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2016

O arquivo das colecções

Quanto ao arquivo, foi a partir de um pequeno artigo publicado no primeiro número da

revista científica do instituto do cancro (sob o sugestivo título de

Arquivo de Patologia

), que se

tornou possível aceder à lógica de «organização e o funcionamento do arquivo da 1.ª Clínica

Cirúrgica» do Hospital de Santa Marta, onde estava instalado o serviço de cancro de Francisco Gentil

(Palmeirim e Alvarez, 1925). A partir daqui foi também possível perceber que a lógica da organização

deste arquivo, com os seus modelos classificatórios, tem origem numa certa genealogia do arquivo

enquanto artefacto do moderno trabalho burocrático, o que nos leva à sua relação com um conjunto

de motivações científicas e sociais mais profundas, ancoradas na própria acção do Estado moderno e

na sua missão social.

Note-se, em primeiro lugar, que o arquivo, pelo seu modo de organização, denuncia a

agência simultaneamente massificadora e individualizadora do Estado. Entre 1915 e 1925, o trabalho

clínico do serviço de cancro do Hospital Escolar permitiu a conservação de 6732 registos de

observações clínicas, 1335 peças cirúrgicas, 2865 exames histológicos (preparados microscópicos,

esboços, notas textuais), 1193 chapas radiográficas e 950 fotografias. Todos estes materiais

constituíam o repositório científico do IPO. Estas colecções tinham como principal finalidade a

conservação da experiência clínica do instituto, servindo na prática a alguns trabalhos de

investigação, ao ensino e ao planeamento institucional (cf. Gentil, 1925).

Nestes anos, a afluência de doentes às consultas do Hospital Escolar parece ter conhecido

francos progressos, o que permitiu a observação de um número considerável de casos nos quais a

terapia radiológica foi experimentada (cf. Raposo, 1925). A aplicação em larga escala de tratamentos

radiológicos, em diferentes estados tumorais e em diferentes tipos de patologias, trouxe aos clínicos

e cientistas do IPO a possibilidade não só de conhecerem diversas manifestações cancerígenas no

corpo dos pacientes, mas igualmente de observarem os vários comportamentos dos tumores,

quando submetidos a diferentes aplicações radiológicas, variáveis no tempo e na intensidade da

exposição dos tecidos às radiações.

Era por isso fundamental encontrar meios para a conservação e acumulação desta vasta

experiência clínica. Para além dos registos, o trabalho clínico produzia todo um conjunto de objectos

que poderiam servir para documentar não só a trajectória do paciente no hospital, mas também as

trajectórias da doença no seu processo evolutivo, em direcção à cura, à morte ou, em muitos casos, à

recidiva. Convenientemente preservados, estes objectos poderiam transmitir informação relevante

sobre cada caso clínico, sobre o seu desfecho e o grau de sucesso da terapia, informação essa

importante para os médicos e cientistas do instituto, mas também para os estudantes de medicina

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