ICS
W
O
R
K
I
N
G
P
A
P
E
R
S
2015
de novos desafios decorrentes de agendas europeias e globais tanto pode ter um efeito
federador como centrifugador, alimentando, por certo, novas tensões disciplinares e
institucionais.
Até 1986, data da entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, as mutações
que foram dando origem à afirmação do ordenamento do território como objeto de política
pública e como comunidade profissional tiveram como referência exemplos de políticas de
outros países, resultaram de decisões políticas geralmente informadas por académicos
inovadores, e basearam-se em instituições públicas que funcionaram como verdadeiras
escolas de formação de profissionais especializados. A partir daquela data, ainda que de
forma não imediata, o efeito-Europa e a globalização do conhecimento tornam-se cada vez
mais decisivos, concorrendo para uma integração crescente ao nível discursivo,
programático e legislativo, mas com tradução muito desigual, em intensidade e no tempo,
em termos de práticas institucionais e profissionais: as palavras e o papel avançam bem mais
depressa do que os processos de decisão e as ações, revelando as dificuldades de
transformar uma cultura de elite numa cultura coletiva. A camada “Europa e globalização do
conhecimento” sobrepõe-se, assim, às diversas camadas anteriores, nuns casos
substituindo-as, noutros metamorfoseando-as, noutras ainda deixando-as significativamente
intocadas. É esta combinação complexa que a crise vem encontrar na comunidade do
ordenamento do território e nas instituições da administração com competências neste
domínio, mas também nos decisores políticos, nos agentes económicos e na opinião pública.
Cenários sobre o próximo futuro
Encurralada entre um passado difuso, um presente complexo e um futuro imprevisível num
país fortemente afetado pela crise e, em parte por isso, mais consciente dos limites e das
contradições do modelo de crescimento prevalecente nas últimas décadas, a desorganizada,
frágil e relativamente reduzida comunidade do ordenamento do território confronta-se hoje
com o conjunto de tensões anteriormente referido. Uma nova mutação parece inevitável. Os
estímulos e as referências, como sempre sucedeu, serão basicamente externos. Resta saber
quais serão, embora pareça difícil imaginar que Portugal fuja ao discurso das agendas
mainstream
europeia e global. A verdadeira imprevisibilidade reside na relevância relativa
36




