ICS Policy Brief 2021 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade

7 ar livre, como zonas com sombra (terraços, quintais, hortas, parques, praias fluviais, por exemplo), seja espaços cobertos (como centros comerciais). Outras das estratégias de adapta- ção ao calor consistem em contactar mais com água (tomando banho mais vezes ou regando espaços exteriores, por exem- plo). O recurso a ventoinhas é normalmente evitado devido ao custo energético, mas também ao medo de que afete quem tem doenças respiratórias e ao desagrado relativamente à cir- culação forçada de ar. Quando acontece, o uso de ventoinhas é limitado a dias excecionalmente quentes, e geralmente ape- nas por períodos curtos. Poucos entrevistados declararam usar ventoinhas durante a noite, sendo as razões indicadas para não abrir janelas o facto de haver ruído na rua, de entra- rem insetos ou o medo de assaltos. • Perceções sobre o clima As perceções de que o inverno é curto e suave e de que já foi mais frio no passado contribuem para uma desvalo- rização das temperaturas baixas em casa, incentivando o recurso a medidas de baixo custo para combater o frio e travando assim o investimento em equipamentos e obras de renovação da habitação que permitam melhorar o conforto térmico. Em contrapartida, a perceção de que as ondas de calor tendem a tornar-se mais frequentes e intensas devido às alterações climáticas induz a população a adquirir equipa- mentos que contribuam para combater o calor em casa. No entanto, devido ao baixo nível de rendimentos e à já referi- da prática de aquisição dos modelos com mais baixos preços, deve antever-se um aumento da procura pelas soluções mais baratas, que não requeiram a realização de obras em casa, nem o recurso a aconselhamento técnico. É, assim, provável que esta conjugação de fatores conduza à adoção de equipa- mentos pouco eficientes e a um aumento do consumo de energia que penalize economicamente os cidadãos devido à persistência da falta de isolamento adequado na maioria das habitações. Se está um ambiente que uma pessoa aguenta, também não é preciso estar uma ventoinha a trabalhar. Primeiro, a eletricidade é cara. Segundo, não tenho assim tanto calor que tenha que ter uma ventoinha a trabalhar. E, se tiver calor, abre-se a janela e a porta!” (Entrevista E1, homem, 84 anos) Fonte: Ligar O número de habitações portuguesas com ar condicionado tem aumentado rapidamente, embora fosse bastante baixo (15,7% em 2015). Fonte: INE À noite é o mínimo [de iluminação]! (…) Vamos comer, acende o mínimo. O mínimo! Porque é caro! Caro, caro!” (Entrevista E3, homem, 58 anos) Fonte: Ligar Nós estamos habituados a passar... não digo a passar frio, mas a ter aquele ambiente. Praticamente não precisamos [de aquecimento]." (Entrevista E91, mulher, 29 anos) Fonte: Ligar • Normas e aspirações sociais Assegurar o conforto térmico em casa no inverno é con- siderado pela UE um indicador básico de caraterização do bem-estar das famílias. No entanto, em Portugal o aqueci- mento da casa é negligenciado, considerando-se normal e aceitável sentir frio em casa durante o inverno. As entrevis- tas realizadas mostram ser muito frequente os cidadãos ques- tionarem-se se vale a pena pagar o custo do aquecimento da casa ou a realização de obras que melhorem o conforto tér- mico, uma vez que este é considerado um luxo face a out- ras necessidades básicas do agregado familiar. Há assim um elevado nível de tolerância ao frio que não se circunscreve apenas aos indivíduos com rendimentos baixos. Também rel- ativamente ao calor existe tolerância, sendo este frequente- mente convertido em saídas de casa para espaços exteriores mais frescos. Esta espécie de tolerância, ou resignação, ao desconforto térmico é reforçada pela valorização social da poupança de energia , que se estende igualmente a outros serviços energéticos, como a iluminação, lavagem de roupa ou cozinha. Neste quadro sociocultural, muitos cidadãos prefer- em não usufruir dos serviços energéticos do que incorrer em despesas que não poderiam pagar ou que consideram demasi- ado altas. Acresce também ser comum a vergonha social em pedir ajuda, ainda que se trate de instituições públicas.

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