Reis-forasteiros e xerimbabos-estranhados: uma teoria do poder na Amazônia indígena

Seminários GI
Qui . 22 Jan . 11h00
Sala Maria de Sousa - ICS-ULisboa & Online
Reis-forasteiros e xerimbabos-estranhados: uma teoria do poder na Amazônia indígena
Luiz Costa (Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Organização: 
GI Diversidades

No dia 22 de janeiro, Luiz Costa (Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro) será o orador convidado do seminário organizado pelo Grupo de Investigação Diversidades. A partir das 11h, na Sala Maria de Sousa do ICS-ULisboa e online.

Resumo:

Segundo o antropólogo Marshall Sahlins, o rei-forasteiro é o arquétipo da vida política em todo o mundo, e a politeia à qual dá origem é a forma dominante do Estado pré-moderno, possivelmente sua forma original. A história se repete ao redor do planeta: os primeiros soberanos vieram de terras distantes, falando línguas diferentes, vivendo aventuras variadas, antes de chegar ao seu novo lar, onde se casam com uma mulher local, têm filhos e estabelecem uma dinastia que retém, em alguma medida, a sua origem adventícia.

Apesar de sua distribuição quase global, os reis-forasteiros estão ausentes das terras baixas da América do Sul, onde, a despeito da nossa compreensão cada vez mais sofisticada das formas sociais complexas e hierárquicas que existiam no passado — e que existem em certas partes da região no presente —, nenhum pesquisador jamais identificou nada que se pareça com “Estados” ou figuras que se assemelhem a “reis”.

Não obstante, Marshall Sahlins inclui as terras baixas da América do Sul em sua teoria da “sociedade política original” por meio de uma generalização da sociologia dos reis-forasteiros, na qual estes se revelam apenas uma instância elaborada de uma metafísica básica entre o exterior, onde o poder político se origina, e o interior, onde ele é assimilado, matizado e exercido.

Nesta apresentação, proponho que, a despeito da pertinência dessa metafísica do exterior e do interior, existe outro fenômeno na Amazônia indígena — sobretudo na região dos rios Juruá e Purus — que chamo de “xerimbabos-estranhados” e que nos oferece uma espécie de avesso da figura do rei-forasteiro, fornecendo um caminho para delinearmos uma teoria alternativa do poder na Amazônia.

Luiz Costa é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Realiza pesquisa de campo com os Kanamari, povo indígena do Vale do Javari, no Estado do Amazonas, Brasil, desde 2002. Pesquisa temas como parentesco, organização social e política, mitologia e história. É autor de The Owners of Kinship: Asymmetrical Relations in Indigenous Amazonia (Chicago, HauBooks, 2017) e co-organizador (com Casey High) da coletânea The Lowland South American World (Londres, Routledge, 2025). Foi editor do periódico HAU: Journal of Ethnographic Theory e atualmente é editor de Mana: Estudos de Antropologia Social.