<p>Na década de 90, a questão da defesa do património conheceu em Portugal uma manifestação espectacular com o debate em torno das "Gravuras Paleolíticas do Vale do Côa". O Côa é um rio afluente da margem esquerda do Douro que atravessa um vale apertado antes de desaguar neste rio. A empresa estatal Electricidade de Portugal (EDP), que há muito projectava fazer um aproveitamento hidroeléctrico no rio, decidiu então (1991) construir uma barragem no concelho de Vila Nova de Foz Côa.</p><p> Esse empreendimento era justificado pelas necessidades energéticas do país, que, sem recursos em combustíveis fósseis, tem na energia hidroeléctrica um recurso não poluente que diminui a sua dependência do exterior. A juntar a este tipo de razões que se prendem com a política de energia, havia também que defendesse a construção da barragem enquanto factor gerador de emprego e, consequentemente, como animador económico e social, numa região que é predominantemente agrícola e cuja população tem declinado e se encontra fortemente envelhecida devido à emigração.</p><p> A notícia da descoberta de importantes gravuras rupestres, que acompanhou o início da construção da barragem, desencadeou um debate vivo, tanto localmente como no plano nacional e internacional - foi alvo da atenção de jornais como o New York Times, o Sunday Times e o The International Herald Tribune (http://www.uc.pt). Aos defensores da barragem, opuseram-se os defensores das gravuras. Aos argumentos de natureza fundamentalmente económica, opuseram-se discursos que enfatizavam valores proclamados como civilizacionais. Aos actores locais juntaram-se o governo e outros actores políticos internacionais. Finalmente, houve conflito entre os peritos internacionais que foram chamados a dar parecer sobre a valia das gravuras (idem). Tratava-se de saber se essa valia justificava a interrupção da construção, então já avançada, da barragem.</p><p> Ganhou quem defendeu a preservação das gravuras, pois a barragem foi abandonada (em 1995) e a importância "patrimonial" do local acabou por ser consagrada. Em seu lugar construiu-se um Parque Arqueológico, que deveria servir como núcleo de desenvolvimento local através da transformação do património em capital turístico. Coroando este processo, o Comité do património mundial consagrou em 1998 os "Sítios Arqueológicos do Vale do Côa" como Património da Humanidade. E, em 2001, consagrou toda a área em que se situa este sítio, a região vinícola do Alto Douro, produtora de Vinho do Porto, também ela como Património da Humanidade (http://www.ippar.pt/) - note-se que a barragem ameaçava produtores vinícolas conhecidos. O espaço de Foz Côa será, por este modo, um dos lugares mais privilegiados pela preservação do património a nível mundial.</p><p> Embora objecto de estudo logo na sequência do conflito (Gonçalves et al. 2001), o processo que levou à salvaguarda das gravuras é passível de novas abordagens, que tomem nomeadamente em consideração realidades entretanto surgidas. </p><p>O projecto que ora se apresenta, por um lado, procura revisitar a conjuntura da época e, em particular, os actores então em conflito: os que defendiam a barragem e os que defendiam as gravuras, bem como as respectivas motivações (Amaro 2001). Esse conflito é visto como um sintoma do confronto entre aqueles para quem contava como critério fundamental o da utilidade (económica) imediata da barragem e aqueles para quem o fundamental era a preservação do património, no qual, aliás, também viam, embora secundariamente, um capital económico - sem que os confrontos se tenham reduzido a esta contradição (idem). Conflito, por isso, ao nível discursivo, traduzindo a presença de culturas e interesses diferentes, como o existente entre professores da escola local, que defenderam as gravuras, e comerciantes, que apostavam em rendimentos económicos imediatos, decorrentes da construção da barragem. </p><p>Por outro, este projecto procura ver o(s) conflito(s) desencadeados à luz das articulações complexas entre o global e o local. Articulações entre agentes e políticas globais - definição global do que é património, agências globais da política do património, como a UNESCO - e políticas e agentes locais - câmara municipal, aparelho escolar, agentes económicos, políticos e culturais, etc. Finalmente, constitui objecto deste projecto abordar o papel que o património - as gravuras pré-históricas, em primeiro lugar, mas também a paisagem vinhateira - veio a adquirir nos processos de produção e divulgação da identidade local.</p>