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2016
do Estado, era importante individualizar primeiro para poder depois tornar eficiente a acção social e
de controlo sobre as massas. Tratava-se, no fundo, de individualizar ameaças então entendidas como
fenómenos sociais.
A moderna burocracia hospitalar resultava assim de uma captação e inclusão massiva das
populações na sua actividade institucional, o que lhe permitia depois operar a sua acção
individualizadora com vista ao controlo informático e estatístico. Na sua missão de supervisão
sanitária e controlo da doença e dos fenómenos pandémicos, os modernos projectos hospitalares
procediam ao registo e ao arquivamento dos casos clínicos individuais, o que lhes conferia uma visão
simultaneamente epidémica e reguladora do próprio trabalho da instituição.
No serviço de cancro, a
preservação da experiência dos casos clínicos individuais
era
garantida por dois princípios de organização distintos. O primeiro era relativo à conservação dos
registos visuais e do valor científico da objectividade. O outro era a aplicação do modelo estatístico
de organização do arquivo. Contudo, ao contrário de Bertillon, os arquivistas hospitalares não
desenvolveram modelos estatísticos antropométricos em torno de uma média
normalizada
. No
contexto hospitalar, a patologia não se reportava a medidas corporais desviantes em vista de uma
distribuição normal, mas a alterações anatómicas. Nas colecções oncológicas, a anatomia normal
estava manifestamente ausente, e os registos e materiais em depósito reportavam-se apenas às
configurações patológicas dos tumores, nas suas formas macro e microscópica. Assim, o modelo
estatístico de organização do arquivo hospitalar foi elaborado em torno do principal alvo da actuação
clínica: a própria patologia. O
diagnóstico
, servindo de eixo operatório entre as várias séries de
objectos das colecções, permitiu que fosse o modelo estatístico de um outro Bertillon a servir de
princípio organizador do agrupamento dos registos, em torno da classificação das doenças, e
tomando como base a
Nomenclatura Nosológica Internacional
, ou a
Nomenclature Bertillon
, de
1909, de Jacques Bertillon (1851-1922).
Diziam os arquivistas do instituto do cancro, em 1925, que tiveram «de modificar alguns dos
grupos [de doenças] estabelecidos» para adaptar o modelo às necessidades do serviço e integrar
alguns dos novos conhecimentos científicos, entretanto adquiridos. Ainda assim, através desta
nomenclatura, era possível fazer corresponder a cada doença ou grupo de doenças um determinado
número, fácil de procurar no índice do arquivo (cf. Palmeirim e Alvarez, 1925).
Esta nomenclatura nosológica, baseada nos trabalhos estatísticos de Jacques Bertillon e
utilizada no arquivo, permitira criar, em 1909, uma referência padronizada internacional para as
causas de morte, com vista à comparação dos índices de mortalidade e da sua relação com a
incidência das doenças. O alcance biopolítico deste mecanismo estatístico, aqui direccionado para a
organização do arquivo, é evidente. Constituindo um pólo de cruzamento entre a medicina e a
estatística, este modelo de organização é, na verdade, apenas mais uma das várias circunstâncias
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