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10 A análise comparativa dos dados provenientes do EVS e do WVS permitiu conhecer a evolução das atitu- des sociais face à homossexualidade no Brasil e em Portugal no virar do século XXI. Constatámos que, em ambos os países, esta evolução foi positiva no sentido de uma crescente aceitação pública da homossexualidade, bem como uma diminuição na distância social percebida a indiví- duos homossexuais. No entanto, o Brasil apresentou sempre níveis médios de aceitação social da homossexualidade ligei- ramente superiores aos de Portugal, bem como uma menor percentagem de indivíduos que manifestavam desconforto com a presença de pessoas homossexuais no seu ambien- te próximo. Apesar da tendência positiva entre o início dos anos 90 e o final dos anos 2000, em termos comparativos com outros países da Europa, Portugal e o Brasil situam-se abaixo do nível médio de aceitação social da homossexualida- de. Importa notar que, face às recentes mudanças legislativas nesta matéria, por um lado, e face às mudanças político-i- deológicas, por outro na sociedade brasileira, urge avaliar o impacto destas linhas de força de sinal contrário na evolu- ção de tais tendências na esfera pública. O Brasil está entre os países em que ocorre o maior número de homicídios de LGBTQIA+. De acordo com Relatório do Grupo Gay da Bahia, estima-se um aumento de 30% nos homicídios em 2017 em relação ao ano anterior. Também o Atlas da Violência 2019 do IPEA, com base no Disque 100, contabilizou 193 homicídios em 2017 contra pessoas LGBTQIA+, o que evidencia que o problema tem se agravado nos últimos anos, apesar da invisi- bilidade destes acontecimentos sob o ponto de vista da pro- dução oficial de dados e estatísticas no Brasil. Em Portugal, não há dados oficiais sobre os crimes praticados contra as pessoas LGBTQIA+. No entanto, segundo os dados da ILGA Portugal, referentes a 2018, o Observatório da Discriminação contra as Pessoas LGBTI+ registou 59 denúncias de crimes de ódio contra pessoas LGBTI e 74 casos de incidentes dis- criminatórios, tais como de discursos de ódio. Se por um lado, Portugal e Brasil se assemelham em ter- mos do grau de aceitação social da homossexualidade e de manifestação de distância social a indivíduos homossexuais; por outro lado, a trajetória temporal e a diferenciação social segundo factores sociodemográficos e culturais revelam algu- mas especificidades. Em Portugal, testemunhou-se uma evolução positiva muito expressiva entre o início e o final dos anos 90, seguindo-se um salto mais subtil entre o final dos anos 90 e o final dos anos 2000. Já no Brasil, essa trajetória foi sempre ascendente e mais linear ao longo dos três momentos considerados. Contu- do, dados mais recentes da população brasileira revelam que, apesar de ligeiramente superior, o nível de aceitação social da homossexualidade em 2014 estagnou. Outro aspeto importante a destacar é o papel estruturante de factores sociais e culturais nas atitudes face à homosse- xualidade nos dois países, nomeadamente, o impacto dife- renciador de variáveis como o sexo, a idade, a escolaridade, Conclusões Relativamente à perceção de distância social a indivíduos homossexuais em 2014, verificamos que apenas 11% da amos- tra rejeita a presença de homossexuais como vizinhos. Tam- bém aqui assistimos a uma diferença de género, com apenas 7% das mulheres a mencionar não querer ter “homossexuais” como vizinhos face a uma percentagem duas vezes maior entre os homens. Figura 20. Percentagem de inquiridos que mencionaram não querer ter homossexuais como vizinhos, total e por sexo – Brasil, 2014 Figura 20 84,5% 92,9% 88,9% 15,5% 7,1% 11,1% 0,0% 20,0% 40,0% 60,0% 80,0% 100,0% Homem Mulher Total não mencionou mencionou Figura 21. Percentagem de inquiridos que mencionaram não querer ter homossexuais como vizinhos e nível médio de aceitação social da homossexualidade por escalão etário - Brasil, 2014 10,7% 8,3% 14,1% 15,8% 5,05 4,89 4,04 3,51 0 1 2 3 4 5 6 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 40,0% 50,0% 15-29 30-49 50-64 65+ Em relação à aceitação social, verificamos que os inquiridos pertencentes aos escalões etários mais jovens são aqueles que apresentam um nível de aceitação social da homossexualidade mais elevado (M+H15-29=5.05 e M+H30-49=4.89), contrastando com os inquiridos pertences às gerações mais velhas (M+H50- 64=4.04 e M+H+65=3.51).Relativamente à perceção de distância social, é nos escalões etários mais velhos que encontramos a maior percentagem de inquiridos que mencionam não querer ter indivíduos homossexuais como vizinhos, representando 14% e 16% no grupo daqueles com idades compreendidas entre 50 aos 64 e com mais de 65 anos de idade.
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