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2016

social, disciplina e regulação eficazes. A emergência, entre finais do século XIX e princípios do século

XX, de enormes arquivos burocráticos criados no decurso do trabalho das instituições médicas,

penais ou militares decorre, assim, dessa estratégia de individualização possibilitada por

instrumentos informáticos de registo e organização e por tecnologias de representação objectiva

(e.g. fotográficas) que, surgidas no seio da actividade científica e laboratorial, marcavam o trabalho

dessas instituições.

Por outro lado, a individualização não era só um fenómeno relativo à agência e à

responsabilização do sujeito individualizado na sua consciência e na sua autonomização

relativamente às formas de organização colectiva, mas era também produto da constituição do

«indivíduo» como

objecto

de conhecimento científico e de controlo, isto é, como objecto de um

biopoder que se apoiava simultaneamente na individualização — pela produção do caso individual —

e na estatística — pela produção do fenómeno colectivo, perceptível na sua escala massificada.

Ian Hacking, sobre os trabalhos de Michel Foucault em torno da emergência do biopoder

, 3

realçou precisamente a importância da estatística na formação, durante o século XIX, de certos

instrumentos de apreensão e interpretação de fenómenos colectivos, demográficos ou sociológicos

de grande amplitude, que se prestaram à formação de categorias classificatórias. De facto, se

considerarmos o contexto médico-científico português de princípios do século XX, temos perante nós

a imagem de uma medicina que, fruto das novas possibilidades terapêuticas e das competências de

planeamento e prevenção sanitária resultantes do trabalho laboratorial, se abre à inclusão das

massas na sua esfera de acção e que, por essa via, se permite produzir relatórios estatísticos

sistemáticos sobre as suas actividades de prevenção, controlo e assistência hospitalar e, sobretudo,

sobre os registos das causas de morte e do tipo de patologias que lhes estavam associadas. O caso

clínico individual, enquanto objecto de conhecimento e de acção institucional, passava, nesse

momento, a fazer parte de um fenómeno social quantificável e acessível nos registos hospitalares, de

valor inestimável para as mais variadas esferas de actividade económica, pública ou privada (Hacking,

1982).

É pela percepção destes fenómenos sociais, associados à incidência de patologias no espaço

social e às causas de morte, que podemos melhor considerar a emergência de uma missão social da

medicina em Portugal, na transição para o século XX. Desde então, a acção médica passou a orientar-

se em dois grandes domínios interdependentes: como actividade científica, na produção de novos

conhecimentos sobre as patologias, as suas causas, os seus sintomas, consequências e possibilidades

terapêuticas; e como actividade social, na assistência clínica e hospitalar, na prevenção e na

informação públicas.

3

Ver Hacking (1982). De Michel Foucault há vários textos e obras relativos à emergência das formas de

biopoder próprias da Europa moderna. Refira-se, a título de exemplo, sobre a formação de uma biopolítica

médica, o ensaio “The politics of health in the eighteenth century” (1980).

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