ICS Policy Briefs 2020 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade

8 Quando questionados sobre as ações que estão dispostos a tomar em relação aos impactos ambientais dos atuais padrões de produção e consumo de carne, os inquiridos mostram-se globalmente disponíveis para alterar algumas práticas ali- mentares culturalmente estabelecidas (Figura 4). Assim, quase metade dos portugueses (49%) declara-se disposto (‘razoavel- mente’ e ‘muito’) para reduzir o consumo de carne (49%); um pouco menos declara-se disposto a seguir uma alimentação de base vegetal (43,9%); quase metade também estaria disposto a pagar mais por carne proveniente de métodos de produção mais sustentável (45,0%). Em sentido contrário, mais de meta- de dos inquiridos (32,7%) manifesta a intenção de continuar a consumir carne sem preocupações, independentemente dos problemas associados à sua produção, e 45% estão pouco ou nada dispostos a deixar de consumir carne. Entre os inquiridos que manifestam maior disposição para a mudança de hábitos, destacam-se as mulheres, os inquiri- dos com nível de escolaridade elevado (ensino superior), e os residentes em áreas metropolitanas. Por sua, vez, entre os inquiridos com maior intenção de continuar a consumir carne independentemente dos problemas ambientais que isso cause, destacam-se os homens, a faixa etária mais avançada (>64 anos) e o s que possuem o nível básico de escolaridade. As mulheres apresentam assim um perfil mais orientado para a inovação alimentar (neofilia) ao passo que os homens estão mais enraizados numa orientação mais conservadora/tradi- cional (neofobia) no que à mudança de hábitos alimentares concerne. De resto, apenas 5% dos inquiridos afirmaram já seguir, na altura da inquirição (2018), uma alimentação de base vege- tal (i.e., consumindo sete ou mais refeições de base vege- tal ao almoço/jantar numa semana habitual, num total de 14 refeições possíveis) – embora não se trate de vegetaria- nos, mas sim de flexitarianos – base vegetal com algumas refeições com carne. novamente de novo, sobretudo entre as mulheres, os inquiridos com nível de escolaridade mais eleva- do (ensino superior), e em ambos os polos de rendimento do agregado familiar (i.e., 600€ ou menos, 2039€ ou mais). Ou seja, enquanto os consumidores que se situam no nível de ren- dimento mais alto poderão estar em transição para uma dieta de maior base vegetal, eventualmente por preocupações de saúde e/ou ambientais, os que se situam no polo de rendimen- tos mais baixo provavelmente não têm um orçamento que lhes permita adquirir carne ou peixe com frequência devido à sua carestia (sobretudo o peixe fresco e as carnes vermelhas, optando por carnes processadas e/ou de baixo custo como o frango e o porco), reforçando assim a sua dieta com vegetais (habitualmente na forma de sopa). APOIO A POLÍTICAS PUBLICAS NA ÁREA DA ALIMENTAÇÃO No inquérito fizemos um conjunto de questões que preten- diam indagar quais as atitudes dos inquiridos em relação à implementação de políticas publicas na mudança de hábitos alimentares. Quase 80% dos inquiridos consideram que o gov- erno deve intervir no sentido de promover hábitos alimen- tares mais sustentáveis (com menor impacto ambiental) e melhores para a saúde. Esta postura tende a ser mais comum entre as mulheres, pessoas commenos de 54 anos e mais esco- larizadas, residentes em zonas urbanas e com filhos menores. Verifica-se, aliás, um apoio expressivo por parte dos inquiri- dos ao desenvolvimento de políticas públicas que promovem hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis, tais como o controlo sobre as refeições nas escolas, através da garantia da redução da oferta de refeições menos sustentáveis em can- tinas e refeitórios. Mas também o estabelecimento de acordos com a indústria para redução da quantidade de ingredientes menos saudáveis nos alimentos e a realização de campanhas de informação sobre alimentação saudável, recolhem apoios acima dos 80%. As diferenças em todas as variáveis de car- acterização tendem a ser inexpressivas (idade, género, rendi- mento). De novo, é entre as mulheres, aqueles que têm menos de 54 anos, com ensino superior, rendimentos mais elevados, com menores no agregado familiar e que habitam nas áreas metropolitanas que se regista um apoio mais expressivo em todas as medidas. Concretizando ainda um pouco mais em termos de medi- das na área da sustentabilidade e saúde alimentar (Figura 5), os portugueses tendem a apoiar de forma muito expressiva as medidas que lhes foram apresentadas, em particular a redução do desperdício alimentar (acima de 80%, o que vai ao encontro dos resultados tanto do presente inquérito, como do 1º Grande Inquérito sobre Sustentabilidade, onde já se regis- tara uma grande preocupação com este assunto entre a popu- lação portuguesa). Mas também apoiam fortemente a redução do açúcar e sal (cerca de 60%) e a promoção da agricultura biológica (acima de 70%), mesmo considerando os produtos biológicos mais caros, como já constatado neste inquérito e eventual potencial aumento dos custos.

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