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2016

teórica interaccionista com base na negociação de papéis no interior da família (Finch, 1989;

Finch e Manson, 1993), que valoriza a agência do padrasto.

Uma abordagem deste tipo permite não só lançar um olhar mais profundo sobre o elemento

central da parentalidade recomposta – a díade padrasto-enteado – mas também perceber a

forma como as parentalidades biológica e recomposta se articulam entre si num contexto de

pluralidade parental (Théry, 1995). Se, por um lado, a posição do padrasto deriva do lugar que

lhe é atribuído à partida na estrutura familiar (o padrasto enquanto produto), por outro, trata-

se de um lugar adquirido

(Edwards et al., 2002) ao longo do tempo, por via de um processo de

construção relacional dos laços familiares (Singly, 1993) (o padrasto enquanto agente). Neste

sentido, a parentalidade recomposta é produzida tanto pela forma como o padrasto se

posiciona face ao seu lugar na família recomposta (relação padrasto-enteado) como face à

parentalidade biológica, quando tem filhos. E, em simultâneo, ela é um produto da dinâmica

familiar resultante da interacção entre padrasto e mãe biológica, entre os pais biológicos, e

entre enteado e pai biológico.

Interessa assim compreender como é que numa época marcada pela impossibilidade de ser

reconhecido como o «verdadeiro» pai do enteado, o padrasto constrói o seu lugar na família

recomposta. Qual é a natureza do laço estabelecido entre padrasto e enteado? Como é que o

padrasto define o seu lugar na família? Ser pai biológico influencia a percepção que o padrasto

tem de si mesmo? Que factores explicam os diferentes modos de ser padrasto?

Metodologia e Amostra

Para responder a estas questões definiram-se dois grandes eixos de observação. O primeiro

refere-se às interacções familiares e remete para o funcionamento interno da parentalidade no

âmbito da constelação familiar recomposta

(Théry, 1987) envolvendo os diversos membros

familiares: padrasto, enteado, mãe, pai biológico, filhos anteriores do padrasto, filhos comuns,

etc. O segundo eixo de observação consiste no contexto social de existência e remete para o

facto de os recursos mobilizados nas interacções familiares dependerem do lugar (de classe, de

género, etc.) ocupado pelo padrasto na estrutura social. Importa aferir em que medida as

actuais lógicas de construção da parentalidade do padrasto, por princípio mais negociadas e

menos reguladas sob o ponto de vista social, permanecem associadas a indivíduos oriundos de

meios sociais favorecidos ou se, pelo contrário, está-se perante uma mudança transversal que