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2016
As radiações traziam uma nova esperança à medicina oncológica, e o projecto de Gentil,
apadrinhado por algumas relevantes figuras das elites económica, política e científica da capital,
parece ter sido eleito em detrimento de outros, alcançando um estatuto de exclusividade que lhe
garantiria o apoio estatal durante várias décadas. Com este apoio de uma rede importante de aliados
em vários sectores da sociedade, foi possível ao instituto de Gentil adquirir, a partir de 1912, a mais
dispendiosa tecnologia terapêutica existente (cf. Moreira, 2013). Desde então, os pacientes do antigo
Hospital Escolar de Santa Marta puderam usufruir das radiações emitidas por sais de rádio, tendo aí
sido realizadas algumas das primeiras aplicações radioterapêuticas (cf. Raposo, 1925; Gentil, 1933).
O rádio e os raios X constituíram dois dos principais instrumentos de legitimação científica e
política do novo instituto. Foram-no no campo da investigação, enquanto inovação tecnológica cujos
limites e princípios de actuação era necessário definir; no terreno da prevenção, como instrumento
de propaganda, atraindo as populações às consultas de cancro, e assim fornecendo aos clínicos
matéria para a investigação; ou ainda no diagnóstico e na terapia, como tecnologia clínica, capaz de
tornar visível o interior do corpo (raios X), de complementar como nenhum outro meio os progressos
já alcançados pela cirurgia, e funcionando mesmo, em algum casos, como principal agente
terapêutico.
A ideia aqui avançada é a de que foi a partir da integração das tecnologias radiológicas na
medicina oncológica que se operaram as transformações institucionais e os desenvolvimentos
científicos que resultaram numa alteração significativa da percepção médica do corpo humano e do
risco desta doença. É relevante salientar que a relação entre risco e cancro é ainda devedora do
próprio risco radiológico. Em primeiro lugar porque uma boa parte do risco radiológico foi
primeiramente observada como resultado de alterações malignas produzidas no corpo dos
denominados “mártires da ciência” que, enquanto radiologistas pioneiros, sofreram na pele o
resultado da sua exposição desprotegida às radiações (cf. Coron, 1938). Em segundo lugar, porque as
primeiras medidas de prevenção do risco radiológico terão estado associadas, precisamente, à
necessidade de proteger os radiologistas que, trabalhando sobretudo nas clínicas de cancro, sofriam
do cancro “profissional” desencadeado pelo exercício da sua actividade. No caso do IPO, esta
prevenção do risco oncológico materializou-se, de modo mais evidente, em 1933, com a construção
do Pavilhão do Rádio — resultante de um projecto da autoria do arquitecto Carlos Chambers Ramos
(1897-1969) — então apresentado como o primeiro edifício no país cujo projecto arquitectónico foi
elaborado tendo em conta os efeitos nocivos das radiações e a necessidade de mitigar os seus efeitos
no pessoal clínico (cf. Gentil, 1933; Magalhães, 1936).
sendo por isso entendidas como doenças inteiramente distintas.
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