A endogamia verdadeira ou o tabu do ex-cesto: como o parentesco subdetermina a humanidade entre os Kisêdjê (Brasil Central)"

Seminários GI
Sex . 7 Out . 15h00
Sala Polivalente
A endogamia verdadeira ou o tabu do ex-cesto: como o parentesco subdetermina a humanidade entre os Kisêdjê (Brasil Central)"
Marcela Coelho de Souza

Para os ameríndios, especificamente para os povos do Brasil Central, o processo do parentesco pode ser pensado como um esforço deliberado de identificação corporal entre os Humanos em contradistinção a outros tipos de sujeito (animais, espíritos, inimigos). Negar deliberadamente o parentesco, em um contexto em que parentesco e humanidade definem-se mutuamente, introduziria o risco de desumanização - não é de surpreender que a metamorfose transespecífica apareça frequentemente como consequência do incesto visto como inversão do processo de aparentamento. Tentei alhures mostrar que esse operação - tratar o parente como não-parente, o Mesmo como Outro, um Humano como não-Humano -, não importa quão arriscada, não é menos necessária, de modo que o incesto emerge não apenas como o inverso do parentesco, mas como sua condição - ou talvez seu "aposto", como sugerido recentemente por Roy Wagner, "the formless content of all kin relations as against the contentless form of the way they have been described and studied" (Wagner s/d:99). Se isso é assim, o mesmo pode ser verdadeiro do outro "lado" do incesto (e também, frequentemente, uma consequência dele, como no caso da metamorfose): a "exogamia verdadeira", "conhecimento carnal" transespecífico, aquilo que a "endogamia verdadeira" de Lévi-Strauss supostamente viria prevenir. Tentarei aqui elaborar esta possibilidade, a partir de elementos de etnografia Kĩsêdjê (um povo jê do Brasil Central).