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2016
A Dualidade Parental do «Padrasto Estatutário»
(3 casos)
Na lógica da dualidade parental
ser pai é totalmente diferente de ser padrasto. A relação
padrasto-enteado constrói-se com base no estatuto de cada um dentro do agregado
doméstico. O padrasto estatutário vê-se a si mesmo como o principal provedor da família e,
desejavelmente, a principal figura de autoridade. Prova disso é o facto do seu dia-a-dia se
manter inalterado após a entrada em situação de recomposição familiar. Filipe (36 anos de
idade, licenciado, engenheiro, 1 enteada, 1 filho em comum, 2 anos e meio de recomposição
familiar) constitui um bom exemplo:
“A mãe trabalha ao sábado e ao sábado ela [a enteada]
nunca fica comigo. Portanto, eu nunca cheguei a tomar conta dela (…)”
. A fraca disponibilidade
do padrasto para interagir com o enteado traduz-se na ausência de participação nos cuidados
parentais
e de actividades a dois. O enteado é encarado como o filho da mulher, pelo que a
relação entre ambos resiste à individualização e é fortemente mediada. Pelo contrário,
enquanto pai, o padrasto está sempre disponível para o filho, em particular quando vivem
juntos na mesma casa, participando nos cuidados parentais (mudar a fralda, dar comida, dar
banho) na qualidade de ajudante materno. Pai e mãe desempenham aqui papéis distintos e
complementares; a mãe é vista como a principal responsável parental e o pai vê-se a si mesmo
como o principal provedor. Mas ser pai também significa ser educador, amigo e companheiro
do filho. Neste sentido, o padrasto promove actividades recreativas em conjunto e revela uma
forte abertura ao diálogo. O laço pai-filho é um laço afectivo, marcado pela proximidade e
intimidade
relacional.
A relação parental biológica é a mais significativa na vida destes padrastos, que encaram a
paternidade como um elemento central da identidade masculina. Ser pai esteve sempre
presente no projecto de vida destes homens, mesmo no decurso da juventude. Na hierarquia
dos afectos, o filho biológico ocupa um lugar de destaque. Para Luís (48 anos, 11.º ano de
escolaridade, gerente de empresa, 1 filho anterior, 1 enteada, 10 anos de recomposição
familiar) o filho está sempre em primeiro lugar: “
O meu filho é o meu filho. Porque a Isabel
[nome da mulher], ou as Isabéis deste mundo, há muitas. Agora aquele, só há é aquele.”
O
sentimento que une um pai a um filho é diferente do sentimento que une um padrasto a um
enteado, pois este, sendo filho da mulher, é encarado como uma responsabilidade dela. Luís
expressa bem esta ideia ao afirmar que a partilha do mesmo código genético torna a relação
parental biológica a «mais especial que se pode ter», dado tratar-se de «algo nosso».




