilidade diferenciados segundo o género; Segundo, utiliza-se ainda uma perspectiva intra-geracional direccionada para as biografias dos indivíduos enquanto actores sociais. Segue-se o curso de vida de cada geração de homens e de mulheres, observando as mudanças e os momentos de viragem biográfica ocorridos ao longo das trajectórias individuais. Comparam-se, posteriormente, os significados sociais do género identificando as semânticas da masculinidade e da feminilidade (re)construídas ao longo da vida. Só assim se pode avaliar o impacto do tempo social, bem como das transições biográficas, sobre os ideários de género de uma dada geração, familiar e histórica. O desenho metodológico do estudo adopta uma perspectiva teórica que conceptualiza o género no quadro de outras clivagens sociais: a classe social e o contexto regional. Seleccionam-se, em primeiro lugar, jovens em fase de transição para a vida adulta, rapazes e raparigas entre os 17 e os 20 anos, residentes em Lisboa e em Mondim de Basto e com trajectórias escolares universitárias e não universitárias. Encontram-se depois os seus pais/mães e os seus avôs/avós, procurando situações em que haja contacto regular entre os indivíduos. A cada geração de entrevistados(as) corresponde um diferente tempo histórico de entrada na vida adulta. Os netos/as são representantes de uma geração nascida no Portugal da União Europeia. A geração dos pais/mães retrata o país das grandes mudanças do pós-25 de Abril; a dos avôs/avós transporta as heranças do Estado Novo.
Objectivos:
<p>Este projecto avalia o impacto do tempo social e das transições biográficas sobre as culturas de género, numa perspectiva intra e inter-geracional. Para isso, começa por analisar as transmissões simbólicas e materiais entre três gerações da mesma família, através da reconstituição das narrativas familiares sobre cinco dimensões: (1) a divisão do trabalho de género, (2) os sistemas de valores, (3) os apoios e sociabilidades, (4) as trajectórias de classe e (5) as semânticas da masculinidade e da feminilidade. Depois, a pesquisa volta-se para as biografias dos indivíduos, procurando identificar mudanças, continuidades e momentos de transição. Assim, conciliam-se as análises macro e micro, investigando-se, por um lado, a relação entre mudança social e reprodução da família e dos papéis de género e, por outro, o modo como as trajectórias individuais e os momentos de viragem biográfica contribuem para definir as masculinidades e as feminilidades e criar reajustes na reprodução familiar.</p>
Observações:
Retirado "Pedro Alcantra da Silva" da área "colaboradores" no tab "equipa"
State of the art:
To be a woman or a man are not experiences with universal or a-historical meanings, but instead vary according to social contexts and temporalities. Taking into account recent social transformations in Portugal, this project aims to investigate gender relations, through the reconstitution of family narratives of three different generations of women and men from two regions of Portugal with very different modernization patterns: Lisbon and Mondim de Basto (NUTIII of Tâmega). The balance between continuity and change in family life, despite the persistency of gender inequalities which mark individual biographies, is to be researched through an intergenerational perspective over the construction of gender. The flows of material and symbolic transmissions in male (grandfather, father, son) and female (grandmother, mother, daughter) lineages, long term processes through which gender identities and roles are (re)produced, are also to be analysed. In fact, it is in family histories that the vertex of (the) social reproduction and change can be found. Thus, as a first socialization locus for most individuals, it is within the family that some important features of women?s and men?s roles in society are changing. <br />As life course perspectives propose, individuals? trajectories are, on the one hand, implicated in a social and historical time which, in a certain extent, constitutes a life frame shared by each generation; and, on the other hand, they are part of a specific family universe of socialization, in which values, «doing gender» systems and material and symbolic capitals are transmitted. In a time of social change, with more opportunities for social mobility and biographic construction, how and which are the mechanisms of family reproduction? Moreover, how is it different for women and men? Which are the inheritances that pass between generations and which are the ruptures that fabricate change in social trajectories and gender identity construction? <br />In this investigation two perspectives on family narratives are combined: <br />1) Using an intergenerational framework, transmissions between generations of women and men are analysed, observing four dimensions, particularly sensitive to gender cleavages. Firstly, the gender division of labour in the family is investigated to identify, in different generations, the division of work, family interaction styles (more or less segmented according to gender) and educational models (specially looking for different schooling strategies) used with boys and girls. Secondly, the values transmitted are observed in female and male lineages, in order to capture the ways in which gender cultures are (re)produced within the family and evaluate both the degree of crystallization\permeability to change and the normative distance between the older, the middle and the younger generation. Supports and sociabilities are also looked at, drawing on the exchange networks between generations and the female and male participations therein. Finally, class trajectories are reconstructed, evaluating the existence of different mobility patterns according to gender. <br />2) An intragenerational perspective is also used, aimed towards individuals? biographies as social actors. The life course of each generation of men and women is followed, observing changes, continuities and critical moments of biographic turn in the course of individual trajectories.
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Coordenador ICS

Data Inicio:
01/12/2006
Data Fim:
31/12/2011
Duração:
60 meses
Concluído






