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2016

históricas em que ambas as disciplinas (medicina e estatística) se cruzaram, respondendo às

preocupações burocráticas das instituições do Estado moderno, que procuravam prever e controlar

alguns fenómenos populacionais de larga escala.

Informação clínica na propaganda e na investigação

O uso epidemiológico do arquivo do cancro é também aqui mais um indício do seu carácter

instrumental ao serviço de uma biopolítica sanitária. Ao fim de alguns anos, através da acumulação

dos registos clínicos, era possível começar a determinar alguns padrões no comportamento sanitário

e na incidência de determinadas patologias, a uma escala populacional alargada. Apesar da acção

hospitalar do IPO, sediado em Lisboa, incidir maioritariamente sobre as populações da região centro-

sul do país e do Alentejo, a verdade é que o instituto se assumia a uma escala nacional, o que é

demonstrado pela exclusividade que detinha na prossecução de uma política científica e social

anticancerosa e pelo conjunto de dotações concedidas pelo Orçamento do Estado Português ao

longo das décadas. O Instituto Português de Oncologia constituiu-se, na verdade, como um dos mais

eloquentes testemunhos de uma política científica e assistencial da ditadura salazarista, empenhada

em erradicar o mal cancerígeno da sociedade, ou pelo menos em dar mostras de o combater

empenhadamente.

«Os rápidos progressos realizados de 1928 a 1933, a propaganda, as publicações, o novo material de

estudo adquirido, a educação do pessoal médico no estrangeiro, devem-se, em grande parte, ao interesse pela luta

anticancerosa do Ministro das Finanças, Professor Dr. Oliveira Salazar» (Instituto Português de Oncologia,

1934).

A propaganda médica desenvolvida pelo instituto desde os seus primeiros tempos, ainda sob

a tutela universitária durante a 1.ª República, pretende tornar evidente, precisamente, o carácter

social da sua missão, e demonstrar a importância de uma organização científica de combate ao

perigo oncológico. Uma das primeiras grandes iniciativas de informação pública decorreu a partir de

1924, «numa larga campanha de propaganda, entre os clínicos, das mais recentes, importantes, e

seguras indicações terapêuticas, como base indispensável duma mais ampla divulgação dos

conhecimentos úteis ao público» (Raposo, 1925: 42). Esta iniciativa tinha o objectivo de atrair os

doentes às consultas de Santa Marta, antecipando o diagnóstico tanto quanto possível, de modo a

permitir uma intervenção terapêutica eficaz.

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