As crianças e a internet: Usos e representações, a família e a escola

As crianças e a internet: Usos e representações, a família e a escola

Coordenado por Ana Nunes de Almeida, o projecto as "As crianças e a internet: usos e representações, a família e a escola" é um estudo desenvolvido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Dando voz às crianças, o seu objectivo é conhecer os usos que fazem e as representações que constroem sobre a internet, em dois contextos fundamentais do seu quotidiano:  a família e a escola.

Este projecto inspira-se em investigações realizadas desde 2001 por equipas de investigadores da Universitat Oberta de Catalunya sobre a sociedade da informação, coordenadas por Manuel Castells. Numa intenção de cumulatividade, pretende-se assim prosseguir certas linhas temáticas desenvolvidas, o que permitirá a comparação frutuosa de metodologias e de resultados entre países, mas também enriquecê-las teoricamente com a introdução de propostas trazidas para a sociologia pelo "novo paradigma da infância". Considerando a criança um actor competente, produtora e intérprete activa do seu quotidiano, procura-se (dando-lhe voz) descrever, caracterizar e interpretar os usos que faz e as representações que constrói sobre a internet, a partir de dois cenários educativos entre os quais circula: a família e a escola.

O projecto desenvolve-se em três fases. Na primeira (2008), foi feita uma abordagem extensiva e a aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra de alunos de turmas do ensino básico (1º,2º e 3º ciclos), a frequentar escolas públicas e privadas do Continente. Na segunda (2009-2010), uma abordagem compreensiva e a realização de entrevistas em profundidade a uma amostra qualitativa de franjas de crianças (diferenciadas por idade, origens familiares, condições de género e pertença étnica), bem como a seus professores e pais. Tendo em conta o desenvolvimento e avanços do projecto nas fases anteriores, foi decidido conceber uma terceira e nova fase (2011-2012) em que se procedeu a trabalho etnográfico de observação dos usos da internet pelas crianças e discussões em grupo.

O projecto pode inaugurar uma promissora linha de pesquisa em Portugal, que entrelaça (e renova) os contributos dos estudos sobre a sociedade de informação e os estudos sobre a infância. A ampla divulgação dos resultados poderá contribuir para um melhor conhecimento público sobre os usos da internet em Portugal, a sua expansão e apropriação pelas crianças em contexto familiar e escolar.

 

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Sim
Entidades: 
Fundação Calouste Gulbenkian
Keywords: 

Infância, Computadores, Jogos, Redes sociais

Coordenado por Ana Nunes de Almeida, o projecto as "As crianças e a internet: usos e representações, a família e a escola" é um estudo desenvolvido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Dando voz às crianças, o seu objectivo é conhecer os usos que fazem e as representações que constroem sobre a internet, em dois contextos fundamentais do seu quotidiano:  a família e a escola.

Este projecto inspira-se em investigações realizadas desde 2001 por equipas de investigadores da Universitat Oberta de Catalunya sobre a sociedade da informação, coordenadas por Manuel Castells. Numa intenção de cumulatividade, pretende-se assim prosseguir certas linhas temáticas desenvolvidas, o que permitirá a comparação frutuosa de metodologias e de resultados entre países, mas também enriquecê-las teoricamente com a introdução de propostas trazidas para a sociologia pelo "novo paradigma da infância". Considerando a criança um actor competente, produtora e intérprete activa do seu quotidiano, procura-se (dando-lhe voz) descrever, caracterizar e interpretar os usos que faz e as representações que constrói sobre a internet, a partir de dois cenários educativos entre os quais circula: a família e a escola.

O projecto desenvolve-se em três fases. Na primeira (2008), foi feita uma abordagem extensiva e a aplicação de um inquérito por questionário a uma amostra de alunos de turmas do ensino básico (1º,2º e 3º ciclos), a frequentar escolas públicas e privadas do Continente. Na segunda (2009-2010), uma abordagem compreensiva e a realização de entrevistas em profundidade a uma amostra qualitativa de franjas de crianças (diferenciadas por idade, origens familiares, condições de género e pertença étnica), bem como a seus professores e pais. Tendo em conta o desenvolvimento e avanços do projecto nas fases anteriores, foi decidido conceber uma terceira e nova fase (2011-2012) em que se procedeu a trabalho etnográfico de observação dos usos da internet pelas crianças e discussões em grupo.

O projecto pode inaugurar uma promissora linha de pesquisa em Portugal, que entrelaça (e renova) os contributos dos estudos sobre a sociedade de informação e os estudos sobre a infância. A ampla divulgação dos resultados poderá contribuir para um melhor conhecimento público sobre os usos da internet em Portugal, a sua expansão e apropriação pelas crianças em contexto familiar e escolar.

 

Objectivos: 
Considerando as crianças actores competentes, produtoras e intérpretes activas do seu quotidiano, pretende-se (dando-lhes voz) conhecer os usos que fazem e as representações que constroem sobre a internet, em dois cenários pelos quais circulam - a família e a escola - e onde emergem relações educativas que se sobrepõem ou contradizem, concorrem entre si. <p>Mais detalhadamente, são objectivos do projecto:</p><p>-  captar os modos de transmissão dos saberes que as crianças (indivíduos entre os 0-14 anos) detêm sobre o computador e a internet  - momentos, fontes, lugares, protagonistas e actores de aprendizagem;</p><p>- descrever os contextos do quotidiano em que ocorre o uso de um equipamento como o computador e o acesso que ele proporciona à internet  - espaços, tempos, ritmos e condições de utilização (a solo, em grupo, em rede, etc), combinações com o uso de outras tecnologias;</p><p>- compreender os objectivos da sua utilização: a internet como objecto de saber, instrumento de trabalho (para a escola, para a família), elemento de construção de uma cultura infantil e de pares.</p>
State of the art: 
Em contraposi&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita ao paradigma biol&oacute;gico e psicol&oacute;gico que a tomam como um dado natural (Prout: 2005), a nova sociologia da inf&acirc;ncia encara-a como uma constru&ccedil;&atilde;o social, fruto do tempo e do espa&ccedil;o. &quot;Childhood is to be understood as a social construct&quot; (Jenks: 1992). Postular a natureza hist&oacute;rica e cultural da inf&acirc;ncia implica, tamb&eacute;m, a considera&ccedil;&atilde;o da heterogeneidade interna das experi&ecirc;ncias infantis. Vari&aacute;veis como o sexo, a classe social, a etnia da crian&ccedil;a, ou mesmo o seu grupo et&aacute;rio de perten&ccedil;a, introduzem relevo e diferen&ccedil;a num cen&aacute;rio desigual.&nbsp; Outro princ&iacute;pio fundador tem a ver com a defesa de que as rela&ccedil;&otilde;es sociais entre as crian&ccedil;as merecem ser estudadas por direito pr&oacute;prio, a partir do seu campo, independentemente da perspectiva dos adultos.&nbsp; Ligada &agrave; anterior, surge a ideia de que a crian&ccedil;a deve ser encarada &quot;as a being in the present&quot; e n&atilde;o apenas como &quot;adult in the making&quot; (Harden: 2000), &quot;projecto de ser&quot; (Soares: 1998), &quot;momento precursor&quot; (Sirota: 1998).&nbsp; Num &quot;tempo de incertezas&quot; em que as formas de vida adulta se flexibilizaram, tanto na fam&iacute;lia incerta como no mercado dos empregos competitivos e prec&aacute;rios do mundo globalizado, &eacute; a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de adulto-padr&atilde;o, como entidade acabada, que carece de cr&iacute;tica (Lee: 2005). <p>Considerar que as crian&ccedil;as t&ecirc;m uma vis&atilde;o consistente do mundo que as rodeia imp&otilde;e a prioridade metodol&oacute;gica de lhes dar voz (na investiga&ccedil;&atilde;o) e as considerar informadoras cred&iacute;veis sobre as suas vidas e os significados que lhes atribuem. S&atilde;o sujeitos competentes de produ&ccedil;&atilde;o de vida social, &quot;actores da sua socializa&ccedil;&atilde;o&quot;, &quot;actores de corpo inteiro&quot;.</p><p>A inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e o acesso ao ciber-espa&ccedil;o (na escola, mas sobretudo em casa) parecem justamente encontrar um terreno f&eacute;rtil de expans&atilde;o entre as crian&ccedil;as, v&ecirc;m perturbar a clareza da distin&ccedil;&atilde;o tradicional entre espa&ccedil;o privado/protector e espa&ccedil;o p&uacute;blico/predador (Valentine et. al.: 2004), bem como problematizar a rela&ccedil;&atilde;o educativa tradicional entre a crian&ccedil;a (que parece exibir poderosas formas de literacia sobre os media) e o adulto (pai, professor, que parece n&atilde;o as dominar com semelhante mestria) (Renaut: 2002). </p><p>Ora as crian&ccedil;as/adolescentes e a sua rela&ccedil;&atilde;o com a internet t&ecirc;m constitu&iacute;do tema de particular interesse para estudos efectuados nos &uacute;ltimos anos (ex: Normand e Souza 2000; Lenhart et al 2001; Bevort e Br&eacute;da, 2001; Livingstone, 2005 e 2006; Clark, 2001, Sigal&eacute;s et. al., 2007; Pi&eacute;tte et. al, 2007), nomeadamente no &acirc;mbito da articula&ccedil;&atilde;o entre o uso da internet e a vida familiar e quotidiana, as sociabilidades infanto-juvenis e os processos de aprendizagem. Em Portugal, esta quest&atilde;o continua escassamente estudada:&nbsp; identificou-se um estudo realizado em 2001 (Abrantes, 2002), anos antes do processo de massifica&ccedil;&atilde;o das TIC entretanto ocorrido; outro de &acirc;mbito muito circunscrito (Reia-Baptista et. al. 2006). A prop&oacute;sito, D. Buckingham (2006) desmonta vis&otilde;es &quot;essencialistas&quot;, &quot;deterministas&quot; e &quot;unidimensionais&quot; sobre o papel destas novas tecnologias - ora como causadoras da &quot;morte da inf&acirc;ncia&quot;, ora como criadoras de uma jovem &quot;gera&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica&quot;. Ambas negligenciam, afinal, os contextos sociais em que as novas tecnologias s&atilde;o usadas, esquecem diferen&ccedil;as que contam (rapazes/raparigas, ricos/pobres).&nbsp; O conhecimento da sociedade portuguesa nesta mat&eacute;ria e a compara&ccedil;&atilde;o com os seus parceiros internacionais aconselham vivamente a replica&ccedil;&atilde;o em Portugal de estudos similares.</p><p>Por &uacute;ltimo, e na esteira de Lahire, &eacute; importante encarar a crian&ccedil;a como actor plural, produto de uma socializa&ccedil;&atilde;o em contextos sociais m&uacute;ltiplos, atrav&eacute;s da qual incorpora uma multiplicidade mais ou menos dur&aacute;vel e intensa de esquemas de ac&ccedil;&atilde;o que se organizam em tantos report&oacute;rios quanto os contextos sociais que aprende a distinguir atrav&eacute;s das suas experi&ecirc;ncias anteriores. &Eacute; na complexidade e &quot;pluralidade disposicional&quot; deste actor que se encontra o caminho para a renova&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica (Lahire: 2001).&nbsp; O desafio torna-se, ent&atilde;o, o de focar o olhar nos mesmos indiv&iacute;duos (as crian&ccedil;as) que atravessam uma pluralidade de cenas e contextos diferentes, entre a escola e a fam&iacute;lia. A pretexto, no caso deste projecto, dos usos e representa&ccedil;&otilde;es da internet.</p><p>Abrantes, J. C. (2002). Os jovens e a internet: Representa&ccedil;&atilde;o, utiliza&ccedil;&atilde;o, apropria&ccedil;&atilde;o (Relat&oacute;rio final). Lisboa: Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o Media e Jornalismo.</p><p>Bevort, &Eacute;. e Br&eacute;da, I. (2001). Les jeunes et l' Internet - Repr&eacute;sentations, usages et appropriations. Centre de Liaison de l'enseignement et des moyens d'information.</p><p>Buckingham, D. (2006). After the death of childhood. Growing up in the age of the electronic media. Cambridge : Polity Press.</p><p>Clark, W. (2001), &laquo; L'utilisation d'Internet chez les enfants et les adolescents &raquo;, Statistique Canada, (n. 11-008), pp. 6-10.</p><p>Harden, J. et al. (2000). &quot;Cant' talk, won't talk?: methodological issues in researching children&quot;. Sociological Research Online, vol 5 (2). http://www.socresonline.org.uk/5/2/harden.html</p><p>Jenks, C. (1992). &quot;Introduction: constituting the child&quot; in C. Jenks (ed.). The sociology of childhood - essential readings. Londres: Gregg Revivals, pp.9-27.</p><p>Lahire, B. (2001). L' homme pluriel - les ressorts de l' action. Paris: Nathan.</p><p>Lee, N. (2005). Childhood and society. Growing up in an age of uncertainty. Berkshire: Open University Press.</p><p>Lenhart, A. et al (2001 ). The Internet and Education: Findings of the Pew Internet &amp; American Life Project, http://www.pewinternet.org/pdfs/PIP_Schools_Report.pdf .</p><p>Livingstone, S. (2006). &laquo; Drawing conclusions from new media research: Reflections and puzzles regarding children's experience of the Internet &raquo;, The Information Society, n&ordm; 22, pp. 219-230.</p><p>Livingstone, S., Bober, M., and Helsper, E. (2005) Internet literacy among children and young people: findings from the UK Children Go Online project. Project Report. London School of Economics and Political Science, London, UK. </p><p>Normand, S. e Souza, M. B. (2000) &laquo; Internet &agrave; l'&eacute;cole &raquo;, in Georges-Louis Baron, &Eacute;ric Bruillard, Jean-Fran&ccedil;ois L&eacute;vy (eds.). Les technologies dans la classe, de l'innovation &agrave; l'int&eacute;gration, Paris, INRP-EPI, pp. 185-195.</p><p>Pi&eacute;tte, J., Pons, C-M. e Giroux, L. (2007). Les jeunes et internet: 2006 (appropriation des nouvelles technologies) - Rapport final de l'enqu&ecirc;te men&eacute;e au Qu&eacute;bec, Minist&egrave;re de la Culture et des Communications, Gouvernement du Qu&eacute;bec, http://www.infobourg.com/data/fichiers/156/Les%20Jeunes%20et%20Internet%202006.pdf .</p><p>Prout, A. (2005). The future of childhood. London, N. York: Routledge Falmer.</p><p>Reia-Baptista, V., Baltazar, N. e Mendes, S. (2006), Apropria&ccedil;&otilde;es dos novos media jovens europeus dos 12 aos 18 (Relat&oacute;rio s&iacute;ntese da equipa Portuguesa do Projecto MediaPPro), http://www.ese.ualg.pt/ciccom/Mediappro_Portugal.pdf .</p><p>Renaut, A. (2002). La lib&eacute;ration des enfants. Contribution philosophique &agrave; une histoire e l' enfance. Paris: Calmann-L&eacute;vy.</p><p>Sigal&eacute;s, Carles et al (2007) L'escola a la Societat xarxa: Internet a l'educaci&oacute; prim&agrave;ria i secund&agrave;ria, Informe final de recerca, IN3-UOC.</p><p>Sirota, R. (1998). &quot;L' &eacute;mergence d'une sociologie de l'enfance: evolution de l' objet, &eacute;volution du regard&quot;. &Eacute;ducation et Soci&eacute;t&eacute;. (2), pp. 9-33.</p><p>Soares, N. (1998). Outras inf&acirc;ncias...a situa&ccedil;&atilde;o social das crian&ccedil;as atendidas numa Comiss&atilde;o de Protec&ccedil;&atilde;o de Menores (provas de aptid&atilde;o pedag&oacute;gica e capacidade cient&iacute;fica). Braga: Instituto de Estudos da Crian&ccedil;a/Universidade do Minho.</p><p>Valentine, G, Holloway, S.&nbsp; (2004). &quot;Transforming cyberspace. Children's interventions in the new public sphere&quot; in S. Holloway e G. Valentine (eds.). Children's geographies - playing, living, learning. London: Routledge, pp.156-173.</p>
Parceria: 
Não Integrado
Nuno de Almeida Alves
Carles Sigalés
Josep M. Mominó
Tiago Carvalho
Diana Carvalho
Coordenador 
Data Inicio: 
01/03/2008
Data Fim: 
31/12/2014
Concluído