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2016

instituições médicas modernas, essas práticas resultam na redefinição de categorias classificatórias

do espaço social.

Risco, biopolítica e a institucionalização do indivíduo na modernidade

A ideia de risco, tal como ela é aqui discutida, refere-se à noção desenvolvida por Ulrich Beck

em

Risk Society

(1992) e, em particular, às possibilidades abertas pela sua articulação com uma nova

teoria da história, que Beck denominou de

modernidade reflexiva

, e com as formas de

individualização próprias da modernidade industrial e pós-industrial

. 1

O uso destas noções,

sobretudo das noções de risco e individualização, decorre assim da possibilidade de pensar a

modernidade não como um período estático e derradeiro da história do ocidente industrializado,

mas antes como uma época de transformação que acaba por se transcender a si mesma no

momento em que se tornam visíveis as consequências da aplicação dos princípios institucionais e

políticos da modernidade à própria sociedade industrial que lhes deu origem. O que resulta deste

processo é a percepção de uma «re-modernização», ou de uma «modernidade reflexiva»

, 2

na qual a

mudança social operada pela industrialização e que assentou num dado «sistema de coordenadas»

sociais anteriormente estabelecido (estado-nação, divisão sexual do trabalho, importância social da

família nuclear, formação de campos de conhecimento especializado, etc.), vem agora a inscrever-se

nesse próprio sistema de coordenadas, transformando-o: «o desafio de teorizar a modernização

reflexiva é que é o sistema de coordenadas [sociais] que está a mudar» (Beck et al., 2003: 2).

O que se pretende aqui analisar é um dos terrenos dessa mudança e, através de um estudo

de caso sobre um processo histórico de desenvolvimento institucional, compreender como é que um

dos princípios da modernização reflexiva, que Beck identificou sob a noção de

individualização

, veio

a evoluir num dos contextos institucionais mais característicos da sua formação na esfera do Estado:

o das instituições médicas e hospitalares. Na proposta de análise socio-histórica aqui apresentada, a

emergência e institucionalização dos estudos do cancro em Portugal configuram um bom estudo de

caso para a observação da formação deste princípio de

individualização

por duas razões. Em primeiro

lugar pela sua importância institucional. Os estudos do cancro revelam um papel de relevo no

desenvolvimento do aparelho biomédico, científico e assistencial da capital, constituindo um

exemplo de centralismo institucional muito decisivo na condução das políticas de assistência médica

1

Para além da obra de Ulrick Beck supracitada, ver também o seu trabalho em conjunto com Anthony Giddens e

Scott Lash, intitulado

Reflexive Modernization

, onde é ensaiada uma análise sociológica aprofundada nas

suas várias dimensões políticas e culturais da ideia de modernidade reflexiva (Beck et al., 1994).

2

Para dar conta de um modo como essa mudança pode ser entendida, Beck constata que «tal como a

modernização dissolveu a estrutura da sociedade feudal no século XIX e produziu a sociedade industrial, a

modernização de hoje vem dissolver a sociedade industrial e uma nova modernidade começa a emergir»

(Beck, 1992: 10).

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