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2016
Conclusão
Em síntese, o que se tentou aqui demonstrar foi como uma lógica de funcionamento
científica e burocrática própria de uma instituição médica da primeira metade do século XX, criada
para fazer face a uma ameaça de sanitária, como o cancro, de contornos obscuros para a medicina da
época, baseou a sua actuação num conjunto de procedimentos (grande parte deles importados de
outras realidades institucionais) que viriam a ser uma marca das formas de compreensão do risco e
da doença num período tardio da modernidade.
A partir (i) de instrumentos estatísticos, (ii) da conservação da experiência contida na
informação sobre o caso clínico individual e (iii) da conservação do valor científico da objectividade, o
Instituto Português de Oncologia veio a afirmar na sua acção uma espécie de biopolítica em torno do
risco oncológico, distribuindo-o individual e sectorialmente na sociedade através de mecanismos
essencialmente informáticos, isto é, a partir de instrumentos de gestão e disseminação de
informação—fosse pela criação do arquivo das colecções clínicas e pela produção de informação
estatística e epidemiológica, fosse através das campanhas de informação e da propaganda
institucional.
Em primeiro lugar, a sua acção clínica assentava na construção do
caso clínico individual
,
sobre o qual decorria toda a sucessão de procedimentos médicos, científicos e burocráticos do
instituto. Agindo através de técnicas individualizadoras das patologias, o instituto do cancro
pretendia, a par de outras instituições do Estado, instaurar mecanismos de controlo, disciplina e
regulação sanitária eficazes. Como vimos, o próprio arquivo funcionava a partir deste registo
baseado no caso clínico individual. Consequentemente, a individualização surgia a par de um
movimento de massificação resultante da acção institucional. O indivíduo, constituindo-se como
objecto do conhecimento médico e científico, era assim objecto de um biopoder que se apoiava
nessa individualização para atingir a compreensão de fenómenos de escala populacional.
Através de métodos estatísticos, e pela produção de factos colectivos, a acção médica
orientava-se da patologia à epidemiologia, transitando das manifestações desviantes ao nível do
corpo individual para uma percepção de um desvio patológico à escala social, definindo campos de
intervenção prioritários. O cancro emergia como uma ameaça latente, uma espécie de risco oculto
que obrigava à educação social e à supervisão contínua por parte de sujeitos e instituições, no
sentido de se detectar o mínimo sinal indicador de uma alteração anatómica, pois apenas a detecção
precoce podia conduzir à cura.
Por fim, a conservação do valor da objectividade mecânica na representação dos casos
patológicos, permitida pela organização do arquivo, vem evidenciar a importância das técnicas
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