ICS Policy Brief 2021 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade

5 • Infraestruturas e equipamentos disponíveis Tradicionalmente, em Portugal as habitações são construí- das sem sistemas de aquecimento ou apenas com lareira (que é muito pouco eficiente, por perder mais de 80% do calor pro- duzido, e exige considerável esforço físico para ser alimenta- da, vigiada e limpa). Esta é uma prática construtiva que rara- mente se verifica nos outros países da UE (à exceção de Malta e de Espanha), onde quase todas as habitações têm sistemas de aquecimento central ou outros sistemas fixos. Na UE, a ener- gia mais utilizada para aquecimento da casa é o gás natural. Em Portugal, a maioria da população não tem essa possibili- dade, uma vez que a rede de distribuição de gás natural ape- nas abrange 34% das famílias, localizadas sobretudo nas gran- des áreas urbanas e apenas foi instalado na segunda metade dos anos 1990. Deve-se também ter em consideração que a maioria da população portuguesa utiliza ainda gás de botija em casa, sendo que este é mais caro que o gás canali- zado e ainda não está coberto por tarifas sociais que apoiem o consumo dos mais vulneráveis, embora seja utilizado pela maior parte das famílias menos favorecidas economicamente. • Eficiência dos equipamentos domésticos Na ausência de sistemas de aquecimento fixos, grande par- te da população recorre a aquecedores elétricos, portáteis e de baixo custo de aquisição, mas muito pouco eficientes e com um elevado custo de utilização. A experiência de rece- ber uma fatura de eletricidade demasiado alta depois de ter usado um aquecedor elétrico durante alguns dias foi indica- da por diversos entrevistados como um momento marcan- te a partir do qual deixaram de usar aquele equipamento. As entrevistas conduzidas também indicam que muitos por- tugueses, sobretudo os que têm rendimentos mais baixos, tendem a prolongar o tempo de uso dos seus eletrodo- mésticos até que estes deixem de funcionar, mesmo que já sejam pouco eficientes , como frequentemente acontece com frigoríficos, arcas congeladoras ou televisores, uma vez que não têm capacidade financeira para comprar novos equi- pamentos. Quando compram, muitos escolhem sempre os modelos mais baratos , não tendo em conta a classificação energética dos equipamentos. Isto fazia parte do terreno de uma herança… Nós não tínhamos mais nada… e construímos aqui. (…) Fomos fazendo. (…) Se calhar [a casa] nem uma caixa de ar tem em condições, nem nada. Há 30 anos não se usava…” (Entrevista E81, mulher, 54 anos) Fonte: Ligar [No inverno] é muito complicado porque estas casas são muito… [têm] muita humidade! Não têm os forros [isolamento], não têm…” (Entrevista E23, mulher, 74 anos) Fonte: Ligar Em 2012, 12,7% das habitações portuguesas não tinham qualquer equipamento para aquecer a casa, o que raramente acontece na UE. Fonte: Eurostat Em 2015/16, 78,7% das famílias portuguesas no 1º quintil de rendimentos (mais baixos) utilizavam gás de botija. Fonte: INE Em 2017, apenas 25% dos portugueses disseram ter substituído recentemente equipamentos velhos por novos com melhor classificação energética, contra 32% na UE. Fonte: Eurobarómetro Não compro nada, não tenho dinheiro para essas coisas. Se me oferecerem... Isso [a televisão] foi oferta. E a máquina [de lavar roupa] foi do lixo. Mandei-a compor… dei trinta euros. E o micro- ondas também.” (Entrevista E93, mulher, 46 anos) Fonte: Ligar Eu sei que devia ter aquelas lâmpadas que consomem menos, mas é assim… eu sei que são muito caras, e neste momento não tenho grande disponibilidade. Também, para a luz que eu gasto, sinceramente… (Entrevista E66, mulher, 45 anos) Fonte: Ligar

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