<p>Existem já vários estudos que têm como objectivo central o posicionamento dos partidos políticos seja numa escala esquerda-direita, seja noutros espaços políticos. O que aqui pretendemos fazer é apresentar muito brevemente as metodologias empregues em estudos internacionais para medir este posicionamento, bem como mostrar o que as principais pesquisas concluíram sobre a localização dos partidos portugueses. Este exercício prévio servirá depois para enquadrar e explicar as decisões que tomámos para a construção desta Bússola Eleitoral.</p><p>As posições dos partidos no espectro político e ideológico têm sido alvos de numerosos estudos, seguindo metodologias distintas. Resumindo, as metodologias empregues são as seguintes: os inquéritos de massas; a codificação dos programas partidários; as opiniões de peritos. Tendo em conta que nos inquéritos às massas se aufere apenas o posicionamento global dos partidos políticos numa escala ideológica, não iremos apresentar aqui esses dados. Passemos então à apresentação das outras duas metodologias.</p><p>Codificação dos Programas Eleitorais dos Partidos. Existe um grande projecto a nível europeu que codifica os programas eleitorais dos partidos políticos. O "Comparative Manifestos Project" (CMP), sucessor de um projecto anterior chamado "Manifesto Research Group" (MRG), teve início em 1980. Desde essa data, vários investigadores têm recolhido, codificado e analisado programas eleitorais de um conjunto de países desde 1945 aos dias de hoje. </p><p>A metodologia empregue no CMP passa pelo que os autores denominam a "teoria da saliência". Parte-se do princípio que os partidos nos seus programas eleitorais dão importância aos temas que mais lhes interessam. O projecto determina os temas ex ante e o codificador atribui cada frase do programa a um tema. Somando o número de vezes que um tema é discutido determinam-se quais as questões mais importantes para os partidos em dado país. Além disso, e porque muitos dos temas identificados são considerados ideológicos, também se pode extrair o posicionamento na escala esquerda-direita dos partidos.</p><p>A primeira característica a assinalar é que tanto em 2002 como em 2005 há uma grande semelhança nos temas que os partidos escolhem como salientes. Em 2002 e 2005, os temas mais salientes para o conjunto dos partidos são: a justiça social, a expansão dos serviços sociais, a expansão da educação, e a tecnologia e infraestrutura. De seguida, os temas mais salientes são: a protecção ambiental, a eficiência governativa, e a arte, o desporto a cultura e o lazer. Estes oito temas distinguem-se pela sua presença quase constante nas duas eleições e para o conjunto dos programas partidários. Destes oito, três são temas que o projecto CMP considera de esquerda, nomeadamente a expansão dos serviços sociais, da educação e a regulação do capitalismo. Nenhum dos temas que o CMP considera de direita constam dos oito temas mais citados. </p><p>É também de notar que a ordem pela qual estes temas são referidos pelos diferentes partidos diverge bastante de partido para partido o que sugere também diferenças no posicionamento dos partidos em relação aos mesmos. Será certamente um ponto de partida importante para a elaboração do questionário, que deverá incluir perguntas subordinadas a estes temas. </p><p>Destas tabelas também podemos realçar alguns temas que são desenvolvidos apenas por alguns partidos: Em 2005, o apoio aos sindicatos e às nacionalizações são temas salientes apenas para o BE e a CDU. Tanto em 2002 como em 2005, o PSD é o único partido a realçar os temas da ortodoxia económica e da produtividade. O CDS é o partido que sistematicamente (2002 e 2005) introduz referências positivas aos militares e à Lei e Ordem. São pistas para a identificação de perguntas que sirvam para distinguir os partidos uns dos outros.</p><p>Estudos recentes mostram que os partidos políticos portugueses não tinham, segundo as percepções do eleitorado, convergido ao centro nos trinta anos de democracia (Lobo, 2007). Mas também é certo que estes não são muito divergentes um do outro em perspectiva comparada (Lisi, 2007, Freire, 2006). As tabelas acima mostram que os partidos escolhem temas muito semelhantes para compor os seus programas políticos. Além disso, alguns destes temas são posicionais sugerindo que haverá, em algumas questões semelhanças importantes entre os partidos políticos. Mesmo assim, notamos que os partidos não ordenam os temas da mesma forma, um primeiro indicador das diferenças entre eles. Este é um indicador que existem diferenças, embora não sejam muito grandes. O trabalho da Bússola Eleitoral terá de passar por uma análise cuidada da forma como os partidos divergem, através da análise dos programas mais recentes de 2005 para os temas identificados como mais salientes.</p><p>3) Inquéritos a peritos. Os inquéritos a peritos são outra grande linha de pesquisa no que diz respeito à investigação sobre o posicionamento dos partidos políticos. Do nosso ponto de vista, esta metodologia, além dos seus méritos absolutos, interessa-nos na medida em que 1) explicita as dimensões em que os partidos políticos se distinguem; 2) mostra, da perspectiva dos peritos quais são as dimensões mais importantes para os partidos políticos.</p><p>O livro pioneiro desta metodologia é o de Laver and Hunt (1992). Uma questão fundamental para estes estudos é a das dimensões de análise. No caso do projecto CMP, o posicionamento dos partidos é multidimensional, tantos quantos os temas codificados. As dimensões podem ser constituídas a posteriori, através da agregação de certos temas à escolha (isso é feito formando uma escala esquerda-direita composta pela saliência dada a vários temas que a priori são definidos como sendo de esquerda ou de direita). </p><p>No caso dos estudos a peritos, existem alguns que são unidimensionais, isto é em que tal como nos inquéritos às massas se pede aos peritos que coloquem os partidos numa escala esquerda-direita (ex.Castles e Mair (1984); casos em que são equacionadas duas dimensões (Inglehart e Huber, 1995; e Marks e Steenbergen, 2004); e ainda um caso de multidimensionalidade (Laver e Benoit). </p><p>Da perspectiva da Bússola Eleitoral, o recente livro de Benoit e Laver (2006) é particularmente interessante. Estes autores identificam um conjunto de políticas relevantes- a que chamam dimensões políticas - um pouco na linha do CMP, sem as previamente subordinar a macro-dimensões concretas. Posteriormente, com fazendo uma análise factorial os autores determinam quantas dimensões macro existem em cada país e quais as políticas que compõem essas dimensões. Esta metodologia é interessante na medida em que permite 1) identificar temas relevantes para a competição partidária em Portugal e 2) compreender a forma como os partidos portugueses agregam estes temas se de forma unidimensional, bidimensional ou multidimensional.</p>