Salazarismo e Cultura Popular (1933-1958)

Salazarismo e Cultura Popular (1933-1958)
Autor(es): 
Categoria: 
ISBN: 
978-972-671-075-2
Idioma: 
Português
Ano da primeira edição: 
2001
Data de publicação: 
2025/Abr
Dimensão: 
23x15
Nº Páginas: 
394
Coleção: 
Coleção Estudos
Formato: 
Capa Mole
20,00 €18,00 €

A política cultural do Estado Novo tinha subjacente a vontade de transformar a cultura do povo. A sua intervenção fez-se sentir sobretudo nas Casas do Povo, nos ranchos folclóricos, no artesanato, nos museus etnográficos, na literatura popular e nas marchas populares (criadas em Lisboa mas depois disseminadas por todo o país, incluindo as colónias).
O autor procura demonstrar que o salazarismo promoveu um modelo ruralista, tradicionalista e nacionalista de cultura popular, com o duplo objectivo de se legitimar e de estabelecer um consenso em torno do universo de valores que, na sua óptica, enformavam a identidade portuguesa. Apesar disso, o associativismo popular livre resistiu ao programa autoritário do regime, tal como o comprova o estudo de caso da Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio.

 

Mais de vinte anos após a sua publicação, Salazarismo e Cultura Popular mantém uma notável atualidade no campo dos estudos da cultura do Estado Novo, ou seja, daquele conjunto de práticas e instituições que definiram a ideologia do regime.

O livro oferece uma descrição particularmente detalhada dos atores institucionais e não institucionais, que, ao longo de décadas, construíram a imagem de Portugal como país rural e dos portugueses como um povo de camponeses. Em simultâneo, impede que a cultura salazarista se encerre na própria lógica totalitária com que procurou sistematizar a identidade nacional, com a sua impecável arrumação de classes, regiões, objetos e práticas. Oferece-nos, assim, um exemplo do que pode ser uma história aberta a todas as tensões e contradições que marcaram a vida cultural do período.

Luís Trindade, IHC, NOVA FCSH 

Índice  
Índice de quadros e gráficos  9
Preâmbulo à terceira edição 11
Prefácio
Luís Trindade
15
Introdução 21
Capítulo 1  
Caracterização da problemática do popular: estado actual da investigação 
Contributos para o estudo da cultura popular sob o salazarismo     
27
Capítulo 2  

O discurso sobre a cultura popular: análise das representações oficiais  
A cidade e o campo: Salazar como exemplo da recriação da nostalgia ruralista 
Regresso às origens: a nostalgia da ruralidade
Nacionalização da tradição: uma lição historicista 
«Mudar os homens»: educação nacional-corporativista, escola da nova mentalidade    
As instituições oficiais como receptáculos de doutrina 
O papel estruturador do SPN/SNI  
A «fábrica do espírito» ao serviço da estetização da política salazarista     
O projecto-síntese dos «cursos e conferências de cultura popular»
A mundividência urbana: uma cultura sitiada 
O papel da FNAT para a integração do mundo laboral na orgânica corporativa   
Concepção interclassista, desintegradora e a(na)crónica da identidade popular    
Origem reaccionária da visão dualista da cultura: resposta às concepções progressistas
O papel da JCCP para o enquadramento da vida rural  
Corporativismo salazarista como leitura global do mundo: o exemplo da casa do povo    
A etnografia (folclore) como legitimação do nacionalismo estado-novista     
A cultura popular como tesouro escondido ou perdido?
Instruções para a leitura do mapa do tesouro: orientação da JCCP   
Arqueologia de um tesouro (o relicário mumificado): o Museu de Arte Popular 
Arqueologia de um tesouro (as ruínas): o Congresso de Etnografia e Folclore    
A educação popular como cultura popular 
Projectos parlamentares: o seu fracasso comprometedor nos anos 30 
Educação popular como elemento da política cultural: o debate possível no pós-guerra 
O Plano de Educação Popular: a ofensiva integradora dos anos 50 

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Capítulo 3  

Abordagem das práticas culturais no plano corporativo      
A consagração do paradigma institucional rural      
Criação e desenvolvimento da rede nacional das casas do povo (1933-1942)   
Notas sobre o financiamento da estrutura local e suas implicações    
Emergência do programa cultural corporativo: acção da FNAT e da JCCP (1943-1951)    
A reacção aos novos tempos (1952-1960)  
Actividade cultural das casas do povo: análise da avaliação oficial (1948-1960) 
Por uma leitura popular oficial    
A rede de bibliotecas rurais e a corporativização da leitura popular
A ilusão de uma nova literatura, a popular (o esforço das edições e dos concursos literários)   
Os intelectuais corporativistas e a reelaboração imagética do universo rural 
A cultura popular sob o efeito da folclorização (o estímulo erudito da etnografia)  
O artesanato como símbolo da criação cultural nacional (museus rurais e exposições) 
O primado das actividades terpsicóricas (integração dos ranchos folclóricos)   
Desvios à norma: leituras subversivas, filmes e música dissolventes, bailes licenciosos 

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Capítulo 4  

Abordagem das práticas culturais no plano não corporativo   
Definição do conteúdo da cultura popular pelo SPN/SNI     
Experimentação do modelo da «política do espírito» (simulação pelas exposições)     
Uma ideia do país, uma concepção do mundo: a sugestão folclórica
Uma experiência singular de apropriação simbólica: a aldeia mais portuguesa     
Novas etapas na descoberta oficial: monumentalização e folclorização da cultura popular     
A tríade da animação cultural do SPN/SNI: cinema, teatro e bailado
O cinema ambulante     
O Teatro do Povo e o Teatro Nacional Popular   
O grupo de bailados Verde Gaio     
O turismo na transmutação da imagem (plano das pousadas, campanhas e concursos)     
Ressurgimento português e revivescência da cultura popular: a equação etnográfica     
Programa editorial do SPN/SNI e sua relação com a literatura popular     
Iniciativas genéricas em prol da preservação e divulgação etnográficas     
O cruzamento dos mundos rural e urbano     
Exemplos móveis: as festas municipais     
Estudo de caso: as marchas populares de Lisboa, uma tradição inventada   
A intervenção formativa do MEN: uma nova etapa, velhos problemas     
O Plano de Educação Popular e o ensino (missão da CNEA)     
O Plano de Educação Popular e a cultura (um programa integrador)     
Educação permanente de adultos: um projecto sem continuação
Concorrência de paradigmas: uma lenta evolução   

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Capítulo 5  
Repressão da concorrência não consentida     
Contexto da alternativa: propostas oposicionistas para a cultura popular     
Metamorfoses da influência política das oposições: associativismo cultural como bandeira da resistência
Alcance político do associativismo popular livre e a anulação oficial da escala nacional
Estudo de caso: a Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio
«Denunciar o indiferentismo político e religioso»: a radicalização política do regime salazarista
«Não se compreende uma educação a que falte o comando de uma doutrina»: a imposição ideológica
Persistência de um projecto alternativo da sociedade civil para o campo cultural
Negociação entre o SNI e a sociedade civil: nem integração nem total autonomia
O projecto cultural federativo e as contendas jurídicas: luta pela sobrevivência político-social
A defesa da utilidade pública para fazer face aos encargos tributários
A propriedade intelectual: direitos de autor vs direitos sociais (litígio com a SECTP)
Impacte e orientação das actividades culturais da sociedade civil por via do federativismo
A repressão oficial do associativismo cultural livre

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Conclusão      363
Siglas e abreviaturas 367
Fontes e bibliografia 371
Índice remissivo 387

 

Daniel Melo é professor auxiliar na Universidade Aberta, Departamento de Ciências Sociais e de Gestão, e investigador integrado do CHAM - Centro de Humanidades, NOVA FCSH.

Licenciou-se em História pela NOVA FCSH, sendo ainda mestre em História dos séculos XIX e XX pela mesma instituição. Doutorou-se em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE-IUL com a tese «A Leitura Pública no Portugal Contemporâneo», reconhecida com o Prémio de História Contemporânea Victor de Sá e publicada em 2005 pela Imprensa de Ciências Sociais.

A sua pesquisa tem-se focado na história das políticas culturais, das práticas e representações socioculturais, assim como da leitura, do livro e da edição, da sociedade civil, dos direitos humanos e das migrações. Sobre essas temáticas foi autor e coeditor de 3 livros na Imprensa de Ciências Sociais.

Dos seus trabalhos mais recentes destacam-se «A censura aos livros no Portugal de Salazar», in Livros Proibidos no Estado Novo (4.ª ed. rev.ª e aumentada, Lisboa, Assembleia da República, 2024); «‘Living normally’: everyday life under Salazarism» (European History Quarterly, 2022); e «Debates sobre a cultura em Portugal: o complexo caso do livro e da leitura» (Sociologia, Problemas e Práticas, 2020).

Este trabalho obteve o Prémio de História Contemporânea «Victor de Sá», atribuído pela Universidade do Minho em 1998.

 

Mais de vinte anos após a sua publicação, Salazarismo e Cultura Popular mantém uma notável atualidade no campo dos estudos da cultura do Estado Novo, ou seja, daquele conjunto de práticas e instituições que definiram a ideologia do regime.

O livro oferece uma descrição particularmente detalhada dos atores institucionais e não institucionais, que, ao longo de décadas, construíram a imagem de Portugal como país rural e dos portugueses como um povo de camponeses. Em simultâneo, impede que a cultura salazarista se encerre na própria lógica totalitária com que procurou sistematizar a identidade nacional, com a sua impecável arrumação de classes, regiões, objetos e práticas. Oferece-nos, assim, um exemplo do que pode ser uma história aberta a todas as tensões e contradições que marcaram a vida cultural do período.

Luís Trindade, IHC, NOVA FCSH 

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