João Pedro Marques

Sá da Bandeira e o Fim da Escravidão

No último quartel do século XIX Portugal e outros países abolicionistas assentaram a exploração dos territórios africanos em formas de trabalho e de domínio muito próximas da escravidão - que se supunha abolida. No caso português aceita-se, geralmente, que essa situação paradoxal tenha surgido apenas na parte final do século, devido às pressões politicas e económicas da época. Teria sido então que se invertera o caminho libertador laboriosamente aberto por Sá da Bandeira - a figura que personifica a luta contra a escravidão no Portugal de Oitocentos.

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Portugal e a Escravatura dos Africanos

Portugal foi muitas vezes apresentado como o criador da escravatura dos africanos. O autor afasta-se dessa retórica culpabilizante para sublinhar que os portugueses de Quatrocentos não inventaram o tráfico transoceânico nem a escravidão colonial. Estabeleceram - isso sim - novos canais de ligação das tradições escravistas da Europa e da África que proporcionaram o estabelecimento de complementaridades comerciais e que, reforçando tendências preexistentes, impeliram brancos e pretos para rumos muito desiguais.

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Os Sons do Silêncio

Tradicionalmente, a historiografia tem atribuído o fracasso das medidas abolicionistas de 1836-1839 (sob Sá da Bandeira) à resistência colonial, à penúria de meios de acção e à inexistência de sentimentos abolicionistas em Portugal. São verdades incompletas, sobretudo quanto ao último factor. A sugestão de que existiria um vazio de opinião ou uma indiferença relativamente ao problema é enganadora. Na verdade, a cultura portuguesa dos anos 30 incluía uma muito evidente tolerância perante o tráfico de escravos. E era dominante a opinião contrária à sua supressão.

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