ICS Policy Brief 2020 - Observatório das Famílias e das Políticas de Famíla

8 5.3. Impactos na Saúde A reorganização dos serviços de saúde, assente na concen- tração de recursos no combate à pandemia, exigiu alterações substantivas na organização das unidades de saúde e, emmuitos casos, cancelamento de consultas, exames médicos, análises clí- nicas e cirurgias não urgentes. Também os centros de saúde, uni- dades de primeira linha de prevenção e diagnóstico, deixaram de fazer consultas presenciais e reduziram o número de serviços disponíveis. Esta situação, aliada ao receio da população em 20 Nogueira, P. J., de Araújo Nobre, M., Nicola, P. J., Furtado, C., & Carneiro, A. V. (2020). Excess mortality estimation during the COVID-19 pandemic: preliminary data from Portugal. Acta Médica Portuguesa, 33(13). se deslocar a unidades de saúde, mesmo com condições médicas graves, fez com que uma percentagem significativa de doentes deixasse de ter acesso a cuidados de saúde. Uma publicação da Ordem dos médicos portugueses afirma- va 20 que de 1 de março a 22 de abril teria havido um excesso de mortalidade em doenças não relacionadas com COVID-19 e que este aumento era principalmente visível na população aci- ma dos 65 anos. Caixa inquérito “Impactos Sociais da Pandemia” - ICS/ISCTE Em março de 2020 foi realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pelo ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, um inquérito online sobre a Pandemia Covid-19 e os seus impactos em diversas esferas da vida das pessoas que vivem em Portugal. O inquérito reuniu cerca de 11.500 inquiridos, numa amostra não representativa da população residente, e pretendeu perceber as relações entre determinados atributos dos inquiridos (idade, situação conjugal, situação parental, situação económica) e as suas atitudes e comportamentos no contexto de pandemia Este estudo revelou que os inquiridos em geral expressavam “muita” ou “alguma” confiança nas respostas dadas à pandemia pelas diferentes autoridades, mas os que já viviam com maiores dificuldades económicas antes da pandemia tendiam a revelar menor confiança. Eram também estes que menos confiança tinham nas fontes tradicionais de informação, os que indicavam maiores dificuldades em lidar com as restrições trazidas pelo estado de emergência e os que mais afirmavam já terem sido afetados financeiramente pela crise. Eram também essas as dificuldades expressas nas questões de resposta livre por parte da população em idade ativa: problemas económicos, situações de desemprego para os trabalhadores por conta de outrem, quebras parciais ou totais de atividade para os trabalhadores independentes e encerramento de atividade de pequenos empresários. Os mais jovens (16-24 anos), assim como os inquiridos entre os 35 e os 44 anos, com agregados familiares mais numerosos e filhos menores, eram os que mais diziam sentir de forma acentuada os efeitos da pandemia. Os mais jovens assinalam, em particular, o isolamento e a quebra nas relações sociais e revelavammenos confiança na resposta das autoridades, nas fontes de informação e na adesão da população ao cumprimento das regras de controlo da epidemia. Os muito jovens revelam ainda preocupação com o acesso ao ensino superior, a conclusão dos cursos e a entrada no mercado de trabalho. O isolamento e a redução dos contactos sociais eram também uma das maiores queixas dos inquiridos mais velhos, divorciados ou viúvos. Eram estes os mais pessimistas em relação à duração da pandemia, os que mais receios tinham de serem infetados, e que manifestavam mais preocupação com a própria saúde e com as dos seus entes queridos, assim como com a resposta do Serviço Nacional de Saúde. Os inquiridos entre os 35 e os 44 revelavam maior preocupação com a conciliação da vida familiar (tarefas domésticas e cuidados aos filhos) com o apoio à sua educação em espaço doméstico e com a esfera profissional. Também a qualidade da educação dos filhos, nomeadamente com o seu possível comprometimento em contexto de ensino à distância, e, no caso dos mais velhos, o acesso ao ensino superior, eram preocupações destes inquiridos. A preocupação com a saúde mental e com a incerteza causada pela situação revelaram-se transversais a todos os grupos etários. Magalhães, P. C., Gouveia, R., Costa-Lopes, R., & Silva, P. A. E. (2020). O Impacto Social da Pandemia. Estudo ICS/ISCTE Covid-19. Disponível em https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/42911/1/RelatorioInqueritoICSISCTE.pdf

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