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2016

compreensivo. A paternidade sempre fez parte dos projectos de juventude destes homens, que

foram pais pela primeira vez entre os 25 e os 29 anos de idade. Os filhos foram planeados e são

encarados como a grande prioridade nas suas vidas. António (47 anos de idade, doutorado,

empresário, dois filhos anteriores e uma enteada, 12 anos de recomposição familiar) procurou

sempre conciliar a vida profissional com a vida familiar e houve momentos em que essa opção

o obrigou a deslocações semanais constantes entre Portugal e o estrangeiro:

“(…) os meus

filhos sempre estiveram primeiro do que tudo, do que tudo na minha vida.”; “Eu tenho a noção

que sou dos melhores pais que eu conheço. Primeiro, porque me dá um gosto incrível ser pai.

Segundo, porque mesmo nos momentos mais difíceis da minha vida ou mais atarefados da

minha vida, eu ponho os meus filhos à frente das outras coisas…”

Esta perspectiva em torno da paternidade leva-os a rejeitar o título de padrasto, uma vez que

se sentem e agem como os «verdadeiros» pais dos enteados. O facto de o enteado partilhar o

mesmo agregado doméstico que o filho biológico do padrasto, seja este fruto de uma

conjugalidade anterior ou da actual, contribui para tornar os lugares de pai e de padrasto

equivalentes entre si. À semelhança da relação pai-filho, a relação padrasto-enteado é uma

relação marcada pela proximidade. Trata-se de uma relação individualizada, pautada por uma

fraca mediação materna. O laço padrasto-enteado é um laço relacional construído no

quotidiano com base nas interacções e no afecto. O padrasto vê-se como alguém presente,

cuidador e educador do enteado. Trata-se de alguém disponível, que ajuda a mulher nos

cuidados aos filhos/enteados, desenvolvendo com eles algumas actividades específicas. A mãe

procura reconstituir a família tanto do ponto de vista conjugal como parental. Ela procura não

só um companheiro para si mesma, mas também um pai para o(s) filho(s), incentivando-o(s)

desde cedo a tratar o padrasto por pai.

Estes padrastos vivem no mínimo há oito meses e no máximo há doze anos com os enteados,

que tinham todos menos de dois anos de idade no momento da recomposição familiar. Todos

são pais biológicos e vivem com, pelo menos, um filho biológico fruto de uma conjugalidade

anterior ou da actual conjugalidade. Em geral, estes homens e as suas companheiras

apresentam um nível de escolaridade intermédio ou baixo, exercendo actividades profissionais

pouco qualificadas e mal remuneradas, que nalguns casos surgem acompanhadas por

contratos a termo certo e horários de trabalho irregulares e por turnos. Neste sentido, a lógica

da substituição parental parece marcar presença sobretudo em famílias de meio popular,

corroborando assim uma das conclusões de Le Gall e Martin (1991).