ICS Policy Brief 2021 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade

9 • Confiança dos cidadãos em instituições e fornecedores A liberalização do mercado de energia e algumas mudanças no setor, como a introdução dos contadores digi- tais, fizeram aumentar a complexidade do fornecimento de energia, devido ao aumento do número de fornecedores, modalidades de contrato e distinção entre as redes de dis- tribuição e os fornecedores de energia, o que tem origina- do incerteza e insegurança, sobretudo junto dos cidadãos mais vulneráveis. Nas entrevistas realizadas é frequente os cidadãos expressarem medo de mudar de fornecedor e tam- bém relatarem experiências negativas associadas a práticas comerciais agressivas dos fornecedores, assim como dificul- dade em contactar telefonicamente as empresas comerciali- zadoras (que muitas vezes têm linhas telefónicas pagas para o atendimento dos clientes). Também as instituições públicas que atuam em áreas conexas, como por exemplo a habitação ou a segurança social, através do desencontro entre políticas e necessidades específicas dos cidadãos, burocracia, comuni- cação distante, interações em que os cidadãos se sentem infe- riorizados e desapoiados, e injustiças percebidas, corroem a confiança com base na qual os cidadãos em pobreza energética poderiam beneficiar de programas de apoio e outras iniciativas projetadas para melhorar o seu bem-estar (Grossmann et al., 2021). Porém, nalguns casos, as juntas de freguesia que desenvolvem relações de proximidade e apoio à população mais vulnerável, surgem como uma instituição a que os cidadãos podem recorrer caso necessitem de ajuda para pagar as suas faturas energéticas. • Informação e conhecimento Devido a diversos fatores históricos e estruturais, em Por- tugal o nível de alfabetização e escolarização da popula- ção permanecem mais baixo do que na generalidade dos outros países da UE. Apesar da evolução em sentido positivo, este cenário continua a ter implicações na literacia dos cida- dãos adultos e na sua capacidade de lidar com assuntos com- plexos como é o caso do consumo de energia. As entrevistas realizadas indicam haver frequentemente dificuldade em entender o contrato de fornecimento de energia (sobre- tudo quando não se trata de tarifários simples, quando exis- tem “descontos” ou quando são adicionados outros serviços). Dificuldades também em avaliar o consumo energético dos equipamentos domésticos, com exceção da perceção de que aquecedores elétricos, frigoríficos e fornos estão entre os que mais consomem energia. A observação do contador de eletri- cidade a rodar mais depressa quando são ligados alguns apa- relhos e o facto de o quadro elétrico disparar quando alguns equipamentos são ligados em simultâneo, constituem formas importantes e intuitivas usadas pelos cidadãos para avaliar o consumo elétrico dos equipamentos. Mas o facto de a eletri- cidade ser fornecida de forma ininterrupta, associado a uma faturação mensal por estimativa ou fixa e a possibilidade de haver períodos com tarifários diferentes, dificulta a aquisi- ção de conhecimento prático sobre a relação entre utilização e custo energético, tornando mais difícil a gestão da ener- gia consumida (ao contrário do que acontece com outras for- mas de energia vendidas à unidade, como por exemplo o gás engarrafado). Em 2019, 54% dos portugueses tendiam a não confiar na administração pública, enquanto a média da UE era 45%. Fonte: Eurobarómetro Em 2020, 44,5% da população portuguesa tinha um nível de ensino inferior ao 3º ciclo do ensino básico, sendo a média da UE 25%. Fonte: Eurostat Mudei uma vez [de fornecedor de eletricidade]. Como lhe digo, fui enganada. Fui enganada!” (Entrevista E53, mulher, 49 anos) Fonte: Ligar Não, não é fácil perceber [a fatura da eletricidade]. Eu não percebo nada.” (Entrevista E3, mulher, 30 anos) Fonte: Ligar Nós tínhamos gás canalizado… mas desistimos, que era… a gente controla melhor o gás por botija.” (Entrevista E23, mulher, 74 anos) Fonte: Ligar

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