Desafiando fronteiras: redes (sociotécnicas) de cuidado entre estrangeiras presas em São Paulo

GI Seminars
Fri . 12 Apr . 13h40 to 14h50
Sala Polivalente | ICS-ULisboa
Desafiando fronteiras: redes (sociotécnicas) de cuidado entre estrangeiras presas em São Paulo
Bruna Bumachar
Instituição: 
Universidade de São Paulo

De que modo as estrangeiras a cumprir pena de prisão em São Paulo nutrem os seus vínculos familiares quando separados por dois, quatro, cinco anos ou mais pelas fronteiras prisionais e transnacionais? De que modo essas mulheres constituem tais vínculos na interseção entre o aprisionamento num país exterior e suas (im)possibilidades comunicativas? Estas questões são a porta de embarque para a apresentação que abordará a dimensão transnacional da experiência de estrangeiras presas na Penitenciária Feminina da Capital. Partindo do princípio “simétrico” de considerar as interações não apenas dos humanos entre si (“sociais”), mas também destes com os não-humanos (“técnicas”), a investigadora procura refletir acerca dos modos de se fazer prisioneiras e prisão, a partir das relações em torno e através dos filhos residentes nos países de origem. Com base no trabalho de campo multissituado (Marcus, 1995), resultante do envolvimento político da investigadora junto do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC) e outras organizações civis de direitos humanos, procura-se evidenciar o processo de constituição tanto das interfaces que compõem essas mulheres quanto daquelas que elas compõem a partir de práticas de cuidado familiar e materno. A ideia subjacente é que não nacionais se fazem estrangeiras no fazer quootidiano da prisão, isto é, envolvem-se em redes (sociotécnicas) de cuidado que as fazem emergir enquanto tais através dos ininterruptos e concomitantes movimentos de atravessamento e atualização das fronteiras corporais, prisionais e transnacionais. Um duplo fazer que nos ajuda a pensar numa antropologia que observa as pessoas e seus ambientes a partir de sua natureza metaestável, em contínuo processo de formação.

Sobre a oradora:
Bruna Bumachar é antropóloga e atua, desde 2006, no sistema prisional paulista como membro de organizações civis. Possui graduação em turismo pelo Centro Universitário de Vila Velha (2002) e graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (2007), com intercâmbio na Universidade Estadual de Campinas (2004-2005), no Brasil, e Universidade Eduardo Mondlane (2005-2006), em Moçambique. Fez doutorado direto em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (2016) no Núcleo de Estudos de Gênero PAGU, sob orientação de Adriana Gracia Piscitelli, com estágios sanduíches em University of Southern California (2012), sob supervisão de Rhacel Parreñas, e Universidade do Minho (2014), sob supervisão de Manuela Ivone da Cunha. Atualmente Bruna trabalha como assessora de projetos e pesquisa do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC, 2017-2018), uma organização de Direitos Humanos que atua no combate à desigualdade de género, ao encarceramento e na garantia de direitos. E, em parceria com a Defensoria Pública da União, realiza pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP) sob a supervisão de Vera Telles e financiamento da FAPESP. Suas áreas de interesse incluem: prisões, migrações, gênero, tecnologias, direito, transnacionalidade e parentesco.