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2016
e hospitalar durante a primeira metade do século XX português (cf. Costa, 2012). Em segundo lugar,
pela importância prática das estratégias de individualização no próprio contexto biomédico. De um
ponto de vista epistemológico, a individualização do corpo e da doença não era um princípio
fundamental somente ao nível da prática clínica. Também veio a revelar-se essencial à actuação das
instituições hospitalares, tanto do ponto de vista organizacional como científico, com a criação de
registos clínicos individuais e, sobretudo, pela produção de
casos clínicos individuais
— com base em
registos e recolhas de elementos e materiais clínicos — tendo em vista a prossecução do trabalho de
investigação clínica e terapêutica (Moreira, 2013). Corroborando, enfim, a própria ideia de
reflexividade proposta por Beck, argumenta-se aqui que esse mesmo princípio da individualização,
proposto como um dos vectores da modernidade reflexiva e da «sociedade do risco», estaria já
presente no projecto biopolítico de modernização do Estado de princípios do século XX, antes de se
reflectir posteriormente noutros domínios.
Beck constata também que, no contexto histórico de modernidade reflexiva, o movimento
de individualização vem acompanhado simultaneamente de um elevado grau de
padronização
(«standardization»)
. Para Beck, «o mesmo meio [
media
] que produz uma individualização, conduz
também à padronização», o que resulta da inserção institucional do sujeito e do facto do processo de
individualização decorrer da institucionalização das situações socio-biográficas das quais o sujeito
depende.
«Os indivíduos libertos [das anteriores formas de vínculo social] tornam-se dependentes do mercado de
trabalho e, por causa disso, dependentes das formas de educação e consumo, das regulações e apoios do Estado
social, do planeamento urbanístico, (…) e das possibilidades e tendências próprias do aconselhamento e cuidado
médico, psicológico e pedagógico. Tudo isto aponta para uma estrutura de controlo das situações individuais,
institucionalmente dependente. A individualização torna-se a forma mais avançada de organização societal
dependente do mercado, da lei, da educação, e por aí adiante» (Beck, 1992: 130-131).
Este modo de caracterizar a institucionalização do indivíduo na sociedade do risco parece
ecoar os próprios mecanismos de desenvolvimento institucional verificados nas primeiras décadas do
século XX quando, na tentativa de responder a um conjunto de problemas sociais próprios da
sociedade moderna, a acção do Estado se repartia numa gama de respostas de assistência e
regulação social que tinham como base mecanismos de individualização inscritos no trabalho
burocrático das instituições, e que resultavam igualmente na massificação das respostas, das práticas
e do próprio aparelho burocrático.
Por um lado, a criação de
processos burocráticos
e de
casos individuais
no decurso do
trabalho de instituições penais, hospitalares e militares (Anderson, 2013) emergia desde logo como
uma instância individualizadora, que pretendia por esse meio instaurar mecanismos de controlo
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