Entre a escola e a família: Conhecimentos e práticas alimentares das crianças em idade escolar

Entre a escola e a família: Conhecimentos e práticas alimentares das crianças em idade escolar

As estatísticas globais sobre obesidade e excesso de peso apontam para a existência de mais de um bilião de pessoas nesta situação, tornando-se um grave problema deste século. Esta questão é sobretudo preocupante no grupo das crianças, adquirindo contornos epidémicos: na Europa dos 25, estimativas recentes indicam que existem 22 milhões de crianças com excesso de peso, das quais 5,1 milhões são obesas. Os escassos estudos realizados em Portugal mostram que no grupo etário dos 7-11 anos mais de 30% têm excesso de peso ou são obesas. Isto é resultado de vários factores, entre eles uma dieta alimentar cada vez mais desequilibrada, onde as gorduras e os açucares predominam. Acresce ainda que uma parte substancial da vida da criança é, inegavelmente passada na escola, sendo crucial o seu papel e, em particular, o serviço de refeições na promoção de hábitos alimentares e estilos de vida mais saudáveis. Dada a pertinência deste tema, fortemente mediatizado, e a escassez de estudos sociológicos nesta área, tanto a nível internacional como, sobretudo, a nível nacional, este projecto visa compreender a organização e regulação dos sistemas de refeições escolares orientados para a alimentação saudável, a apropriação e os conhecimentos alimentares que as crianças têm, bem como os hábitos alimentares das famílias. Em Portugal, assim como na Europa, o serviço de refeições escolar tem sido bastante criticado pelo fornecimento de uma alimentação nutricionalmente desequilibrada, onde vigoram produtos com índices elevados de gordura, açúcar e sal. Mais, estes produtos têm normalmente origem em sistemas agro-alimentares intensivos, com impactos nocivos no ambiente, segurança alimentar e equidade social. Acrescem ainda as preocupações acerca dos fracos conhecimentos que as crianças têm sobre alimentação e culinária e a cada vez mais ténue relação da criança com estilos de vida saudáveis. Em resposta a estes problemas, tem vindo a ser implementada nalguns países europeus, uma reforma gradual do sistema público de refeições. Portugal não é excepção e, nos últimos anos, foram lançadas algumas recomendações governamentais para as escolas e empresas de restauração colectiva de modo a incentivar mudanças nas ementas e bufetes escolares. Em paralelo, a União Europeia financiou recentemente uma iniciativa - Regime de Fruta Escolar - que visa contribuir para a promoção de hábitos alimentares mais saudáveis nas populações jovens. Portugal aderiu a esta iniciativa que está a ser implementada no ano lectivo 2009/2010. Nalguns países, estratégias para a promoção da saúde, segurança alimentar e sustentabilidade têm passado por iniciativas de relocalização das compras públicas alimentares, incentivando-se a utilização de produtos locais ou de agricultura biológica. Em Portugal, estudos recentes concluíram que existe um crescente interesse pela produção e consumo de produtos nacionais e biológicos, e que as preocupações com a saúde são centrais no consumo ‘bio'. Assim, um conjunto de questões suscita o nosso interesse em explorar melhor as articulações entre o serviço de refeições escolar, os hábitos alimentares das crianças e os das suas famílias. Como é que as escolas portuguesas têm operacionalizado estas recomendações e iniciativas governamentais? Como é que as crianças têm apropriado a alimentação escolar onde, muitas vezes, as escolas estão rodeadas de um ambiente obesogénico? Será que as crianças estão expostas a informações consistentes sobre alimentação saudável na escola e em casa? Ou serão as mensagens e conhecimentos que adquirem contraditórios? Estas são as nossas questões de partida, inspiradas pelas conclusões de um estudo britânico que comparou o serviço de alimentação escolar no Reino Unido e na Itália. Este estudo contou com a participação da coordenadora desta proposta, onde foi conduzida uma investigação das práticas alimentares das crianças (e suas famílias) bem como dos seus conhecimentos alimentares. A escassa pesquisa sociológica sobre esta temática, a nível internacional e nacional, é a principal razão para adaptar aquele estudo ao nosso contexto, ajustando as metodologias já desenhadas e testadas por Mara Miele (consultora deste projecto). Os métodos combinam diários alimentares das crianças; grupos de discussão com crianças e pais; e entrevistas semi-directivas com os principais actores do sistema público de refeições. Para além da componente metodológica inovadora, o estudo cobre uma temática pouco analisada na sociologia do consumo, alimentação e infância - a aquisição de conhecimentos alimentares das crianças - informada pelas teorias da prática. 

 

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Sim
Entidades: 
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Rede: 
School Meals
Keywords: 

Refeições escolares, Crianças, Saúde, Práticas e conhecimentos alimentares

As estatísticas globais sobre obesidade e excesso de peso apontam para a existência de mais de um bilião de pessoas nesta situação, tornando-se um grave problema deste século. Esta questão é sobretudo preocupante no grupo das crianças, adquirindo contornos epidémicos: na Europa dos 25, estimativas recentes indicam que existem 22 milhões de crianças com excesso de peso, das quais 5,1 milhões são obesas. Os escassos estudos realizados em Portugal mostram que no grupo etário dos 7-11 anos mais de 30% têm excesso de peso ou são obesas. Isto é resultado de vários factores, entre eles uma dieta alimentar cada vez mais desequilibrada, onde as gorduras e os açucares predominam. Acresce ainda que uma parte substancial da vida da criança é, inegavelmente passada na escola, sendo crucial o seu papel e, em particular, o serviço de refeições na promoção de hábitos alimentares e estilos de vida mais saudáveis. Dada a pertinência deste tema, fortemente mediatizado, e a escassez de estudos sociológicos nesta área, tanto a nível internacional como, sobretudo, a nível nacional, este projecto visa compreender a organização e regulação dos sistemas de refeições escolares orientados para a alimentação saudável, a apropriação e os conhecimentos alimentares que as crianças têm, bem como os hábitos alimentares das famílias. Em Portugal, assim como na Europa, o serviço de refeições escolar tem sido bastante criticado pelo fornecimento de uma alimentação nutricionalmente desequilibrada, onde vigoram produtos com índices elevados de gordura, açúcar e sal. Mais, estes produtos têm normalmente origem em sistemas agro-alimentares intensivos, com impactos nocivos no ambiente, segurança alimentar e equidade social. Acrescem ainda as preocupações acerca dos fracos conhecimentos que as crianças têm sobre alimentação e culinária e a cada vez mais ténue relação da criança com estilos de vida saudáveis. Em resposta a estes problemas, tem vindo a ser implementada nalguns países europeus, uma reforma gradual do sistema público de refeições. Portugal não é excepção e, nos últimos anos, foram lançadas algumas recomendações governamentais para as escolas e empresas de restauração colectiva de modo a incentivar mudanças nas ementas e bufetes escolares. Em paralelo, a União Europeia financiou recentemente uma iniciativa - Regime de Fruta Escolar - que visa contribuir para a promoção de hábitos alimentares mais saudáveis nas populações jovens. Portugal aderiu a esta iniciativa que está a ser implementada no ano lectivo 2009/2010. Nalguns países, estratégias para a promoção da saúde, segurança alimentar e sustentabilidade têm passado por iniciativas de relocalização das compras públicas alimentares, incentivando-se a utilização de produtos locais ou de agricultura biológica. Em Portugal, estudos recentes concluíram que existe um crescente interesse pela produção e consumo de produtos nacionais e biológicos, e que as preocupações com a saúde são centrais no consumo ‘bio'. Assim, um conjunto de questões suscita o nosso interesse em explorar melhor as articulações entre o serviço de refeições escolar, os hábitos alimentares das crianças e os das suas famílias. Como é que as escolas portuguesas têm operacionalizado estas recomendações e iniciativas governamentais? Como é que as crianças têm apropriado a alimentação escolar onde, muitas vezes, as escolas estão rodeadas de um ambiente obesogénico? Será que as crianças estão expostas a informações consistentes sobre alimentação saudável na escola e em casa? Ou serão as mensagens e conhecimentos que adquirem contraditórios? Estas são as nossas questões de partida, inspiradas pelas conclusões de um estudo britânico que comparou o serviço de alimentação escolar no Reino Unido e na Itália. Este estudo contou com a participação da coordenadora desta proposta, onde foi conduzida uma investigação das práticas alimentares das crianças (e suas famílias) bem como dos seus conhecimentos alimentares. A escassa pesquisa sociológica sobre esta temática, a nível internacional e nacional, é a principal razão para adaptar aquele estudo ao nosso contexto, ajustando as metodologias já desenhadas e testadas por Mara Miele (consultora deste projecto). Os métodos combinam diários alimentares das crianças; grupos de discussão com crianças e pais; e entrevistas semi-directivas com os principais actores do sistema público de refeições. Para além da componente metodológica inovadora, o estudo cobre uma temática pouco analisada na sociologia do consumo, alimentação e infância - a aquisição de conhecimentos alimentares das crianças - informada pelas teorias da prática. 

 

Objectivos: 
As metodologias a utilizar são diários alimentares, grupos de discussão com crianças e pais, e entrevistas exploratórias e semi-estruturadas com os vários agentes do sector da alimentação escolar saudável.
State of the art: 
This proposal builds on the experience gained while undertaking previous research on producers' and consumers' attitudes towards and uses of organic foods, interdisciplinary research on local food in the UK and this proposal's coordinator participation in a British funded research project on school meals and children eating habits. It also benefits from rich sociological work on public health and youth; advertising and consumption; media and sustainability issues. Thus, this project will examine the organization of the school meal system in Portugal and its recent changes, children's food appropriation and knowledge, and their families eating habits. Sociological studies focusing on children eating habits, food knowledge and school meals are scarce. On this topic, research proliferates within the nutritional sciences and public health education fields, often directed to practical interventions on health and food education driven by concerns around childhood obesity. Despite the valuable insights of such literature, one pressing shortcoming can be identified. It often departs solely from two main theoretical perspectives: individualization through a focus on the body and its genetic make or/and individual behaviour (informed by psychological input); the structural and contextual factors that influence eating habits be they economic, cultural, social or technological. An either/or take on such perspectives is frequent, although studies that include individual and social variables are becoming more common. Nevertheless, this literature is mostly oriented to health promotion, overlooking other aspects beyond health, namely the environmental and ethical qualities of food that also mediate eating practices, a central point explored in. Another flaw is the emphasis given to quantitative methodologies, limiting richness and in-depth approaches to children's food consumption. An aspect that this proposal will contribute to repair with the team vast experience on qualitative methodologies. In addition, a narrow notion of health tends to dominate these studies by focusing on its scientific understanding wherein the nutritional discourse is highlighted. Particular assumptions that frame a rationalistic and reductionist approach to health are taken for granted: health is assumed as a universal value equally and widely desired by everybody. Plus, the scientific recommendations on health and nutrition are the authoritative bases of knowledge and the effective way on which to improve health. Finally, if children do not follow the advice of scientific experts, lack of information or poor understanding are advanced as justifications. Once the knowledge deficit is diagnosed, more information is offered as solution. These are problematic assumptions. When examining consumer meanings of organic foods, a plurality of associations with 'health' was found, contributing to question the binary and normative character in food classification: unhealthy/healthy. Besides, there are other legitimate knowledge bases beyond science, notably lay knowledge. Such diversity thwarts not only a hierarchical view of knowledge but also rejects the notion of people (and children) as passive recipients of expert knowledge. Additional information can be ineffective especially if a top-down approach is implemented and neglects situated practices. It is, thus, advisable to depart from an understanding of food practices as they are performed by children and their families in their everyday lives along with the way food knowledge and competences are acquired and distributed through and, in the course, of practice. As to the sociological literature, recent contributions on this topic are still few and far between. The sociology of childhood tends to approach it from the 'production of consumption' angle, whereas the sociology of consumption pays little systematic and detailed attention to children. A social constructionist approach emphasizing socialization processes is often applied to explain children's knowledge and eating habits, and structural/holist factors are enhanced. Recent work in the 'new' sociology of childhood recognises children as social actors capable of reflexivity, a view that we share. Still, a practice approach to children's food consumption and food knowledge is greatly missing. This approach promises to be fruitful in overcoming some of these shortcomings. A middle ground theoretical perspective avoids falling into individualist or holist angles and moves towards a relational and processual perspective of food practices and knowledge formation (beyond child development and socialization processes). Therefore, this proposal looks at the organization of the school meal system as a gateway to understand children's food appropriation and knowledge and their families' eating habits by piecing together different bodies of work derived from the sociologies of food, consumption and childhood.
Parceria: 
Rede Internacional
Silvia Cardoso
Vanda Aparecida da Silva
José Pedro Teixeira
Coordenador 
Data Inicio: 
01/04/2011
Data Fim: 
31/03/2014
Duração: 
42 meses
Concluído