O regresso e os seus descontentamentos: obrigação, reconhecimento e as pós-vidas da migração
No dia 29 de janeiro, Valerio Simoni (ICS-ULisboa) será o orador convidado do seminário organizado pelo Grupo de Investigação Diversidades, com o tema O regresso e os seus descontentamentos: obrigação, reconhecimento e as pós-vidas da migração. A partir das 11h, na Sala 1 do ICS-ULisboa e online.
Resumo: A migração gera expectativas de que ela “valha a pena”: prover, justificar a partida e converter a mobilidade em valor para outros. Com base em trabalho etnográfico de longa duração com migrantes e retornados cubanos, este artigo analisa como essas expectativas se tornam particularmente visíveis no momento do regresso, quando a mobilidade é sujeita a um escrutínio moral intensificado. O regresso não é apenas um acontecimento material, mas um teste social em que familiares e outros próximos avaliam o que se deve, o que conta como sucesso legítimo e de que modo a “diferença” deve ser distribuída, exibida ou atenuada.
Articulando debates da antropologia da ética e da moralidade com contributos da antropologia económica, argumento que as experiências de migrantes e retornados são inevitavelmente capturadas por uma economia moral da obrigação: um domínio contestado de expectativas, juízos, reivindicações de reciprocidade e acusações, através do qual cuidado, valor social e pertença são negociados em condições de escassez. Mostro que os retornados respondem a estas exigências por meio de estratégias que não se limitam a cumpri-las, mas também procuram reduzir o alcance do escrutínio moral – através da minimização, normalização, evasão e de tentativas de recuperar aquilo a que chamo o frágil “conforto do não-marcado”.
Num segundo movimento, examino narrativas e práticas de “vida simples” como formas de experimentação moral que procuram redefinir o que pode contar como “boa vida” após a migração, permanecendo, contudo, expostas às avaliações alheias. O texto conclui sugerindo como estas economias morais se cruzam com disputas, cada vez mais mediadas, em torno da verdade e da autoridade, nas quais o cuidado pode ser reconfigurado como cumplicidade e o afastamento como clareza moral. A partir daí, desloco o foco empírico do caso cubano para uma agenda de investigação sobre a politização mediada digitalmente entre migrantes brasileiros em Portugal.
Valerio Simoni é Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Antropólogo social, investiga as dimensões morais, económicas, afetivas e políticas da mobilidade transnacional, com foco na América Latina e no Sul da Europa. Coordenou o projeto Returning to a Better Place (ERC Starting Grant, 2018–2023) sobre migração, crise e avaliações do que conta como “vida boa”, e é atualmente Investigador Principal do Conciliating a Bearable Life (ERC Proof of Concept), com investigação-ação participativa sobre mobilidades transfronteiriças no Equador. É autor de Tourism and Informal Encounters in Cuba (Prémio ATIG/AAA).





