O perspectivismo ameríndio: ecologia política de uma teoria
O perspectivismo ameríndio: ecologia política de uma teoria etnológica
Eduardo Viveiros de Castro, Museu Nacional, Rio de Janeiro
Nesta conferência busco sintetizar uma trajetória de pesquisa de mais de 35 anos, toda ela voltada para o estudo dos dispositivos sociológicos e dos agenciamentos cosmológicos ameríndios, amazônicos em particular. Essa trajetória pode ser descrita, de maneira simples, como tendo consistido um esforço sistemático para desenvolver certos aspectos ambivalentes ou contradominantes da obra de Lévi-Strauss, à luz da contribuição de alguns de seus discípulos dissidentes e de uma certa heterodoxia filosófica pós-estruturalista.
O trabalho resultou na elaboração de duas "teorias" (a palavra será considerada) sobre as sociedades indígenas americanas: (1) uma teoria sociológica, que estabelece o laço de afinidade como o esquema genérico da relação social indígena, validando assim o espírito (senão a letra) da doutrina lévi-straussiana da aliança; esta é a chamada "teoria da afinidade potencial"; e (2) uma teoria cosmológica, que propõe uma redistribuição dos valores atribuídos pela metafísica ocidental às categorias da Natureza e da Cultura; esta é a teoria do perspectivismo ameríndio, ou "perspectivismo multinatural", que toma a contrapelo certos postulados básicos da antropologia lévi-straussiana. A ligação entre as duas teorias define uma cosmopolítica ameríndia, que termina por dissolver qualquer distinção entre sociologia e cosmologia, e que tem o estatuto integral de uma metafísica indígena, teoricamente reconstruída pela etnologia. Tal teoria unificada inclui, como componente central, uma etno-antropologia, que contém, por sua vez, uma descrição de si mesma assim como uma contra-descrição da antropologia ocidental. Ela se apresenta portanto como um discurso em posição de interlocução, muito mais que em posição de objeto, face à antropologia praticada por nós, os acadêmicos herdeiros da tradição intelectual ocidental.
A trajetória teórica acima descrita possui ela mesma uma trajetória dentro de seu próprio contexto "cosmopolítico", a saber, o campo intelectual da disciplina antropológica. Examinarei, na conferência, as condições singulares que levaram à difusão de um conjunto de trabalhos de visada muito concentrada bem para além de seus condicionantes referenciais (a etnologia amazônica), institucionais (o Museu Nacional do Rio de Janeiro), e disciplinares (a antropologia social). Por outras palavras, tratar-se-á aqui, também, de examinar a "ecologia política" dessa teoria, a rede contingente de fatores que a puseram em posição de interagir com - inter alia - a etnologia melanésia, a antropologia das ciências modernas, a epistemologia da antopologia, e a nova metafísica especulativa.
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
Breve Biografia
Eduardo Viveiros de Castro é antropólogo e Professor no Museu Nacional/UFRJ desde 1978. Tem uma longa experiência de pesquisa na Amazônia e uma vasta experiência académica internacional. Desde 2001 é membro da Equipe de Recherche en Ethnologie Américaniste do C.N.R.S. Entre 1997-1998 foi Simón Bolívar Professor of Latin American Studies na Universidade de Cambridge e entre 1999-2001 Directeur de Recherches no C.N.R.S. Foi ainda Professor-visitante nas Universidades de Chicago (1991, 2004), Manchester (1994), USP (2003), UFMG (2005-06).
Doutor em Antropologia Social pela UFRJ (1984). Pós-doutorado na Université de Paris X (1989). Prêmio de melhor tese de doutorado em Ciências Sociais da ANPOCS (1984); Médaille de la Francophonie da Academia Francesa (1998); Prêmio Erico Vanucci Mendes do CNPq (2004); Ordem Nacional do Mérito Científico (2008).
Publicou cerca de 120 artigos ou capítulos de livros e sete livros, de 1972 ao presente. Coordenou o Projeto Pronex: Transformações indígenas: os regimes de subjetivação ameríndios à prova da história; (2004-06). É o coordenador do Núcleo de Transformações Indígenas, grupo baseado no Museu Nacional/UFRJ, e co-coordenador da Rede Abaeté de Antropologia Simétrica.
Eduardo Viveiros de Castro tem tido um influente papel no debate contemporâneo sobre a percepção e compreensão das relações entre natureza e cultura. Tendo sustentado esta reflexão num longo debate sobre como os ameríndios formulam tais relações, o pensamento de Eduardo Viveiros de Castro tem-se destacado, entre outros, por atribuir a tais categorias uma consistência propriamente filosófica e teórica. Esse nível de discussão tornou o seu pensamento incontornável em qualquer debate contemporâneo sobre o conhecimento como faculdade de relacionamento com o mundo (humano e animal), sumariado na expressão do "multinaturalismo ameríndio". Na antropologia a súmula deste pensamento desenvolveu-se a partir do que designou de "perspectivismo ameríndio" - uma análise que nasceu de um contributo revelador sobre o pensamento Tupi aos níveis mais centrais do que é ser sujeito, das relações de parentesco. Inspirador e de sofisticação intelectual ímpar, o pensamento de Eduardo Viveiros de Castro tem vindo a criar interlocuções centrais aos grandes debates contemporâneos não apenas na antropologia, mas também sobre a questão ambiental e as categorias de percepção do mundo na contemporaneidade.




