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2016

A Formação da Medicina Científica e dos Estudos do Cancro em

Portugal

No campo científico, importa reconhecer uma primeira grande transformação sobre a

percepção médica do corpo e da doença, operada ainda no século XIX. A partir da integração dos

novos conhecimentos da biologia, a medicina surgia com uma nova feição laboratorial na qual a

anatomia-patológica se cruzava com a experimentação clínica e o exame

post mortem

. O principal

percussor deste desenvolvimento foi Xavier Bichat (1771-1802), que propôs cruzar o tipo de

conhecimento classificatório e sintomatológico da época (próprio da Anatomia Patológica) com o

registo clínico, abrindo caminho ao estudo dos agentes patogénicos e das suas possíveis

consequências ao nível do corpo (Foucault, 2003). Ao longo do século XIX, ao fundir-se com a

Anatomia Patológica, a própria clínica viria a adquirir uma vertente microscópica e etiológica,

passando a colaborar de perto com os laboratórios e com os conhecimentos da histofisiologia e da

microbiologia na identificação das patologias (diagnóstico) e das trajectórias esperadas de evolução

da doença (prognóstico).

Em Portugal, esta medicina de base laboratorial apenas se daria a conhecer a partir da última

década do século XIX (Celestino da Costa (I), 1946). Contudo, desde 1911, com a criação das duas

universidades em Lisboa e no Porto e, na capital, com a formação dos vários institutos da nova

Faculdade de Medicina, estavam criadas as condições institucionais para o desenvolvimento das

especialidades médicas e para a instalação efectiva da uma missão assistencial da medicina

(Celestino da Costa (II), 1999).

Neste contexto biomédico, apoiado no método anátomo-clínico, a cirurgia revelou-se a

principal arma terapêutica. No caso do cancro, os incipientes sucessos da cirurgia permitiram

afirmar, pela primeira vez, que esta era,

sob determinadas condições

, uma doença

curável

. Foi na

determinação destas condições que se sustentou, desde então, o principal princípio da acção médica

contra o cancro, que afirmava que «

o cancro é originalmente uma doença local que apenas

secundariamente se torna generalizada, ele pode ser curado se for tratado a tempo

» (Pinnel, 2002:

20, itálicos da fonte citada).

Em princípios do século XX, médicos e cirurgiões passaram a utilizar os efeitos de destruição

biológica das recém-descobertas tecnologias radiológicas, na tentativa de melhorar os resultados

terapêuticos alcançados com a cirurgia. A eficácia revelada no tratamento de certas formas de

cancro fez dos raios X e da radioactividade as principais promessas científicas nos estudos do cancro

e na medicina oncológica da época. Novas competências laboratoriais juntavam-se, assim, às já

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