ICS Policy Brief 2019 - Observatório Permanente da Juventude
5 14,1% em agregados com rendimentos entre €485 e €970 por mês e nos 38,5% em agregados com rendi- mentos abaixo de €485 por mês. • Investigação recente tem procurado ultrapassar as limitações do conceito estatístico de pobreza, tra- balhando a noção de “rendimento adequado” para assegurar o direito a um padrão de vida digno numa determinada sociedade. Esse rendimento traduz-se em orçamentos de referência para diferentes morfo- logias familiares. A par da habitação, a alimentação constitui a despesa mais significativa nos orçamen- tos familiares de referência. Os valores de referência do rendimento adequado identificados pelo estudo “Rendimento Adequado em Portugal” estão clara- mente acima dos valores do limiar de pobreza. Isto indica que os limiares da pobreza são subestimados, em particular no caso da pobreza infantil, uma vez que as necessidades alimentares são maiores. Porém, a alimentação oferece maior elasticidade no cômpu- to geral das despesas. • Neste estudo de cariz qualitativo examinámos: Como é afetada a alimentação quando há fortes cons- trangimentos ao orçamento familiar? Como é que os adultos e as crianças lidam com a pobreza alimen- tar? Como variam as experiências e as práticas entre famílias e no seio das mesmas? • O desemprego e os baixos salários são os fatores que mais contribuem para a situação de pobreza alimen- tar das famílias. Em muitos casos, devido aos baixos salários, estar a trabalhar não evita dificuldades eco- nómicas severas, mesmo em famílias de casal com os dois adultos empregados. Apesar de um terço das famílias entrevistadas (14/45) se encontrar acima do limiar estatístico da pobreza, os rendimentos dispo- níveis encontram-se claramente abaixo do valor esti- mado como adequado para uma vida condigna, de acordo com a sua estrutura familiar. Os rendimentos das restantes famílias (31/45) colocam-nas na situação de famílias em risco de pobreza monetária, estando as famílias monoparentais numa posição particular- mente vulnerável (13/19 em risco de pobreza). Outras circunstâncias, tais como a precariedade laboral, a existência de créditos ou dívidas dificultam a ges- tão dos orçamentos familiares, mesmo quando os salários são mais elevados. • A maioria das famílias entrevistadas apresenta cons- trangimentos no consumo alimentar. Os gastos com a alimentação representam uma fatia considerável das despesas familiares. Sendo a alimentação enca- rada genericamente como prioritária, é também uma parcela mais moldável, face a despesas fixas como a habitação, luz ou água. A maioria das famí- lias segue um leque alargado de estratégias de adap- tação, por exemplo, o recurso a produtos de marca branca e a lojas mais baratas, estabelecer um limite mensal/semanal para as despesas com alimentação, a busca constante de promoções e a aquisição de um lote limitado de alimentos, em prejuízo dos alimen- tos de melhor qualidade. A sociabilidade em torno da alimentação também é fortemente circunscrita ou mesmo inexistente para um número significativo de famílias, que evita aceitar convites para comer fora ou em casa de familiares e amigos. • Em geral, as famílias entrevistadas declaram dificul- dades em fazer uma alimentação variada. As proteí- nas consumidas com mais frequência são a carne de porco e de frango, estando o peixe fresco prati- camente ausente das refeições devido ao preço. Já as O ESTUDO QUALITATIVO: PRINCIPAIS QUESTÕES E RESULTADOS Baixos salários, emprego precário e desemprego são fatores que contribuem para a pobreza alimentar das famílias. A alimentação é uma despesa prioritária mas também elástica. Frequentemente a quantidade e sobretudo a qualidade da alimentação estão comprometidas em famílias em situação de pobreza.
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