ICS Policy Brief 2020 - Observatório das Famílias e das Políticas de Famíla
9 Outro risco sanitário, frequentemente subvalorizado, está relacionado com a saúde mental. O inquérito “Opinião Social” do Barómetro Covid-19 21 , desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública, revela um aumento da ansiedade e sintomas depressivos, em especial para quem estava em teletrabalho e para as mulheres 22 . Estes dados de reduções de frequência dos serviços de saú- de, de excesso de mortalidade e de deflagração ou agravamento de problemas de saúde mental apontam para um custo social importante da pandemia em termos de saúde pública. 5.4. Impactos na Educação Com o encerramento das escolas e a passagem para o ensino não presencial, dá-se uma degradação evidente da ligação das crianças e dos jovens ao sistema de ensino. Às escolas e aos docentes foi pedido um enorme esforço de adaptação, que em muitos casos coincidiu, para esses profissio- nais, com a sua conciliação doméstica e de apoio escolar aos pró- prios filhos. Não obstante os benefícios desse esforço, os resul- tados dependeram muito das condições sociais dos alunos e das suas famílias. Essas condições eram tanto físicas, nomeadamen- te a disponibilidade de equipamentos informáticos, de ligações à internet e de condições de habitabilidade adequadas, como na forma de apoio familiar ao processo educativo. 21 Barómetro “Opinião Social” Covid-19 disponível em https://barometro-covid-19.ensp.unl.pt/opiniao-social/. 22 Notícia disponível em: https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/mulheres-e-pessoas-em-teletrabalho-os-mais-ansiosos-e-tristes-com-a- pandemia-12087441.html. 23 Reimers, F. M., & Schleicher, A. (2020). A framework to guide an education response to the COVID-19 Pandemic of 2020. OECD. Retrieved April, 14, 2020. 24 Cerqueira, C. (2020). Desigualdades de género em tempos de pandemia. Communitas Think Tank – Ideias. Online: http://www.communitas . pt/ideia/desigualdades-de-genero-em-tempos-de-pandemia 25 Farinha Rodrigues, P. (2020). Blog post publicado em https://areiadosdias.blogspot.com/2020/06/pandemia-desigualdade-e-pobreza.html?s- pref=fb&m=1&fbclid=IwAR1ajE0bGJv7xhh7CBcmaq2lg8M3EKYV8hPxYddU55W9HdaYMLWTTFPeo. Para grande parte das famílias com menos recursos socioe- conómicos, esta crise traduziu-se num efetivo enfraqueci- mento da ligação das crianças com o sistema de ensino, o que põe em causa a garantia de uma educação inclusiva e de qua- lidade para todos, potenciando mecanismos de reprodução geracional das desigualdades sociais e neutralizando os meca- nismos de “elevador social” que a escola tradicionalmente proporciona 23 . 5.5. Impactos na Igualdade de Género O enviesamento de género na pandemia passou, desde logo, pelo trabalho não pago: as mulheres, tendencialmente mais sujeitas a sofrer uma sobrecarga com o trabalho doméstico e com os cuidados a familiares dependentes (crianças, idosos e outros dependentes), viram agravada essa sobrecarga com o encerramento dos serviços que prestam cuidados a estas popu- lações. No caso das crianças, o suporte ao ensino à distância também recaiu sobretudo sobre as mulheres, o que é particular- mente pernicioso em situações de teletrabalho 24 . Para além destes riscos associados ao trabalho não pago, exis- tem riscos relativos à segmentação do mercado de trabalho que colocaram mais mulheres do que homens na linha da frente da exposição ao vírus, nomeadamente por via da elevada femini- zação das atividades de prestação de cuidados a terceiros. Em 2020, 90,3% dos trabalhadores em atividades de ação social e 78,7% em atividades de saúde humana eram mulheres. 6. DESIGUALDADE NOS IMPACTOS A situação socioeconómica do país pré pandemia consubs- tanciava-se em algumas fragilidades a nível do sistema prote- ção, da organização do mercado de trabalho e mesmo da estru- tura sociodemográfica, que faziam adivinhar um acentuar das desigualdades sociais em situação de crise. No que diz respeito às fragilidades no mercado de trabalho, destacamos a precarie- dade laboral, a economia informal e a assimetria salarial, situa- ções endémicas e historicamente promotoras de fragilidades, e que na pandemia adensaram fortemente as desigualdades na economia das famílias. Por um lado, os trabalhadores mais qua- lificados e com vínculos laborais estáveis mantiveram os seus rendimentos de uma forma muito próxima à da pré pandemia (e mesmo aumentando os níveis de poupança); por outro, a ofer- ta do trabalho pouco qualificado e casual reduziu, pelo encer- ramento das empresas e serviços, agravando a situação para as famílias com empregos precários 25 . A redução de frequência dos serviços de saúde, o excesso de mortalidade e o agravamento de problemas de saúde mental apontam para um custo social importante da pandemia. O ensino não presencial potencia mecanismos de reprodução geracional das desigualdades sociais e pode neutralizar os mecanismos de “elevador social” que a escola tradicionalmente proporciona.
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