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2016

atravessa os vários contextos sociais.

Assim, num primeiro momento, interessa compreender em que medida a impossibilidade

contemporânea de substituir o pai biológico se traduz em formas diversificadas de construção

da parentalidade do padrasto no quotidiano familiar, para depois, num segundo momento,

avaliar o impacto que o contexto social de existência tem no modo como a relação padrasto-

enteado é construída. Para o efeito, seleccionaram-se quatro dimensões principais associadas

ao eixo das interacções familiares: i) a posição do padrasto face à parentalidade recomposta; ii)

a posição do padrasto face à parentalidade biológica; iii) o percurso na parentalidade do

padrasto; e iv) a dinâmica parental (padrasto-mãe) em contexto de recomposição familiar; e

uma dimensão principal associada ao segundo eixo de análise: v) o contexto socioprofissional.

O trabalho aqui apresentado tem por base a análise de 30 entrevistas em profundidade

aplicadas a padrastos co-residentes portugueses

2

. A escolha da entrevista em profundidade

prende-se com o interesse em analisar o impacto que os acontecimentos ocorridos ao longo da

vida têm na forma como os padrastos vivem a situação presente. Trata-se de uma perspectiva

metodológica particularmente adequada dado o interesse em criar uma tipologia com base nas

narrativas dos entrevistados. Contudo, dado o número limitado de entrevistas, a tipologia

apresentada deve ser encarada como um trabalho exploratório de classificação de tipos-ideais,

à maneira weberiana. A entrevista abordou, entre outros, os seguintes tópicos: i) percurso na

parentalidade (projecto procriativo; orientações normativas face à parentalidade [biológica e

recomposta]; relação com os filhos e os enteados [comunicação, afecto, educação e

autoridade]); ii) percurso na conjugalidade (conjugalidades anteriores; conjugalidade e

fecundidade; ruptura conjugal do próprio e da mulher actual; começo de uma nova vida

familiar; namoro e início da vida a dois; projectos a dois; visão do casamento e da relação com

a mulher; adaptação do casal à vida em comum; orientações normativas face ao casamento e à

vida em casal); iii) dia-a-dia familiar (dia típico de semana; dia típico de fim-de-semana;

diferenças entre a relação actual e a anterior; dia-a-dia com os filhos após divórcio/separação;

consequências do divórcio/separação; dia-a-dia com os enteados; relação entre filhos e

2

As entrevistas foram realizadas no âmbito da minha tese de doutoramento “A parentalidade em contexto

de recomposição familiar: o caso do padrasto”, defendida na Universidade de Lisboa em Julho de 2012

(Atalaia, 2012). Às 17 entrevistas iniciais, efectuadas entre Dezembro de 2004 e Dezembro de 2005 ao

abrigo do projecto “A Vida Familiar no Masculino: Novos Papéis e Novas Identidades” (Wall, Aboim e

Cunha, 2010), foram posteriormente adicionadas mais 13 entrevistas, realizadas entre Setembro de 2007 e

Fevereiro de 2008.