ICS Policy Brief 2019 - Observatório Permanente da Juventude

9 • Na sequência da crise de 2008-2014 e do significativo aumento da pobreza e da exclusão social têm-se mul- tiplicado os estudos sobre a insegurança e pobreza alimentar nos países do Hemisfério Norte. No entan- to, a dimensão espacial/geográfica da pobreza ali- mentar continua a ser um aspeto pouco explorado, tanto no contexto europeu como em Portugal. • A ausência de estudos detalhados sobre a realidade da pobreza alimentar em espaço rural é contraditó- ria. De facto, sabe-se que as taxas de pobreza são mais elevadas nas áreas periféricas, devido a uma comple- xa interação de fatores, que vão desde a demografia, ao afastamento em relação aos centros económicos, à falta de empregos, às baixas qualificações ou a défi- ces infraestruturais. • No discurso público em Portugal é frequente enfa- tizar-se o papel das redes informais (familiares e comunitárias), bem como o autoconsumo e a proxi- midade aos locais de produção alimentar, enquanto fatores que mitigam a pobreza e as limitações no acesso à alimentação em espaço rural. No entanto, estes são pressupostos que carecem de confirmação. • A questão dos transportes e das acessibilidades é determinante tanto em áreas rurais como urbanas: são essenciais para deslocações quotidianas de/para o trabalho, para aceder a mercados, supermercados e outros espaços comerciais, como ainda para chegar ao contacto com instituições públicas e privadas. • Apesar de integrada na Área Metropolitana de Lisboa, a rede de transportes da área rural estudada é defici- tária. Os serviços de transporte são pouco frequentes nas localidades mais longínquas, o preço dos bilhetes é elevado e o desenho da rede privilegia movimentos do centro para a periferia, dificultando outro tipo de deslocações. Por esse motivo, ter transporte próprio é importante para algumas famílias que habitam em espaço rural, sobretudo no acesso ao emprego, o que é um encargo no orçamento familiar substancial. Já as áreas urbanas dispõem de melhor oferta de trans- porte público e muitas deslocações podem ser feitas a pé. • A questão dos transportes também é importante no acesso às instituições públicas (Câmara Municipal, Segurança Social, entre outras) e às IPSS que prestam apoio alimentar de emergência (Banco Alimentar, Cruz Vermelha, Santa Casa da Misericórdia, entre outras). Geralmente, estes serviços concentram-se na sede de município ou de freguesia, o que implica des- locações onerosas e nem sempre lineares para aque- les que residem em áreas rurais. • Existem diferenças substanciais entre as áreas urba- nas/suburbanas e a área rural em termos da densi- dade da oferta da distribuição alimentar (mercados, supermercados, mercearias, talhos, peixarias, etc.). Na área rural, as lojas são poucas e pequenas. As famílias residentes em espaço rural salientaram que a variedade e a qualidade dos produtos disponíveis são menores, sendo os preços geralmente mais ele- vados em relação às superfícies comerciais de média ou grande dimensão que se situam nas imediações de vilas e cidades. O acesso a lojas, mercados e super- mercados é mais fácil para as famílias residentes nas áreas urbanas/suburbanas. • Muitas famílias residentes na área rural e algumas famílias residentes em espaço urbano têm pequenas hortas ou acesso facilitado a alimentos de produção local, por via de familiares, vizinhos ou amigos. Mas viver em espaço rural, por si só, não garante o acesso a produtos de origem local (tais como legumes, fru- tas, aves, ovos, leite, carne ou peixe). Há um influxo de novos residentes nas áreas rurais que, empurrados pela crise dos preços na habitação nas áreas urbanas, procuram alugueres de casa mais baratos. Outros novos residentes vão em busca do idílio rural: um ambiente pacato e um estilo de vida mais relaxado. Mas as famílias que se estabeleceram recentemente em áreas rurais não têm necessariamente acesso à terra, conhecimentos de agricultura ou acesso facili- tado a uma rede informal de apoio. • As zonas rurais têm assistido ao desaparecimento de feiras e mercados, espaços que antes garantiam um acesso regular aos alimentos regionais/locais, sendo cada vez mais um paradoxo as grandes zonas de pro- dução alimentar (muitas em espaço rural circundan- te às cidades) e orientadas para o mercado de expor- tação estarem parcamente servidas de produção local. Ou seja, paradoxalmente quem está no campo pode encontrar maior dificuldade de acesso aos ali- mentos do que quem vive na cidade. • Em geral, as possibilidades dos jovens em situação de pobreza para socializar com pares e manter ami- zades fora de casa é limitada, desde logo pela carên- cia de dinheiro. Mas há outros fatores que influen- ciam a participação social dos jovens em torno da TEMA 2 - POBREZA ALIMENTAR: ALGUNS CONTRASTES ENTRE MEIOS URBANOS E RURAIS

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