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2016
Os padrastos reivindicativos têm consciência da importância da negociação parental enquanto
factor catalisador da integração do padrasto na família recomposta. Ao contrário do pai, o
padrasto sabe que não possui autonomia suficiente para agir sem o consentimento materno. A
relação padrasto-enteado surge como uma relação mediada pela figura materna, considerada
o
pivot
da relação. Contudo, como há lugar à negociação a respeito das decisões parentais e o
padrasto não deixa de manifestar a sua opinião, a mediação materna tende a perder acuidade
à medida que o tempo passa. Tomás (42 anos, 12.º ano de escolaridade, empregado bancário,
1 enteada, 5 anos de recomposição familiar) não admite que a mulher o desautorize; no
entanto, reconhece que entre mãe e filha existe uma relação especial, que faz questão de
preservar:
“(…) ela [a minha mulher] tenta tirar essa carga de cima de mim (...) o monopólio da
educação (...) mas eu disse-lhe: - «Isso não podes, não podes fazer (…)» (...) vivemos juntos e eu
estou aqui como pai, entre aspas (...) Se eu tomar a decisão, pode estar errada mas não
contraries à frente (...).”
O casal conjugal é assim um casal quase parental, ainda que o poder materno supere o do
padrasto. Neste sentido, a relação padrasto-enteado permanece uma relação mediada.
Contudo, as interacções padrasto-enteado têm por base a forte disponibilidade do padrasto,
que altera o seu dia-a-dia em função da actual situação familiar, conforme se percebe pelo
discurso de João: “
(...) eu era uma pessoa que tive, durante muito tempo, o hábito de trabalhar
de noite. Portanto, numa casa de família, (…) isso implicaria uma separação completa do ritmo
de vida familiar, de todos, não é?”; “Portanto, isso implica (...) mudanças de ritmos de vida.”
O
padrasto participa nos cuidados ao enteado, em particular nas tarefas domésticas destinadas a
toda a família, como cozinhar; desenvolve actividades em conjunto, que variam em função da
idade e do género do enteado; e embora a mãe seja eleita a principal confidente, é habitual
padrasto e enteado conversarem entre si sobre temas que interessam ao enteado.
Nos casos em que o padrasto é também pai biológico, a relação pai-filho é sentida como mais
próxima e também mais íntima do que a relação padrasto-enteado. Trata-se de uma relação
individualizada, baseada na partilha de muitos momentos a dois. Nuno considera mesmo que
há diferenças significativas entre ser pai e ser padrasto:
“(…) aquilo foi uma relação que foi
preciso conquistar (…). Todas as acções que implicam uma grande proximidade com o corpo,
são diferentes se a pessoa é nossa filha ou não é. (...) eu tenho uma proximidade grande com a
minha filha, muito grande (…) e não tenho a mesma proximidade, não tinha a mesma




