ICS Policy Brief 2021 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
6 • Práticas de lidar com o calor As entrevistas realizadas mostram uma utilização muito pontual de equipamentos elétricos para lidar com o calor no tempo quente. Embora seja visível uma crescente intro- dução de aparelhos de ar condicionado nas habitações por- tuguesas desde meados da década de 2000 (tendo-se tornado habitual incluir a pré-instalação deste equipamento nas novas construções), estes não são ainda comuns entre os cidadãos mais vulneráveis à pobreza energética. As práticas desenvolvi- das pela população para lidar com o calor consistem sobretudo na regulação da temperatura interior da habitação através da ventilação natural (isto é, abertura de janelas e portas) e da proteção contra excessiva radiação solar e entrada de ar quente do exterior. Outras práticas adotadas de forma generalizada consistem em adaptar o vestuário, baixar a tem- peratura da água do duche, deslocar-se de divisões da casa mais quentes para outras mais frescas (por exemplo, dormir no piso inferior) e beber mais água (ou outras bebidas frescas). Outras práticas frequentemente referidas pelos entrevista- dos consistem em sair de casa para locais frescos, seja ao • Práticas de lidar com o frio A conjugação de diversos fatores conduziu a que em Por- tugal a prática de aquecer a casa no inverno através de equi- pamentos modernos não se tenha tornado dominante, como acontece na generalidade dos países da UE. Em Portugal pri- vilegiam-se formas de conservação da temperatura corpo- ral (através do uso de roupas e calçado quentes ou mantas), em detrimento do recurso a equipamentos que aqueçam o ambiente doméstico, o que proporcionaria maior conforto. Deste modo, como mostraram as entrevistas realizadas no âmbito do projeto Ligar, à exceção de lareiras, os equipamen- tos de aquecimento são geralmente utilizados apenas nos dias mais frios e de forma bastante restritiva: apenas nas divisões da casa em que são mais necessários, e durante perío- dos tão curtos quanto possível. O uso de equipamentos elétri- cos para aquecimento individual (como cobertores elétricos) é também muito limitado. Outras práticas comuns desenvolvi- das para lidar com o frio consistem em ficar mais tempo na cama (ou ir dormir mais cedo), utilizar sacos de água quen- te, ingerir bebidas e alimentos quentes, ocupar-se com tare- fas domésticas, movimentar-se, ou – se o tempo permitir – ir para a rua para apanhar sol. A principal razão para não usar mais frequentemente (ou de todo) equipamentos de aqueci- mento é de ordem económica, vulgarizando-se quase o hábito de recorrer a formas de calor “natural” (isto é, agasalhos, man- tas ou exposição ao sol). Além disso, a normalização do frio em casa conduz também à habituação e quase aceitação. Em 2018, apenas 28,2%da energia consumida nas habitações portuguesas foi usada em aquecimento, tendo a média da UE sido 63,6%. Fonte: Eurostat Em 2018, apenas 28,2%da energia consumida nas habitações portuguesas foi usada em aquecimento, tendo a média da UE sido 63,6%. Fonte: Eurostat Incapacidade de manter a casa adequadamente aquecida (%) 35 30 25 20 15 10 5 0 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 UE28 Portugal Meto-me na cama e sabe o que ponho mais? (…) visto o robe e meto um kispo velho pela cabeça e aqui à frente, por causa do frio que me vem do teto, dos rodapés… (…) Olhe, meto- me na cama com os sacos [de água quente]… é um nos pés e outro nas pernas e é dos lados e tudo.” (Entrevista E71, mulher, 64 anos) Fonte: Ligar Fonte: Eurostat
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