Nota de Pesar e Testemunhos

Nota de Pesar e Testemunhos

INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Universidade de Lisboa

 

Maria Eduarda Cruzeiro

É com profunda tristeza que o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa comunica o falecimento de Maria Eduarda Cruzeiro, figura incontornável da história desta instituição e da sociologia portuguesa.

Nascida em Lisboa em 1937, Maria Eduarda Cruzeiro licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1966, ano em que ingressou no Gabinete de Investigações Sociais (GIS) como bolseira de sociologia da Fundação Calouste Gulbenkian. Prosseguiu a sua formação em França, obtendo a Licence em Sociologia pela Universidade de Paris-VIII em 1972, o DEASS e, posteriormente, o doutoramento em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales em 1990, com a dissertação Action symbolique et formation scolaire. L'Université de Coimbra et sa Faculté de droit dans la seconde moité du XIXe siècle.

A sua carreira científica decorreu integralmente no GIS e depois no ICS, onde permaneceu até à jubilação em 2007. Paralelamente, foi docente no Iscte-IUL entre 1972 e 1992, instituição em cujo Conselho de Gestão participou nos anos de 1974 a 1976. Desenvolveu ainda atividade como Investigadora Visitante no Centre de Sociologie Européenne, em Paris.

O seu contributo para a gestão e consolidação do ICS foi determinante. Após ter integrado os órgãos de gestão do GIS desde os primeiros anos, foi Presidente do Conselho Diretivo do ICS de 1992 a 2007, período em que a instituição conheceu um significativo aprofundamento da sua autonomia e afirmação no panorama das ciências sociais nacionais e internacionais.

No plano científico, a sua obra articula a sociologia da educação com a história das instituições universitárias, com particular atenção à Universidade de Coimbra e ao seu papel na construção do campo intelectual e simbólico português. Entre as suas publicações destacam-se os artigos "Ensino secundário: duas populações, duas escolas" (Análise Social, 1978), "A reforma pombalina na história da Universidade" e "Capital simbólico e memória institucional" (Análise Social, 1988), e "A Universidade sitiada: a Universidade de Coimbra entre os dois liberalismos (1820-1834)" (Análise Social, 1994), bem como o livro Processos de Intensificação no Português dos Séculos XIII a XV (1973).

A memória de Maria Eduarda Cruzeiro permanecerá viva na história do ICS e no legado que soube construir com rigor, dedicação e sentido de missão. O ICS endereça as mais sentidas condolências à família e a todos quantos com ela privaram.

Lisboa, 27 de maio de 2026

Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

 

TESTEMUNHOS

Recordo vivamente a figura incontornável da Eduarda enquanto Presidente do Conselho Directivo, sempre cordial e empenhada na defesa do ICS. No final do seu mandato, acompanhou todos os pormenores (e pormaiores) do novo edifício do ICS, inaugurado em 2004. Se temos um edifício bonito por dentro e por fora, a ela o devemos. O jardim que leva o seu nome é uma justa homenagem, uma novidade que segundo os sobrinhos, recebeu com alegria. 

 Marina Costa Lobo
Querida Doutora Eduarda Cruzeiro,
"Uma pessoa só morre quando mais ninguém diz o seu nome, quando mais ninguém a lembra"
Eu vou lembrar-me sempre de si, e hoje acredito que, já junto de seu Amor, Sorri e Olha para toda a "Obra Maravilhosa" que deixou neste seu caminhar, assim como todos os Amigos que hoje reconhecem em tudo a sua Dedicação, Competência e Amizade. 
Fica a Verdadeira SAUDADE.
Obrigada, Doutora Eduarda. Vou continuar a Gostar Muito de Si.
Augusta Soveral

Jantar de anos da então recém-jubilada Eduarda Cruzeiro que coincidiu com a sua saída do então designado Conselho Directivo do ICS a que até então presidia (para contextualizar este ‘versículo’ junto dos colegas do ICS que não a conheceram, a Eduarda Cruzeiro, que anteontem nos deixou, no meio de toda a sua actividade de investigação, dedicou-se de alma, coração e cabeça à instalação do Instituto no novo edifício. Era então Presidente do Conselho Directivo e, com o seu espírito empenhado e criterioso, ela empurrou as obras, ela escolheu os móveis e decoração, ela ‘controlava’ todos os pormenores para dar maior conforto ao nosso local de trabalho. E sempre com humor, alegria, amizade e sabedoria. Por tudo isto merece – e muito - que o nosso jardim tenha o nome dela).
Aqui vão os curtos versos que então escrevi na festa do seu jantar de despedida do ICS:


Eduarda tão cordata
que tão bem nos presidiste
logo hoje, nesta data,
porque razão te sumiste?
O teu modo organizado
- entre decisões e cadeiras,
mesas e remodelações,
salas (intocáveis!), prateleiras… –
tem-nos apontado o norte
a tal ponto que ICS
lê-se hoje por toda a parte
como Indivíduos Com Sorte!
Hoje que fazes anos
e foste para longe de nós
fica a saber, ó Cruzeiro
que, longe ou perto, tanto faz
estás sempre no coração
deste Instituto inteiro…

Luísa Schmidt

Ver a entrevista realizada a Eduarda Cruzeiro, por Luísa Schmidt, no n.º especial – 200 – no qual todos os investigadores fundadores do ICS foram então entrevistados pelos, então, mais novos.

 

“Andei contigo ao colo quando eras bebé”: este foi o comentário surpreendente que Eduarda Cruzeiro me fez, entrando de rompante no gabinete onde eu acabava de me instalar como investigador auxiliar do ICS. De facto, quando era adolescente a Eduarda tinha integrado um mesmo grupo de praia com os meus irmãos mais velhos. Mas rapidamente percebi que estas primeiras palavras, e sobretudo o tom com que foram ditas, refletiam o registo carinhoso, próximo, quase maternal, com que a Eduarda tratava os colegas e funcionários do Instituto. De facto, o ICS, para ela, era uma espécie de prolongamento da sua família e da sua casa. Pude comprovar este facto ao acompanhar de perto, enquanto membro do conselho diretivo a que ela presidia, a conceção do novo edifício, que ela geriu de forma meticulosa, apresentando sugestões pormenorizadas sobre tudo, da disposição dos gabinetes à dimensão das janelas, do tipo de mobiliário às escadas em frente à porta do edifício ou…à exigência de o bar ter sempre scones frescos. Nunca fui um saudosista. Mas neste caso, não poderei deixar de dizer: Que saudades, Eduarda!

João Ferrão
Foi num contexto particularmente difícil que a Doutora Eduarda Cruzeiro assumiu funções como Presidente do Conselho Diretivo do ICS. E em boa hora o fez!
Se é verdade que o percurso das instituições não está exclusivamente dependente de quem as lidera, não é menos certo que as lideranças são fundamentais no trilhar desses percursos e a Doutora Eduarda Cruzeiro, pela sua maneira de ser e de estar, deu um contributo decisivo.
A Doutora Eduarda Cruzeiro foi sempre tão consensual no exercício do cargo que nas diversas eleições a que se candidatou obteve ou a unanimidade ou folgadas maiorias.
Para quem teve o privilégio de poder trabalhar tão proximamente com ela não é fácil fazer dar um testemunho. Ainda assim, direi que a Doutora Eduarda Cruzeiro deixou uma marca indelével no ICS, que é o seu edifício. Ainda este estava no projeto, já a Doutora Eduarda Cruzeiro “navegava” pelos seus espaços. Muito do bom que o edifício tem, desde os acabamentos ao mobiliário, a ela se deve por inteiro. Recordo as intermináveis reuniões noite fora com o saudoso Arquiteto Hestnes Ferreira e a sua equipa e os infindáveis pedidos da Doutora Eduarda Cruzeiro para se proceder a alterações, como seja a escada de entrada do edifício que teve mais de meia dúzia de versões.
Mas a atividade da Doutora Eduarda Cruzeiro não se resumiu ao edifício. Há uma outra dimensão menos visível: o ICS ultrapassou dificuldades financeiras, graças a muitas intervenções diretas da Doutora Eduarda Cruzeiro junto das entidades competentes. Quando se negociou o primeiro orçamento para o novo edifício partiu-se de base zero porque não se sabia os gastos que se iria ter. Fez-se uma previsão orçamental que foi negociada no Ministério. Houve abertura total do então Diretor-Geral do Ensino Superior que conhecia a realidade universitária em Portugal e o próprio ICS.
Quando a Doutora Eduarda Cruzeiro se aposentou deixou uma instituição institucionalizada, passe a redundância.
Durante um longo período da sua vida pessoal esteve numa situação particularmente difícil. Penso que outra pessoa nessas circunstâncias teria cessado as funções. Por tudo o que fez e deixa, presto-lhe uma sincera homenagem e um até sempre.
António Martinho

A nossa amiga Eduarda Cruzeira deixou-nos uma obra institucional. A construção do edifício ICS, todos sabemos, representou o passo fundamental que permitiu a passagem de uma pequena instituição de investigação para uma grande instituição com um largo número de investigadores e com mais de uma centena de doutorandos. Esta nova dimensão do ICS conferiu um novo impulsou ao seu trabalho científico, consolidou a sua afirmação na Universidade de Lisboa e contribuiu para o seu reconhecimento no contexto universitário nacional e internacional. O sábio posicionamento negocial da Eduarda, a sua capacidade de congregar alianças, a sua serena persistência e a sua capacidade de gerar consensos estão na base do lugar que é hoje o ICS.

Foi no ICS que conheci a Eduarda, uma pessoa que rapidamente aprendi a respeitar e de quem me tornei amigo. Como colega, acompanhei a fase final do seu trabalho de doutoramento e constatei como exigência intelectual, rigor formal e imaginação social se podem cruzar. No plano pessoal, partilhávamos uma memória comum: as areias do Baleal, o perfume único da maresia dessa ilha única, as manhãs de verão nebuladas, o sol do meio dia. Esta memória ligou-nos. Quando assumi responsabilidades institucionais, foram muitas as vezes que recorri às reflexões da Eduarda e ao seu aconselhamento amigo.

A presença da Eduarda está agora no jardim do ICS, evocando beleza, sabedoria, partilha e toda a exigência de um constante renascimento que os jardins contêm.

Jorge Vala

Quando a conheci em 1985, a Eduarda Cruzeiro fazia parte do núcleo mais antigo que transitara do antigo Gabinete de Investigações Sociais para o recentíssimo Instituto de Ciências Sociais. Cedo nos tornámos amigos, para o que contribuiu, muito, a sua enorme simpatia e afabilidade, e porventura também a consideração que partilhávamos pela sociologia de Pierre Bourdieu, seu orientador de doutoramento.

Com a passagem dos anos, a minha estima por ela foi sempre crescendo. Depois do desaparecimento de Adérito Sedas Nunes, a Eduarda tornou-se Diretora do ICS e tomou como missão o desenvolvimento do Instituto, que conheceu uma transformação crucial por essa altura. A inteligência que colocava no seu relacionamento com os outros, permitiu-lhe transformar uma instituição que vivia do empréstimo de parte das suas instalações pelo ISCTE e do arrendamento da antiga sede do GIS, numa entidade com sede própria, condição fundamental para se afirmar tanto simbólica como materialmente enquanto escola da Universidade de Lisboa. Passou a ter as condições que lhe permitiram alargar o corpo de investigadores e desenvolver a sua atividade na pós-graduação ao nível do mestrado e do doutoramento e isso teve implicações decisivas no reconhecimento do ICS a nível interno e externo.

Dedicou a esta tarefa toda a sua energia e habilidade, mobilizando internamente um grupo de acompanhamento da obra, de que fiz parte, e contando sempre com a dedicação do António Martinho, seu autêntico braço-direito. Havia discussões quase intermináveis, nomeadamente com o arquiteto e a sua equipa, que iam da organização dos espaços até aos materiais empregues e ao mobiliário. Foi de uma persistência inabalável e de uma dedicação total.

Tinha também a consciência que, ao fazê-lo, estava a pôr de lado a sua investigação, que culminara com o seu doutoramento em sociologia sobre a ligação entre a Universidade de Coimbra e o campo do poder, mas que se havia iniciado nos anos sessenta com uma dissertação de licenciatura em Filologia Românica – em tempos de enorme exigência nesse tipo de teses – antes de as suas preocupações sociais e políticas a conduzirem à investigação nas ciências sociais, então embrionárias.

Não me recordo de ver a Eduarda zangada com quem quer que fosse. Também neste aspeto se refletia a sua grande inteligência, a sua modéstia e um trabalho constante na procura dos consensos possíveis, que lhe permitiram realizar uma obra crucial para o Instituto. Esta fica como uma memória persistente do que foi a sua presença entre nós, quando outros traços, aliás deliciosos, da sua personalidade – como as suas estratégias tenazes para conseguir um estacionamento para o seu carro o mais próximo possível do seu gabinete, no tempo em que o ICS não possuía espaço próprio – se tiverem diluído no esquecimento.

José Manuel Sobral