OFAP-HOMO_Digital
11 a religiosidade e das atitudes face a diferentes modelos familiares. Longe de posições consensuais, as populações dividem-se segundo estes factores. Em geral, e de igual modo nos dois países, as mulheres, os indivíduos perten- centes a gerações mais jovens, com níveis de escolaridade mais elevados e os que não se consideram pessoas religio- sas são aqueles que apresentam atitudes mais positivas face à homossexualidade. Por outras palavras, destacam-se por reportar níveis mais elevados de aceitação social da homos- sexualidade e por revelar uma menor perceção da distância social entre os próprios e indivíduos homossexuais. Já os segmentos sociais mais resistentes à aceitação social da homossexualidade e, portanto, detentores de atitudes menos favoráveis, correspondem aos indivíduos do sexo masculino, pertencentes a gerações mais velhas, com menor nível de escolaridade e que se consideram pessoas religiosas. Em relação à influência das atitudes face a diferentes modelos culturais de família, nomeadamente, em relação ao modelo monoparental feminino, o ideal de modelo bi-parental (como o mais adequado ao bem estar das crianças) e a desinstitu- cionalização da conjugalidade, verificámos que, em ambos os países, os indivíduos com atitudes mais tradicionais e institucionalizadas da família são aqueles que se manifestam mais resistentes à aceitação social da homossexualidade e que se sentem mais distantes deste grupo social. Neste sen- tido, constatamos que as atitudes face à homossexualidade são construídas e ancoradas num quadro de atitudes mais gerais face aos modelos familiares e às relações de género. É também no âmbito da diferenciação social da aceitação social da homossexualidade (e não tanto na perceção de dis- tância social), em função destes factores sociodemográficos, que residem algumas diferenças entre Portugal e Brasil. Com efeito, Portugal apresenta as maiores clivagens em função da idade e da religiosidade, no sentido em que os indivíduos com diferentes posições sociais contrastam vincadamente nos seus níveis de aceitação social da homossexualidade. Já no Brasil, essa clivagem é sobretudo expressa na diver- gência entre homens e mulheres no nível de aceitação da homossexualidade. Estes resultados sugerem que o peso dos vários factores sociodemográficos na formação das ati- tudes sociais face à homossexualidade é diferente nos dois países. Em relação ao quadro atual de atitudes face à homosse- xualidade e ao reconhecimento legal e social do acesso à conjugalidade (casamento civil) e à parentalidade (adopção), fizemos um zoom in na paisagem atitudinal da sociedade portuguesa e da sociedade brasileira em 2014 (os dados representativos mais recentes). Em Portugal incidimos nas atitudes face às competências parentais de casais homossexuais masculinos e femininos, bem como na opinião dos indivíduos face à legalização do casamento civil e da adoção por casais do mesmo sexo. Longe de consensual, verificámos que estes tópicos dividem a população, mesmo após o reconhecimento legal do casa- mento civil entre pessoas do mesmo sexo em 2010 e outras medidas legais e políticas promotoras de uma maior igual- dade e diversidade sexual, familiar e de género. São, nova- mente, as mulheres e os indivíduos pertencentes às gera- ções mais jovens, aqueles que se revelam mais igualitários e abertos à diversidade, manifestando-se favoráveis quer ao reconhecimento das competências parentais de casais homossexuais (masculinos e femininos), quer ao acesso legal ao casamento civil e à adoção por parte de casais do mesmo sexo. No Brasil, apesar de não conseguirmos captar estas dimensões atitudinais, tivemos acesso aos dados provenien- tes do WVS de 2014, pelo que analisámos a evolução dos indicadores de aceitação social da homossexualidade e de distância social a indivíduos homossexuais mais recentes. Os dados de 2014 revelam que apesar de a evolução ser positi- va, o aumento do nível de aceitação social da homossexua- lidade não ocorreu de forma tão marcante como nos perío- dos anteriores (início dos 90, final dos 90, final dos 2000). Também aqui continua a haver um fosso entre gerações e entre homens e mulheres, com as mulheres e os jovens a manifestarem atitudes mais favoráveis à homossexualidade. Como nota final, importa dizer que este research brief ofe- rece dados sistemáticos relevantes para monitorizar, pensar e desenhar políticas públicas e medidas legislativas que pro- movam adequadamente uma maior igualdade e que sejam catalisadoras de atitudes sociais mais inclusivas face à diver- sidade sexual, familiar e de género. Para além do pano de fundo social, histórico e político de cada um destes contex- tos nacionais, um aspeto comum que sobressai desta aná- lise comparativa é o papel preponderante de fatores estru- turais e culturais na construção das atitudes sociais face à homossexualidade na sociedade portuguesa e na sociedade brasileira. Se atendermos que são os mais jovens e os mais escolarizados os mais recetivos aos valores da inclusão e do respeito pela diversidade, não podemos deixar de sublinhar a importância do acesso à escolarização de nível superior, que não pode deixar para trás os homens. A educação con- sistente das novas gerações para estes valores é, sem dúvi- da, um dos caminhos a prosseguir no Brasil e em Portugal. Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT — Fundação para a Ciência e aTecnologia, I.P., no âmbito da bolsa pós-doutoramento individual da FCT: SFRH/BPD/116958/2016 e da CAPES/Brasil – Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, no âmbito da bolsa de pós-doutoramento do Programa Professor Visitante no Exterior – Júnior 2017/2018 (Processo nº88881.170370/2018-01)
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